14 de Dezembro de 2005

Filmes de confinamento

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Pense comigo, Sociedade

Os filmes são os sonhos coletivos. Sem premeditação alguma, os filmes de cada época acabam refletindo as preocupações e ansiedades da sociedade naquele determinado momento.

Os anos 50 foram os anos dos filmes de monstro: Them!, The Beast from 20000 Fathoms, Tarantula, O Monstro da Lagoa Negra. Na esmagadora maioria dessas histórias, o gatilho que criava, despertava ou liberava o(s) monstro(s) era algum teste ou vazamento nuclear: projeção do medo da catástrofe nuclear sustentado pela Guerra Fria.

Os anos 70 foram os anos dos filmes catástrofe: Inferno na Torre, Tubarão, Aeroporto, Piranha, Terremoto, O Destino do Poseidon. São filmes em que “a natureza se volta” contra a sociedade pela qual é abusada: projeção do medo despertado pela consciência do esgotamento dos recursos naturais.

A recente discussão sobre o pessoal e o coletivo me fez refletir que os anos 2000 estão sendo (já a partir, talvez, do final dos anos 90) a época dos filmes de confinamento.

Matrix(1999), A Ilha(2005), O Show de Truman(1998), Cubo(1997), Jogos Mortais(2005), Quarto do Pânico(2002), O Náufrago(2000), A Vila(2004), O Terminal(2004) são todos filmes que descrevem as agruras de gente presa, conscientemente ou não, a um universo fechado de cujas retrições anseiam escapar. São filmes de confinamento, cujo conflito básico é a luta para sair. A mesma idéia aparece ainda em inúmeros shows contemporâneos de televisão, como os extraordinariamente bem sucedidos Big Brother(s) e a série de ficção científica Lost.

Não sei como interpretar esses novos sonhos coletivos; por que a nossa nova obsessão com o confinamento? Talvez tenhamos finalmente intuído os limites da Terra: que o planeta não é de modo algum inesgotável, mas pode ser vasculhado num único arrastar de mouse do Google Earth. Talvez estejamos preocupados com as ameaças contemporâneas à privacidade. Talvez os filmes de confinamento sejam projeções da nova escravidão e da inédita liberdade que nos proporcionam a experiência da internet.



9 Comentários a respeito de "Filmes de confinamento"

Bony

Não tinha pensado nisto antes… você abriu minha mente.

Tell me: de onde veio esta linha de raciocínio??? Quem o levou a pensar nisto???



fábiosaneti

Uma forma de analisar a sociedade em que vivemos é observando o comportamento de seus indivíduos. A distinção de cada nação e sua forma de criar sua própria comunicação foi o que levou a todos os tipos de atos cometidos na comunicação em massa.

A ligação do personagem dos filmes atuais, como por exemplo O Show de Truman, com um produto de consumo, reforça a maneira de como tratamos e de como pretendemos predominar uma máscara para a comunicação em massa que transmitimos aos consumidores.

A máscara de Truman é o bem de consumo mais bem elaborado que o meio de comunicação poderia criar, o próprio ser humano. A “coisificação” do ser humano e seu modo de pensar são elevados ao máximo quando tratamos do próprio ser humano como fator para oferta. Estaria o próprio ser humano sendo um produto? Esta questão que reflete em minha mente hoje, nada mais é do que a realidade que adquirimos para conseguir implantar um modo de vida que não é digno de uma sociedade democrática, e sim de um erro no sistema social em que fomos criados e que acreditamos que está certo pelo modo como isso é conscientizado, quase como uma doutrina como refere o texto, “As criaturas entram nessa fase já sendo de há muito receptáculos pré-condicionados; a diferença decisiva [em relação e ele] está no aplanamento do contraste…”.

Isto mostra que a sociedade em que vivemos nos impõe a maneira de viver como um erro, ganhamos com a oportunidade de podermos mudar nossas vidas deixando de pertencermos a uma classe social e passarmos para outra. Isto seria um ganho para a sociedade? Seria uma forma de apenas com o capitalismo que corre em nossas veias desde o primeiro olhar em uma foto tirada por uma câmera Polaroid.

Na sociedade isto não representaria uma mudança de cultura da pessoa, mas sim o ganho de cultura com estudo e bases políticas bem implementadas servindo de alicerce para a população em geral, indiferente de sua classe social.

Este conflito que sugere a manifestação da “idéia de cultura” como um modo de vida urbano, surgindo uma massificação dos privilégios culturais que anteriormente pertenciam preferencialmente a burguesia.

A massificação gerou esta transformação de modo positivo para a sociedade num todo, onde as pessoas com menos poder aquisitivo poderiam conhecer um mais de cultura e ter acesso a bens que o faziam ter um “estilo” de vida melhor.

Mas esta transformação gerou o que chamo particularmente de ganho na propaganda, e a criação de uma área de ganho enorme na sociedade, a era da propaganda e publicidade. Não bastava ganhar o cliente naquele dia, era importante ganhar a fidelidade de uma classe ou perfil de pessoas que atendiam a um determinado tipo de produto.

Com isso se tornou possível agradar a estas pessoas de modo pertinente a ganhar com o equívoco da sociedade achar que o bom era ter este alto consumismo, deixando de preservar a importante idéia de satisfação por conhecimento e educação.

A poluição que isso gerou retrata hoje a nossa cultura. O filme passa uma idéia que poderia ter sido evitada, caso fosse o contrário os ideais de nossa cultura capitalista.

A influência do capitalismo mostra que o modo que ele manipula nossa consciência deixou de lado a cultura que vinha da formação de uma sociedade nivelada pela qualidade em sua própria sociedade, independentemente do valor que se dá aos bens de consumo e ao próprio valor do ser humano.

Truman não deixa de ser um produto, mas mostra a sociedade doente na qual vivemos e nos faz refletir em como é a nossa própria consciência.



Mike Tesliuk

Muito legal o site, parabens.



Farah

Muito legal o conceito de sonho coletivo como vc colocou, mas é um sonho coletivo de cima para baixo quero dizer o Spielberg o Jarmusch o Altman ou o Fellini sonharam e coletivizaram os seus sonhos para nós. Tudo bem eu adoro cinema e seus sonhadores quero dizer diretores, mas eu sempre tive aquele conflito de ver o livros que eu sonhei, quero dizer li e me decepcionei profundamente com o filme/sonho quero dizer a leitura dos outros.

Eu cresci e me estruturei como pessoa lendo; claro me deslumbrei e pirei completamente com o cinema, pouca gente acho que se lembra dos cines Ritz, Curitiba, Palacio, Opera, Avenida, Lido, Arlequim, Astor e o Plaza que ainda está ali. Pois é houve tempo em que eu saia de um e entrava no outro, dois ou três filmes por dia, e para repetir não tinha locadora de DVD não, tem que ir lá no cinema pagar entrada e assistir, uma semana e acabou, só quando passar de novo, se passar e quando passar. Gente eu fui pra São Paulo por que meu tio me avisou que ia ter uma semana de filme alemão e eu queria assistir M o Vampiro de Dusseldorf e o gabinete do Dr. Calegari, filmes que eu só havia lido a respeito e não iam passar em Curitiba nunca. Sonhar coletivamente alguns anos atrás era muito complicado.



Paulo Brabo

Rivoli, Vitória e Condor – especialmente este último. Talvez devamos organizar uma lista dos cinemas antigos de Curitiba e publicar nossas memórias amorosas de cinema.

Quanto ao sonho coletivo do cinema, não sei dizer o quanto “de cima para baixo” ele é. O sonho do cineasta acaba de alguma forma refletindo (e refletindo sobre) o sonho de todo mundo. O filme é diagnóstico e é – até certo ponto – terapia das obsessões da sociedade.

Ah, os livros. Borges também costumava dizer que a literatura é um sonho dirigido, mas um filme vai sempre ser mais coletivo e menos pessoal do que um livro, mesmo se assistido na intimidade do Dolby Surround da sua sala de estar.

Amor é livro, sexo é cinema.



Paulo Brabo

Mais um filme de confinamento para a lista: Land of the Dead(2005), do George Romero de A Volta dos Mortos-Vivos.

Interessante nesse é filme que há duas comunidades diferentes confinadas, vivendo em lados diferentes da mesma cerca.



Thiago Martini

Interessante ter citado “A Vila”.

Após todos os comentários “maldosos” da crítica e do público, ao ver o filme – e gostar muito -, senti traços caricatos de uma forte alusão à religião.

Inclusive, penso que o filme trata também – se não mais – da questão do confinamento ideológico além do confinamento físico, embora este esteja presente por razões óbvias (o filme deve ter se chamado “A Vila” justamente por ser o local de confinamento do qual se deseja escapar).

Acho que “A Vila” é um dos filmes da sua lista que trata com uma maior proximidade psicológica de como a mente humana funciona em relação a “lugares ou idéias das quais se tenta escapar”.

Mais do que somente escapar do lugar, o filme trata da angústia de se desejar escapar de um sistema de regras e crenças pré-estabelecidas, que impediam a protagonista de alcançar seu objetivo; ela teria de se conformar com a morte do amado, já que era contra as regras e crenças se aventurar na floresta.

A moça, mesmo sendo cega, consegue chegar até onde nenhum outro habitante da vila tinha chegado; aliás, muito provavelmente ela só ousou desafiar a via comum DEVIDO ao fato de ser cega; talvez a cegueira é que faz enxergar, já que ela era cega também às opiniões alheias, aquela cegueira para a qual só importa a razão da existência e nada mais.

Ainda na minha lista dos que quero re-assistir, o filme trata claramente com a idéia do paradoxo que pode haver dentro de um mundo isolado, do qual se deseja “escapar”: é justamente uma pessoa aparentemente incapaz que acaba por desafiar tudo o que se tinha como crença estabelecida.

Será que para escapar dos “confinamentos” morais e relativos ao que a sociedade acredita, não será necessária uma dose de “cegueira saudável” em relação ás crenças pré-estabelecidas?

Muito bem observada essa ligação dos filmes com “sonhos coletivos”.



André Antonio

So pra apimentar mais o debate, não é demais lembrar do processo em curso no cristianismo: a busca de liberdade do “confinamento” eclesiástico e, em ultimo grau, religioso.

Esse site e seu ator fazem parte, “sem premeditação alguma”, dos registros das “preocupações e ansiedades da sociedade atual”. Isso pra mim é muito nítido, especialmente nos registros da net. Nos meios de massa ainda não se vê representantes do Êxodo. Eu suspeito que em breve acontecerá tambem na TV, com a volta do Caio Fábio em rede nacional.

De fato, o confinamento é uma ansiedade coletiva atualmente!



Vando

Caro Brabo,

Há mais um para a lista dos confinamentos: V de Vingança, este tratando do mover pela libertação dos homens de suas prisões ideológicas.

Na Internet, de uns 3 anos para cá pululam blogs, sites e artigos debatendo essa ânsia pela liberdade que não é apenas liberdade para ir, mas para ser, a partir da vivência religiosa evangélica.

Afinal, num mundo fragmentado como o nosso, onde todos falam mas ninguém ouve, onde há muitas vozes mas nenhum coração (o amor de muitos se esfria), onde há vários gritos mas são moucos os ouvidos, o anseio coletivo e individual é pelo encontro - não tanto com o outro, mas consigo mesmo.

Vivemos num mundo onde o comum é que “seu nome é legião”. Tal legião não é inteira, é dividida. No entanto o chamado do evangelho é para sermos um; indivíduo.

E nesse caldo, onde todos carregam em si uma grande gama de globalização e nenhuma interiorização o chamado persiste a que caminhemos até a obtenção da pedrinha branca, símbolo da inidividuação proposta pelo Evangelho.

Bjão,



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