22 de Outubro de 2005

Imagem é tudo

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em The Net

Antes da Expedição Cordel eu e o Julian só conhecíamos a imagem projetada um do outro. Ai de nós, porque agora nos conhecemos pessoalmente e não temos mais ilusões.

A imagem projetada do Julian era a do artista meio fora de centro cuja obra tendia ao deliciosamente grotesco ; um homem que conhecia Neil Gaiman, morava no bairro de Sinead O’Connor e cuja fibra moral o levava a recusar trabalhos para a Disney; um diretor de teatro que uma resenha recente do New York Times havia descrito (com justiça, garantem-me testemunhas independentes) como “um mestre do equilíbrio”.

A imagem que eu projetava para o Julian era, creio, de um santo que havia renunciado às glórias do mundo e vivia frugalmente, eternamente descalço, numa casinha de madeira no meio do nada; um artista que tendia ao rococó, brincava com as proporções e usava cores fortes; um eremita cristão, marginal e anarquista, defensor dos oprimidos e conhecido por suas tiradas sarcásticas.

Por mais acuradas que fossem (e talvez sejam), essas descrições são seletivas e superlativas; não têm como sobreviver a um exame mais de perto. Durante quase três semanas de convivência sem trégua, não tivemos escolha mas imprimir um ao outro a dura realidade das nossas limitações. De certa forma, creio que essa foi a coisa mais arriscada e importante que fizemos juntos. Repartir o tédio cru da nossa humanidade foi a essência espiritual da nossa viagem.

Ontem à noite, quanto conversávamos no messenger, brinquei com o Julian (como às vezes faço) sobre o quanto ele é famoso.

juliancrouch: mas você sabe o quanto sou sem graça
juliancrouch: na vida real
brabo: eu sou sem graça também, eu sei
juliancrouch: ah
brabo: só fascinante
brabo: à distância
brabo: é o nosso segredo
juliancrouch: não
juliancrouch: nós somos interessantes
brabo: somos?
brabo: mesmo?
brabo: caraca
juliancrouch: apenas aconteceu que anulamos as luzes um do outro
brabo: provavelmente
juliancrouch: fizemos o outro parecer normal

Outro desafortunado que me conheceu pessoalmente foi o Marcos Vasconcelos, em Recife; tivemos uma boa conversar na frente do edifício do Jornal de Comércio na Rua da Fundição, onde o Marcos trabalha. Ele, que esperava conhecer o legendário Paulo Brabo, teve de se contentar comigo.

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Pessoalmente



4 Comentários a respeito de "Imagem é tudo"

Bony

Conhecer o Paulo Roberto Purim é algo para poucos. Sinceramente, acredito que poucos o conhecem em profundidade.

O Brabo é um alvo fácil. Basta clicar e bum! Ele aparece com suas cartas e letras, desenhos e cores.

:cool:

Já tive uma decepção com o Paulo… ao ouvir a vinheta “I love estegossauro… I love estegossauro… I love estegossauro…” criada para a gincana do retiro de jovens no Terra Viva. Eu esperava uma bela vinheta – quase inesquecível quanto a “goibada com requeijão” ou “Deus me deu você”… Ah! “I love” foi uma bola fora.

Mas, de qualquer forma ainda sou um admirador.

Abraços,

:grin:



Marcos Vasconcelos

Na verdade ninguém jamais conhece ninguém o suficiente ou tão bem o quanto gostaria.

Até mesmo os bem casados com anos de convivência e que muito dizem um ao outro sem às vezes nem precisarem falar—quando só um olhar, um suspiro, um dar de ombros, um silêncio oportuno ou não dizem mais que mil palavras, daquilo que mil palavras não bastam pra dizem—se conhecem totalmente. Muitas vezes se surpreendem um com o outro e/ou consigo mesmos. Quantas boas e más surpresas nos aprontamos e aos outros?

Os antigos diziam que para conhecermos bem alguém precisamos comer um quilo de sal na companhia dessa pessoa, o que implica em convivência intensa ou esparsa, mas convivência. Contudo há muitos modos de conviver, e isso é uma longa história e dá pano pra muitas mangas.

A menos que sejamos sensitivos, não dá pra conhecer ninguém em 15min de papo descomprometido e apressado, agravados por alguma obrigação de ofício que nos garroteiae ao nosso tempo vendido. Apesar disso, conversar cara a cara com o Paulo Purim foi uma ocasião e oportunidade marcantes que espero logo se repita quando ele voltar por aqui, conforme prometeu, para passar uns dias em nossa modesta casa. Sei que muito terei a aprender com ele.

Conhecê-lo ao vivo foi muito “mais melhor” do pela web, quando a virtualidade da nossa era, de um modo ou de outro, contamina inevitavelmente com a aura da desconfiança tudo o que vem da ou pela Rede. Nem tudo o que vem na Rede é peixe!

Paulo, conhecê-lo ao vivo foi muito melhor do que ao-byte. Aguardamos a sua visita.

Forte abraço e que o Deus de graça e misericórdia, nosso Deus, continue a te abençoar.
:wink:



Paulo [brabo!]

Como diz um cara que conheço (e que me conhece bem), “quem de nós não é um enigma”? Bony, fico feliz que s sua decepção comigo tenha sido com uma vinheta; muito mais freqüentes serão os que já decepcionei de forma mais grave.

Marcos, nossa conversa serviu, entre outras coisas, para demonstrar que temos ainda muito que conversar. Sua casa é um dos meus destinos, mas devo já à trama improvável da Rede o privilégio da sua companhia. Aguardemos juntos o Retorno do Rei.



hernan

“A imagem que eu projetava para o Julian era, creio, de um santo que havia renunciado às glórias do mundo e vivia frugalmente, eternamente descalço, numa casinha de madeira no meio do nada; um artista que tendia ao rococó, brincava com as proporções e usava cores fortes; um eremita cristão, marginal e anarquista, defensor dos oprimidos e conhecido por suas tiradas sarcásticas.”

Ei, esse é você!



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