26 de Março de 2005

Fé e Crença

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença, Goiabas Roubadas

Fé não é nem crença nem credulidade. Não é uma aquisição razoável nem um feito intelectual; é mais a conjunção de uma decisão definitiva com uma revelação, e convida-me a efetuar hoje a encarnação da realidade última, o Reino de Deus presente entre nós. Sou intimado por uma Palavra que é eterna, universal e pessoal aqui e agora. Aceitar a intimação. Dispor-se a agir de forma responsável, entrando numa aventura ilógica, sem saber sua origem nem o seu fim. Assim é a fé.

A apologética tenta provar que o cristianismo responde às perguntas da humanidade, que ele é verdadeiro e superior às outras religiões. Fica evidente que isso limita nossa discussão ao nível religioso. Somos capazes de demonstrar que o cristianismo pode conduzir um debate razoável. Ocorre porém que esses debates entre intelectuais são totalmente estéreis; um jamais chega a convencer o outro. Nenhum apologeta chegou a trazer um incrédulo para a fé, mesmo os que sabiam que haviam vencido a retórica do adversário. A abordagem meramente lógica e intelectualista leva a um beco sem saída. O intelecto não é capaz de invocar ou demonstrar o caminho da fé.

Se você crê em Deus para ser protegido, coberto, curado ou salvo, então não é fé, porque a fé é gratuita.

A crença é um refúgio e um escape da realidade. Em nossa busca natural por proteção nos agarramos a ela como uma garantia ou uma apólice de seguros. Radicalmente oposta à crença é a fé. Fé é assumir riscos, deixar para trás segurança e tranqüilidade, desprezar garantias: é pisar, como o discípulo, para fora do barco no mar da Galiléia. Se vivemos pela fé, não há necessidade de implorar que ele nos salve do perigo. Torna-se suficiente saber que ele está ali, mesmo que o perigo se mostre mortal; o que quer que o amor de Deus queira fazer ou esteja fazendo em nós será feito, não importa o quê.

Porquê crer? Usando “crer” no sentido de “participar da fé”, não temos nenhum resposta. Acreditar porquê? Com vistas a quê? Para realizar o quê? Para conseguir o quê? São questões sem sentido. Cremos por razão nenhuma. Não existe razão objetiva para a fé; a fé tem de ser vivida. A fé não tem origem ou objetivo. No momento que admite qualquer objetivo ela deixa de ser fé. Se você crê em Deus para ser protegido, coberto, curado ou salvo, então não é fé, porque a fé é gratuita. Isso vai parecer chocante, especialmente para os protestantes, que falaram tanto de salvação pela fé, da fé como condição da salvação, que chegaram a dizer “você crê, por isso será salvo”. Mas temos de ficar voltando à fé e a sua gratuidade. Se Deus ama e salva a humanidade sem pedir preço algum, ele quer a contrapartida de ser crido e amado sem propósito algum; Deus quer ser crido e amado sem que seja por mero interesse pessoal, simplesmente por nada. Isso é escandaloso, e ainda assim tão fácil de compreender se considerarmos o amor. No momento em que um homem e uma mulher se amam por alguma razão concreta, qualquer que seja, dinheiro, prestígio, beleza ou posição, o amor deixa de ser. O amor é sem causa e sem interesses pessoais ; o amor é sem razão.

A fé é o ponto de ruptura, não com os nossos companheiros humanos, mas com as religiões.

A fé é uma constante ação recíproca; ela nunca fica estagnada ou se acomoda. Não se pode encarnar a fé de um modo estático e definitivo. A fé é um perene novo ponto crítico. A fé portanto é a contínua presença da tentação e uma visão cada vez mais clara da realidade. Ela implica na crítica à religião cristã, às missões civilizadoras, aos códigos morais cristãos impostos de fora; crítica a uma verdade cristã que exclua reivindicações sobre si de qualquer outra área da cultura humana. A fé é o ponto de ruptura, não com os nossos companheiros humanos, mas com as religiões. A fé é levada a prosseguir em criticar, julgar e radicalmente rejeitar todas as reivindicações religiosas humanas. Precisamos ser cautelosos nesse ponto. Não são pessoas que estão sendo julgadas ou criticadas aqui; a vontade de poder das pessoas e a expressão disso na forma de religião é que é criticada, julgada e rejeitada. Mas a crítica da religião feita pela fé pode estar enraizada apenas na sua crítica de si mesma.

A fé me leva a tomar parte de tudo, e ao mesmo tempo me mostra tudo sob uma luz que não é a razão, a experiência ou o senso comum. Não se trata de uma operação intelectual, é sim uma atitude existencial. A fé traz a luz a nova pessoa manifestada em amor e lucidez.

Hoje em dia a fé dos cristãos na igreja se desencaminhou. A sua obsessão com o conteúdo da sua fé (teólogos discutindo termos técnicos) ao invés da paixão pelo movimento e pela vida da fé, acabou desencadeando a nossa crise mundial. Mas o imutável permanece imutável. O Último, o Não-Condicionado, o Totalmente Outro não mudou. A fé é nossa responsabilidade de fazer com que o Transcendente, o Não-Condicionado, o Totalmente Outro Ser, torne-se uma realidade ativa dia após dia em nosso contexto, hoje onde quer que estivermos. A fé só move montanhas quando fala ao onipotente criador – quando me sujeito a ouvir a palavra da fé.

Extraído de Fé Viva: Crença e Dúvida num Mundo Perigoso. San Francisco: Harper and Row, Publishers, 1983.

Tradução: Paulo Roberto Purim
Revisão: L. Ivan Volcov


OUTRAS PÁGINAS DESTE DOCUMENTO
Página 1 Página 2 Página 3


10 Comentários a respeito de "Fé e Crença"

Manuel

Não sei se foi de propósito, mas o seu estilo é tão próximo do de São Paulo!!! É claro que prefiro as suas conclusões. Abraço e boa Páscoa.



Paulo [brabo!]

Neste caso a lucidez e a contundência paulinas não são minhas, mas do renegado cristão Jacques Ellul. É claro que as conclusões de Ellul apenas confirmam os argumentos mais apaixonados de Paulo.

Boa Páscoa pra você também, caro Manoel. É sempre bom rever um rosto conhecido que ainda não cheguei a ver.



Manuel Anastácio

Ops… Escorreguei. É o que dá ler as coisas em sofreguidão…



anderson

Olá. Quero saber informações sobre Ellul, em edição em português. Só conheço uma, e da Paulinas, sobre o título de
Arquitetura em Movimento. Gostaria de saber se vcs têm mais informações sobre esse autor que tanto me interessa.
Leio também em espanhol, mas a última informação que tive é que este autor só foi editado em inglês e francês.

grato,



Paulo [brabo!]

Anderson, não conheço nenhuma edição de Ellul em português, nem mesmo essa que você menciona. Tudo que posso dizer é que vale à pena aprender inglês ou francês para mergulhar na obra do sujeito.



cláudio soares

Querido Paulo.

É sempre maravilhosamente inspirador e contundente me deparar com seu imenso talento, isso me faz querer trabalhar mais e mais, assim talvez chegue perto desse estado de maturidade estética e técnica, que é de dar inveja, mas é invejinha boa. Um grande abraço e espero ter sua companhia em meu novo site que sairá em breve.



Paulo [brabo!]

Cláudio amigão, a sua fé em mim é sempre bem-vinda. Avise quando o novo sáite estiver no ar para que, sim, eu possa colocar um pezinho ali também. Abraço forte.



Ed René

Caro Paulo,

Obrigado pela recomendação do Jacques Ellul. Os temas espiritualidade x religião, ou no caso fé x crença me são caros. Tenho me aprofundado no pensamento de Paul Tillich, e em breve devo postar alguma coisa dele. Temo que o as muitas referências nos façam delirar. Mas que fazer, pois que não sabemos viver senão em delírio?



Marconi Bartholi

Paulo,

Que timing é esse que vivemos???

Enquanto devoro o livro novo do Brian (o tal que estou te mandando), The Secret Message of Jesus, que batalha em cima da mensagem do Reino, leio teu post sobre Ellul, interessantemente ao mesmo tempo que este influencia o pensamento de alguém como Brian, não é nem citado neste novo seu livro sobre talvez o tema mais marcante da obra de Ellul (sim, sei que ele escreveu de forma brilhante sobre tecnologia e anarquismo cristão, mas creio que estes dois acabam se encaixando em um tema maior, principal, que é o Reino de Deus!).

E de Presence of the Kingdom (me desculpe, não conheço absolutamente nada sobre ele em português) me arrisco a la Paulo Brabo fazer minha tradução livre:

“A grande característica do trabalho cristão hoje em dia é descobrir uma nova linguagem, uma nova língua que ajude a homens e mulheres a entenderem um ao outro, no pináculo da sua publicidade, uma linguagem que permita-nos abandonarmos a nossa solitude desesperançada… E somente o Espírito Santo pode fazer isso, somente o Espírito Santo pode fazer essa ligação com o próximo!”

Creio que esta passagem traduz a necessidade e o desafio que enfrentamos hoje em comunicar o mistério revelado, tão batido, sistematizado e mal empunhado ao longo da história. Desafio esse que vc pratica tão bem com a ajuda do Espírito! Obrigado pela sempre inspiração!

Aquele abraço a ser dado em agosto!

Marconi Bartholi

PS. Tô atrás de dois livros meio out of print do Ellul, Prayer and Modern Man e False Presence of the Kingdom. Acho que consigo aqui no mercado de usados. Mas se tiver aí me dá o toque!



José Junior

Uma pergunta
A carta aos Hebreus fala sobre Jesus como o autor e consumador da fé! Ele também ‘fundou’ a sua igreja (registra o evangelho). Baseado no seu texto, o que Jesus tinha em mente Fé ou crença? É possível o exercício de uma fé comunitária? Como interpretar o texto “Todos os que criam estavam juntos”? (Atos 2:44). Vamos conversar….



Heaven's Radio
 

 
Inquisição


Arquivos
 

Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
Lista de entrega

Clique aqui para receber o conteúdo da Bacia por e-mail