Primeiro, teria de ser um livro grande, vasto e redundante e ambicioso.
Na maior parte do tempo, como convém a um romance realista, nada realmente acontece ao protagonista. Vê-mo-lo trabalhando, comendo, pensando, tomando banho, fazendo planos que não acontecerão. Convivemos dostoievskamente com as suas contradições, até a naúsea e depois o tédio. Fica claro que alguma mancha oculta no seu caráter, alguma obsessão que se manifesta num egotismo onipotente, corrói todos os seus relacionamentos e iniciativas.
Em determinado momento o protagonista (numa atitude cuja aparente humildade corresponde a uma reviravolta) busca o auxílio de um terapeuta. Muito cautelosamente no início, muito afobadamente depois, ele expõe a sua obsessão muito particular ao terapeuta e (logo em seguida) ao seu círculo de relacionamentos. Conhecer finalmente essa obessão é compreender a raiz do narcissismo do protagonista, por isso a partir deste ponto todos, inclusive o terapeuta, conspiram sensatamente para que ele se livre dela. A crença secreta do protagonista é, eles demonstram à exaustão, infundada, ilusória e no fim das contas prejudicial para ele mesmo e para os que o rodeiam.
O protagonista acredita que é personagem de um livro.
Depois de meses de terapia e de confrontos dramáticos com o seu próprio narcissismo, ele é finalmente convencido do contrário. O protagonista sente-se livre, pela primeira vez, para viver uma vida normal e buscar o seu próprio destino.
O livro acaba aqui.
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