26 de Março de 2005

Fé e Crença

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença, Goiabas Roubadas

Nesse cenário a diversidade de crenças torna-se intolerável. A dúvida e as incertezas são radicalmente destrutivas para a crença, e em razão disso a crença não pode tolerá-las. A crença é inimiga da diversidade. A diversidade é sempre uma fonte de novos questionamentos e propicia um ambiente para a autocrítica. Diante da diversidade corremos o risco de nos depararmos outra vez com a dúvida. Para evitar esse inimigo a crença precisa ser e é de fato rapidamente transformada em senhas, ritos e ortodoxia.

“Eu creio; ajuda-me na minha incredulidade” (Marcos 9.24) são as palavras que resumem o que é a fé. A fé me constrange acima de tudo a avaliar o quanto não vivo pela fé – o quão raramente a fé enche a minha vida. A fé coloca à prova cada elemento da minha vida e do meu contexto social; não poupa nada nem ninguém. Ela é implacável em me levar a questionar todas as minhas convicções: cada uma das minhas moralidades, crenças e posições políticas. A fé me impede de atribuir significado definitivo a qualquer área da atividade humana. Ela me desprende e me livra do dinheiro, da família, do meu emprego e da minha capacidade intelectual. Ela é o caminho mais certo para me levar a admitir que a única coisa que sei é que nada sei. A fé não deixa nada intacto. A única coisa que a fé me traz é o reconhecimento da minha impotência, incapacidade e inadequação. Ela faz com que eu me depare com minha condição de incompleto, e desmascara minha incredulidade (naturalmente a fé é a arma mais certeira e letal contra as crenças em geral).

A crença é confortadora.

A crença é confortadora. A pessoa que vive no mundo da crença sente-se segura. Ao contrário, a fé continuamente nos coloca no fio da navalha. Embora saiba que Deus é Pai, ela nunca minimiza o seu poder. “Quem é este, que até mesmo o vento e o mar obedecem?” (Marcos 4.41). Essa é uma pergunta da fé. Para a crença as coisas são simples: Deus é Todo-Poderoso. Com a crença nós normalizamos Deus, para que possamos nos sentir confortáveis diante do seu poder. Apenas a fé é capaz de apreciar a imensidão de Deus e a sua verdadeira natureza.

A dúvida, que constitui parte integral da fé, diz respeito a mim mesmo; não diz respeito à revelação de Deus ou ao seu amor nem à presença de Jesus Cristo. Trata-se da dúvida a respeito da efetividade, até mesmo da legitimidade, daquilo que faço e a respeito das forças a que me submeto na minha igreja e na sociedade. Além disso, a fé coloca a si mesma à prova. Se discirno o tumulto da fé dentro de mim, tenho de adotar como primeira regra não enganar a mim mesmo, não me deixando abandonar à crença indiscriminadamente. Passarei a ter de sujeitar minhas crenças a uma crítica rigorosa. Terei de dar ouvidos a todas as negações e ataques dirigidos a elas, de modo que possa compreender o quão é sólido o objeto da minha fé. A fé não apóia meias-verdades e meias-certezas. Ela me obriga a enfrentar o fato de que não sou nada, e ao fazer isso recebo todas as coisas de presente.

A crença está associada a coisas, a realidades e a comportamentos que são elevados ao status de valor definitivo, a ponto de serem merecedores de que se morra por eles. A crença veste realidades humanas finitas para que se apresentem como sendo realidades definitivas, absolutas e fundamentais. Através da crença tudo que pertence ao âmbito da Promessa, da Palavra de Deus e do Reino é transformado em efeito colateral, em palavras doces e piedosas, em meios de tornar a vida mais fácil e num processo de auto-justificação.

A fé trabalha de forma oposta. Ela reconhece o Definitivo em sua verdade incontestável, e assim atribui pouca importância a qualquer coisa que se apresente como substituto desse Definitivo. Não se trata de olhar para uma fonte externa de uma realidade definitiva; o Reino dos céus está agora entre e ou dentro de vocês. A partir de agora você é que constitui o reino. A fé é a exigência de que encarnemos o Reino de Deus agora, neste mundo e nesta época.

Pertencer à Cristandade e a uma das suas igrejas é o principal obstáculo para alguém tornar-se um cristão verdadeiro.

Ninguém jamais progride da crença para a fé, muito embora a fé em muitos, com muita freqüência, degenere em crença. Você não pode chegar à fé por meio de qualquer religião ou crença antiga, através de alguma vaga exaltação espiritual ou de emoções estéticas. De um ponto de vista cristão, crer não é melhor do que não crer; ter uma religião não é melhor do que não ter. A crença é uma estrada que não leva à fé. Não é possível transformar uma convicção pessoal a respeito do valor de rituais num ato de postura solitária diante de Deus. A implicação disso é verdadeira: toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião. Elas induzem a escolhas espirituais que não substituem a fé, impedindo-nos de descobrir, de ouvir e aceitar a fé revelada em Jesus Cristo.

Kierkegaard defende a idéia de que, para uma pessoa criada com toda a cultura do Natal, que teve todas as suas pequenas necessidades espirituais satisfeitas pela igreja, é mais difícil receber o choque da revelação, descobrir o Único, e entrar na noite escura da alma, do que para aquele que não fez outra coisa na vida a não ser buscar continuamente sem nunca chegar a uma resposta satisfatória. Pertencer à Cristandade e a uma das suas igrejas é o principal obstáculo para alguém tornar-se um cristão verdadeiro. Não existe caminho que leve de um pouquinho de religião (de qualquer tipo) a um pouquinho mais e finalmente à fé. A fé destrói toda a religião e tudo que entendemos como espiritual. Por outro lado, a passagem da fé para a crença é possível e uma ameaça constante. É o caminho do retrocesso ao qual a igreja e vida cristã estão sempre sujeitos. A fé está constantemente degenerando em múltiplas crenças. Nenhum termo expressa melhor essa mudança imperceptível do que “ter fé”. Quando nós tomamos posse da fé, quando alegamos sermos proprietários dela, naturalmente estamos pensando que podemos dispor dela do modo que desejarmos. A única coisa que temos o direito de dizer é “a fé me tem”. Todo o resto é mera crença.


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10 Comentários a respeito de "Fé e Crença"

Manuel

Não sei se foi de propósito, mas o seu estilo é tão próximo do de São Paulo!!! É claro que prefiro as suas conclusões. Abraço e boa Páscoa.



Paulo [brabo!]

Neste caso a lucidez e a contundência paulinas não são minhas, mas do renegado cristão Jacques Ellul. É claro que as conclusões de Ellul apenas confirmam os argumentos mais apaixonados de Paulo.

Boa Páscoa pra você também, caro Manoel. É sempre bom rever um rosto conhecido que ainda não cheguei a ver.



Manuel Anastácio

Ops… Escorreguei. É o que dá ler as coisas em sofreguidão…



anderson

Olá. Quero saber informações sobre Ellul, em edição em português. Só conheço uma, e da Paulinas, sobre o título de
Arquitetura em Movimento. Gostaria de saber se vcs têm mais informações sobre esse autor que tanto me interessa.
Leio também em espanhol, mas a última informação que tive é que este autor só foi editado em inglês e francês.

grato,



Paulo [brabo!]

Anderson, não conheço nenhuma edição de Ellul em português, nem mesmo essa que você menciona. Tudo que posso dizer é que vale à pena aprender inglês ou francês para mergulhar na obra do sujeito.



cláudio soares

Querido Paulo.

É sempre maravilhosamente inspirador e contundente me deparar com seu imenso talento, isso me faz querer trabalhar mais e mais, assim talvez chegue perto desse estado de maturidade estética e técnica, que é de dar inveja, mas é invejinha boa. Um grande abraço e espero ter sua companhia em meu novo site que sairá em breve.



Paulo [brabo!]

Cláudio amigão, a sua fé em mim é sempre bem-vinda. Avise quando o novo sáite estiver no ar para que, sim, eu possa colocar um pezinho ali também. Abraço forte.



Ed René

Caro Paulo,

Obrigado pela recomendação do Jacques Ellul. Os temas espiritualidade x religião, ou no caso fé x crença me são caros. Tenho me aprofundado no pensamento de Paul Tillich, e em breve devo postar alguma coisa dele. Temo que o as muitas referências nos façam delirar. Mas que fazer, pois que não sabemos viver senão em delírio?



Marconi Bartholi

Paulo,

Que timing é esse que vivemos???

Enquanto devoro o livro novo do Brian (o tal que estou te mandando), The Secret Message of Jesus, que batalha em cima da mensagem do Reino, leio teu post sobre Ellul, interessantemente ao mesmo tempo que este influencia o pensamento de alguém como Brian, não é nem citado neste novo seu livro sobre talvez o tema mais marcante da obra de Ellul (sim, sei que ele escreveu de forma brilhante sobre tecnologia e anarquismo cristão, mas creio que estes dois acabam se encaixando em um tema maior, principal, que é o Reino de Deus!).

E de Presence of the Kingdom (me desculpe, não conheço absolutamente nada sobre ele em português) me arrisco a la Paulo Brabo fazer minha tradução livre:

“A grande característica do trabalho cristão hoje em dia é descobrir uma nova linguagem, uma nova língua que ajude a homens e mulheres a entenderem um ao outro, no pináculo da sua publicidade, uma linguagem que permita-nos abandonarmos a nossa solitude desesperançada… E somente o Espírito Santo pode fazer isso, somente o Espírito Santo pode fazer essa ligação com o próximo!”

Creio que esta passagem traduz a necessidade e o desafio que enfrentamos hoje em comunicar o mistério revelado, tão batido, sistematizado e mal empunhado ao longo da história. Desafio esse que vc pratica tão bem com a ajuda do Espírito! Obrigado pela sempre inspiração!

Aquele abraço a ser dado em agosto!

Marconi Bartholi

PS. Tô atrás de dois livros meio out of print do Ellul, Prayer and Modern Man e False Presence of the Kingdom. Acho que consigo aqui no mercado de usados. Mas se tiver aí me dá o toque!



José Junior

Uma pergunta
A carta aos Hebreus fala sobre Jesus como o autor e consumador da fé! Ele também ‘fundou’ a sua igreja (registra o evangelho). Baseado no seu texto, o que Jesus tinha em mente Fé ou crença? É possível o exercício de uma fé comunitária? Como interpretar o texto “Todos os que criam estavam juntos”? (Atos 2:44). Vamos conversar….



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