09 de Setembro de 2005

Ir ir

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Gírias e Falares

São poucos brasileiros que conheço que usam o Futuro do Presente a seco, da forma como ele aparece fossilizado nos livros. Queremos parecer menos afetados (e, suspeitam alguns, mais americanos) e recorremos incessantemente ao atalho do verbo ir.

Fora honrosas exceções, no diálogo informal não dizemos “transferirei a ligação”, mas “vou transferir a ligação”.

Não dizemos “ele ficará uma fera”, mas “ele vai ficar uma fera”.

Não dizemos “o professor entregará as notas”, mas “o professor irá entregar as notas”.

Essas liberdades que tomamos de ignorar um tempo verbal inteiro já me confundiram e muito. Certa vez, depois de travar irremediavelmente diante da mais simples das orações, recorri ao serviço do telegramática: “Qual é a forma certa”, implorei ao sujeito que me atendeu: “o homem vai viajar” ou “o homem irá viajar”?

Por dois ou três reais que caíram imperceptivelmente na conta telefônica, oraculou-me aquele anônimo gramático que as duas formas estão corretas. Aparentemente, tanto faz. O homem irá ou o homem vai – de uma forma ou de outra.

Você vai ir?

A nossa liberdade do cativeiro Futuro do Presente, garantida pela intermediação multitarefa do verbo auxiliar ir, gerou inúmeras excentricidades. Foi o Juliano (que trabalhou ao meu lado alguns inesquecíveis meses na SK, hoje é tatuador e de vez em quando deixa uma esmola aqui na Bacia) que apresentou-me sem querer a que considero a mais preciosa delas: a locução verbal ir ir.

Para tocar horror, e por saber o quanto me agradavam gírias e modos de falar pitorescos e/ou inesperados, lembro que o Juliano recorria o tempo todo ao ir ir.

– Você vai ir, Purim? – ele perguntava candidamente, referindo-se a alguma festa.

E, antes que eu pudesse responder, ele mesmo sentenciava, já dispensando toda a idéia:

– Eu ia ir, mas não vou ir mais.

Acrescentei imediatamente o ir ir ao meu rosário pessoal de gírias e falares e uso até hoje, nunca sem nostalgia pelo seu inventor. No que depender de mim, vou ir usando indefinidamente.

Se você se sente incomodado, vá ir ver se eu estou na esquina. Eu devia querer ir ir junto, mas não quero ir ir por enquanto.

Comenta, por e-mail, meu amigão Moisés Cantos:

Péra um minutinho que já VOU INDO!

E aí, neném, belê?

Pois é, a nossa língua tem dessas mesmo. O papa da língua portuguesa, Pascoale Cipro Neto, diz que essa capacidade que a nossa “língua portuguesa brasileira” tem de se adaptar à nova realidade é que a diferencia daquela que é falada na “terrinha” do seu Manoel. É o jeitinho brasileiro atuando em uma área em que a maioria tem mais dificuldades: a língua. Por isso, não se chateie, pois as coisas vão indo desse jeito mesmo.



8 Comentários a respeito de "Ir ir"

Alice

Ir ir. Interessante. :wink:



Julim

É, sei sei… a velha historia de “ir”!



Silvana

Não sei, Paulo. Na hora de usar a locução “ir ir”, meu cérebro bloqueia automaticamente, com exceção do “já vou indo”.

E eu também acho que o futuro do presente soa pedante – prefiro “eu não vou” (sic) a “eu não irei”.



hernan

Hihihi
O “ir ir” é a consequência inevitável de nossa preferência (talvez por querermos parecer mais americanos mesmo) pelo não uso do futuro do presente.
:-)



Jo Lorib

Nas minhas andanças por Goiás, na década de 80, recolhi a seguinte frase de um nativo que virou bordão nosso por um bom tempo:

“Eu peguei aquela estrada e ‘fui fondo’ até chegar”. Fui.



dnoronha

Ouvi um dia desses, um jogador de futebol, na TV dizendo:

– Ele pegou a bola foi…foi…foi…e iu.



Paulo Honório

Mudando de assunto…

Criei a comunidade não-oficial do site no orkut, quem quiser entrar é bem-vindo…

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=10124134



hernan

“o homem vai viajar” ou “o homem irá viajar”?

Acho que a 2ª opção é a correta. Pense comigo: “vai” está conjugado na 3ª pessoa do presente do indicativo. Se o homem não está viajando ainda (desde 09/09/2005), então…

Quer saber. Deveríamos rever a gramática.



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