Esse menino, Francis Fukuyama, tem mais fé do que eu.
Em 1992, diante de maravilhas recentes como a queda do Muro de Berlim (1989), Fukuyama começou a divulgar o Fim da História – não no sentido de que nada mais vai acontecer, mas no sentido de que a partir de agora, neste estágio da civilização, nenhuma mudança importante pode ou deve acontecer. Fukuyama interpretava a desintegração da ala comunista do mundo como um sinal do triunfo final da idéia mais perfeita de todas: a democracia liberal capitalista.
O capitalismo gerou o melhor dos mundos possíveis.
Fukuyama cria (e aparentemente ainda crê) que no início da década de 1990 o mundo havia finalmente abandonado a “moralidade escravagista” das visões de mundo anteriores, alcançando dessa forma a plena maturidade social, histórica e política. Em especial, aquele momento da História teria representado o rompimento final da humanidade com distrações infantis como o cristianismo e o comunismo:
O cristianismo e o comunismo eram ambos ideologias escravagistas que capturavam parte da verdade. Porém no decorrer do tempo as irracionalidades e contradições internas de ambos foram reveladas. O colapso da ideologia marxista no final dos anos 1980 refletiu, num certo sentido, o alcançar de um nível mais elevado de racionalidade por parte dos que viviam nessas sociedades, e a sua percepção final de que o reconhecimento racional universal (sic) só pode ser alcançado numa ordem social liberal.
O círculo fechou-se e todas as questões e tensões da História teriam se resolvido, sustenta Fukuyama, neste nosso mundo pós-cristão e pós-comunista. Cristãos primeiro, comunistas mais recentemente, enxergaram ambos a Luz. Não existe História além do capitalismo porque “não existe uma alternativa concebível capaz de prover um espectro tão grande de benefícios tanto econômicos quanto sociais”.
A nova crença, expressa por Fukuyama mas abraçada inconscientemente por todos, é que o capitalismo gerou o melhor dos mundos possíveis. O novo evangelho é que a humanidade alcançou o nirvana e tudo que resta fazer é “normatizar” a democracia capitalista: aparar as poucas arestas que ainda restam. Fora isso, é só alegria.
Acredite, naturalmente, se quiser.
Não é preciso fé para ver que o cristianismo e o comunismo, da forma como foram colocados em prática historicamente, não serviram para solucionar as tensões da história e promover a justiça e a satisfação que prometiam. O reino de Deus que Jesus desafiou os seus seguidores a implantar ou descobrir permanece, em especial, tão ou mais longe da efetivação do que quando ele o esboçou.
Mas a fé requerida pela crença expressa por Fukuyama é, do meu ponto de vista, muito maior. Naturalmente, hoje em dia todos crêem na justiça inerente do capitalismo, e ninguém proporia uma alternativa à democracia sem correr o risco de ser queimado como herege nas novas fogueiras. Quando Bush frita o Iraque para libertá-lo com o poder redentor da democracia capitalista, ele está sendo apenas sensato – e bonzinho. Se o capitalismo está envolvido, o final será inevitavelmente feliz.
No capitalismo, todos os homens nascem iguais – e desse ponto em diante cabe a cada um se virar para resolver esse problema.
Dito de outra forma, para o cristão e para o comunista todos os homens são iguais no sentido de serem merecedores dos mesmos privilégios (diante de Deus e do Estado), não importa o que façam. No capitalismo, todos os homens nascem iguais – e desse ponto em diante cabe a cada um fazer o que pode para resolver esse problema.
Já que eu sou o mais forte, vamos brincar assim: o mais forte ganha.

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As Variedades da Experiência Capitalista

Farah
Eu tive um professor de filosofia que começava a explicar a impossibilidade do comunismo num sociedade formada por seres que aprendem a falar dizendo com primeiras palavras mãe e meu, pai só vem em terceiro lugar.
Paulo [brabo!]
Também não acho que o comunismo seja possível de se implantar – e depois que vi como tentaram também não quero que ninguém mais tente. O comunismo seria a solução ideal para um mundo ideal. Apenas não consigo, como Fukuyama, celebrar assim de peito tão aberto o que é moralmente, de forma muito evidente (quando muito) a segunda melhor coisa.
A alternativa mais sã seria, como proposto pelas Escrituras e ratificado recentemente pela experiência da internet, a insondável anarquia – ou, para usar termos cristãos, o reino do céu.
Farah
Paulo você precisa ler um livro chamado “The Imperial Animal” dos antropólogos Robin Fox e Lionel Tiger.
Paulo [brabo!]
Ah, sociobiologistas. Simpatizo mais com eles do que com a psicologia freudiana, mas há alguns poucos imperativos e umas poucas biografias que deixam a teoria toda com algumas pontas soltas, e trazem talvez alguma esperança. Paulo sentenciou que há homem carnal e há homem de espírito – e julgo que, pelo menos, poderia haver.
Paulo [brabo!]
Mas quero ler. Favor depositar paperbacks usados e de outra forma imprestáveis na caixa postal do Monastério.