Para o mundo inteiro, existe uma explicação. Uma única.
Foi só recentemente que percebi o quanto a explicação é onipresente. Está na literatura, nos livros de auto-ajuda, nas novelas, no cinema, no bar, no salão, nos enredos de escola de samba, conversando de manhã com o Louro José enquanto prepara o almoço.
Foi a infância do cara.
Quando Freud sugeriu que o comportamento de um adulto poderia ser acionado por gatilhos instalados na infância, não tinha – repito, não tinha – como imaginar a penetração que sua idéia ganharia. Poucas idéias ganharam aceitação comparável em tão pouco tempo.
A psicologia puramente freudiana é controversa em muitos meios e talvez esteja ultrapassada, mas a poderosa idéia que Freud escolheu as palavras certas para enunciar – a noção de que o que explica que somos é uma infância da qual talvez não lembremos – permaneceu.
A onipresença da idéia pode ser diagnosticada em qualquer lugar, mas fica mais fácil se pensarmos no cinema contemporâneo. A que recurso um roteiro de cinema – qualquer roteiro – recorre a fim de explicar o caráter, a visão, as escolhas e o modo de vida de quem quer que seja – herói, santo, vilão, serial killer?
Corta para um flashback da infância do cara.
É assim que ficamos sabendo que o primeiro passo na direção do Lado Negro Darth Vader deu quando era ainda um garotinho de faces coradas. É assim que ficamos sabendo porque Alfred Kinsey ficou obcecado com sexo – um pai distante e repressor, hmm, fale-me mais sobre ele. É assim que ficamos sabendo porque Simba adotou tão rápido e apaixonadamente a filosofia do hakuna matata – ele hesitava em assumir qualquer responsabilidade por ter testemunhado a morte trágica da figura de maior autoridade do seu país e na sua vida: seu pai. É assim que ficamos sabendo porque Bruce Wayne assumiu uma identidade sombria e decidiu dedicar-se à Luta Contra o Crime.
Traumas de infância, todos eles.
Na nova versão de A Fantástica Fábrica de Chocolate os roteiristas afastaram-se sensivelmente do filme original (e do livro no qual ambos foram inspirados) para inserir uma série de flashbacks que apresentam uma explicação freudiana para o comportamento excêntrico de Willie Wonka. O que levaria um adulto a ser obcecado por doces? A resposta é tão óbvia que não é preciso assistir o filme para saber. Mas está lá.
A idéia de Freud é poderosa porque é simples. Como a cena final de O Sexto Sentido, ela explica tudo. Então é por isso que eu sou assim.
Mesmo quem não acredita na reencarnação pode agora estudar tranquilamente os mistérios da sua vida passada, a existência nebulosa que explica e orienta secretamente o nosso destino. Na infância se faz, na maturidade se paga – versão sanitizada e moderníssima da sensacional heresia que sustentava que o purgatório é aqui.
Nunca mais seremos capazes de enxergar a infância, a nossa e dos nossos filhos, da mesma forma. A infância é vista como, basicamente, premonitória. Tudo que acontece a uma criança é, sabemos disso agora, agouro.
Não sei o quanto de fato acreditamos nisso, mas a idéia é tão prevalente, tão óbvia, que não ousaríamos em geral discordar dela. De fato esperamos que tudo nos seja explicado a partir dessa perspectiva. Esperamos que tudo tenha uma explicação, e ficamos gratos que seja tão simples.
Se estivessem escrevendo hoje, os escritores dos quatro evangelhos perceberiam a necessidade de um tratamento mais extenso ao “material” da infância de Jesus – material que, fora o episódio Esqueceram de Mim no Templo, eles ignoram. Qualquer editor teria de lhes dizer isso. Do jeito que está não vende.
Queremos saber mais sobre a infância dos nossos heróis e vilões, e sobre nossa própria, porque cremos que nossos atos e nossas palavras meramente não nos explicam. Não bastam. Não são nossa culpa ou nosso mérito.
Não somos o que somos, somos o que fomos.
Eu vi o tempo.




