22 de Julho de 2005

Entrevista com o Tempo

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Only Time, música da cantora irlandesa Enya com letra de Roma Ryan, pergunta incessantemente:


Quem pode dizer
Que rumo tomará a estrada
E para onde fluirá o dia?
Apenas o tempo.

E quem pode dizer
Se o seu amor se desenrolará
Como escolheu o seu coração?
Apenas o tempo.


Curioso para saber se o Tempo sabe mesmo tudo que lhe atribui a música e a sabedoria popular, resolvi entrevistá-lo.

Não foi fácil. O Tempo é naturalmente um sujeito muito ocupado e foi alegadamente muito difícil para a sua secretária encontrar um momento mais livre de sua agenda para responder as minhas perguntas. Fiquei esperando mais de meia hora na sala de espera antes que o Tempo pudesse me receber.

O Tempo é um homem com braços de homem adulto, pernas de criança e rosto de velho. Ele estava deitado até o queixo na água de uma banheira imaculadamente branca e perfeitamente circular.

brabo. Obrigado por me receber.

tempo. Eu sei.

brabo. Não quero tomar muito do seu tempo, tenho apenas um punhado de perguntas.

tempo. Eu sei.

brabo. É verdade que o senhor sabe a resposta a todas as perguntas? Conhece todo o futuro?

tempo. Sim, é verdade.

brabo. O senhor pode provar?

tempo. Daqui a dois segundos um criado vai entrar na sala empurrando uma nova banheira… agora.

E de fato aconteceu. O Tempo saiu pingando da primeira banheira e entrou pingando na segunda. O criado saiu empurrando a banheira velha sem dizer uma palavra.

brabo. Isso não prova nada. Podia estar combinado entre vocês.

tempo. Não estava combinado. Mas sua pergunta não dizia respeito à predestinação. Mesmo se estivesse combinado, eu sabia.

brabo. O senhor quer dizer então que sabe dizer tudo que vai acontecer? Conhece o futuro de todas as guerras, de todas as catástrofes, sabe quem nasce e quando morre, sabe se o mundo vai acabar em fogo ruidoso ou cinza silenciosa.

tempo. Sei. Em todos os detalhes.

brabo. Para alguém que sabe tantas coisas ruins, o senhor parece muito tranqüilo. Quase zen.

O Tempo sorriu pacientemente e não respondeu, mas eu também não havia feito nenhuma pergunta.

brabo. De que adianta saber tanta coisa e não revelar nada?

tempo. Que juízo injusto! Eu naturalmente revelo. Não há nada que eu não acabe revelando. Como vocês dizem, “o tempo dirá”. Mas no meu cronograma, não no de vocês. Na última hora, por assim dizer. Eu digo tudo, e direi muito mais.

brabo. Qual é então a sua função?

tempo. Educativa, naturalmente. Sou a sua única chance de aprendizado, mas isso deveria parecer meio que óbvio.

brabo. Quando o senhor diz “sua única chance” está dizendo minha, ou a de todo mundo?

tempo. Sua.

brabo. Mas também para todos os outros?

tempo. Também.

brabo. Sabe sobre todo mundo, então sabe sobre mim. Conhece o meu futuro. Sabe se terei filhos, se visitarei o Tibet, se morrerei sozinho ou nos braços de quem me ama.

tempo. Sei. Sei até mesmo as perguntas que você não sabe ainda fazer.

brabo. Tenho de dizer que é frustrante. O senhor sabe tudo mas não pode dizer nada, não antes da hora. Pode dar pelo menos uma indicação mais geral? Com relação ao mundo todo, talvez. As coisas vão melhorar ou piorar?

tempo. Não posso julgar se já estiveram boas, por isso não sei dizer se vão melhorar. Posso talvez afirmar que as coisas vão se acentuar. Mas isso também deveria parecer óbvio.

brabo. O senhor é otimista?

tempo. Você caminha comigo há 37 anos e não sabe ainda dizer?

brabo. Então o senhor pode responder: vai dar tudo certo no final?

tempo. Pra quem?

E o Tempo fez aqui uma pausa levemente irritada.

tempo. Posso dizer ao certo que haverá um final. Mas…

brabo. …mas isso já deveria parecer óbvio. Está bem. Só mais uma pergunta.

tempo. Já não era sem mim.

brabo. De onde eu venho temos a expressão “perguntar ao tempo quanto tempo o tempo tem”. O senhor sabe quanto tempo tem? Quer dizer, quanto tempo lhe resta e quando o tempo deixará de existir?

tempo. Sei.

brabo. Desculpe dizer, mas isso parece não lhe incomodar. Como é que o senhor consegue viver conhecendo o seu próprio e inevitável fim?

O Tempo respondeu depois de uma longa pausa.

tempo. Você também conhece.

Who knows?
Only time.
Who knows?
Only time.



7 Comentários a respeito de "Entrevista com o Tempo"

Alice

Muito legal a sua entrevista. :palmas:



Bart

O tempo passa. O tempo voa. E a sua imaginação continua numa boa. Esse tempo é um perdido, mesmo.

:palmas:



Ivan Volcov

Paulo Purim! Repense, reescreva, mude, a sua história.

Os simples não tremeram de tristeza ao ver o seu conformismo diante do triste fim que você mesmo espera para a sua história.

Desde quando qualquer fim é inevitável? Cabe a você, Paulo, lutar contra o seu “próprio e inevitável fim”.

Apenas você pode dar-se a um fim melhor. Pague o preço, seja um forte.



Lauriza

Lembrando a Vó Iza…
O tempo disse pro Tempo
Que lhe desse bastante tempo
E o Tempo lhe respondeu
Que pra tudo havia tempo…
:roll:

:palmas::palmas::palmas: Palmas para sua entrevista.



Bony

Você tem 37 anos???



Paulo [brabo!]

Conformismo nenhum, conformismo nenhum. O único “inevitável fim” a que me refiro, como fica claro pela minha pergunta ao entrevistado – “quanto tempo lhe resta e quando o tempo deixará de existir” – é a morte, contra a qual não quero e não tenho como lutar. Quanto a lutar contra e a favor do que pode ser mudado em mim e nos outros antes de dar o último suspiro, não espere por favor menos da espada do seu amigo. Chamo o tempo ao banco das testemunhas, e o tempo o deixará abundantemente claro.

Bony, você pergunta se tenho 37 anos à frente ou atrás de mim?



Pacificador

Kronos é um deus que come seus próprios filhos. “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás”.

Por que esperamos a felicidade apenas em sua indefinida prolongação? Por que pensamos na salvação em termos de recompensa?

Viver, supremo dom da divindade, não é a denegação da morte, mas a consciência do tempo que escorre entre os dedos da criança quando ela tenta segurar o oceano na beira de uma praia.

Carpe Diem!



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