08 de Janeiro de 2005

Em virtude da preguiça

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Brasil, Goiabas Roubadas

Brasileiro é preguiçoso de origem, de prática, de vocação. Os funcionários públicos, diz-se, não fazem nada o dia todo além de conversar sobre as injustiças do sistema cujas injustiças coroam e possibilitam. As empresas públicas vivem em perpétuo estado daquele tipo brando de greve cujo nome esqueci, mas que consiste em comparecer ao trabalho recusando-se a fazer o que quer que seja de produtivo.

O ideal da preguiça, o seu ícone, está aí mesmo: em que quem não é funcionário público sonha sê-lo.

No implacável mundo moderno, na verdade, a preguiça começa quase a parecer uma virtude.

Pelo menos, alguém pode argumentar, a preguiça tupiniquim tem nos mantido a salvo de outros tipos (piores?) de vícios. É como o que Tolkien diz sobre os ingleses:

Suponho que o maior vício do cidadão inglês seja a preguiça. E é devido à preguiça, tanto quanto ou mais do que a qualquer virtude natural, que temos conseguido evitar as violências patentes dos outros países. No implacável mundo moderno, na verdade, a preguiça começa quase a parecer uma virtude.

Só um país que não dá a devida vazão à preguiça pode tornar-se tão agressivo e belicoso quanto, digamos, os Estados Unidos. Admiramos as facilidades da vida norte-americanos mas de fato não os invejamos, porque lá pra se viver é preciso trabalhar.



3 Comentários a respeito de "Em virtude da preguiça"

Rivaldo Barboza

Pois é, meu amigo. Conheço de perto esse mal. Sou militar, controlador de vôo, e essa é uma área onde a grande maioria foge, como o diabo da cruz, pois numa torre de controle efetivamente se trabalha. Não existem feriadões, imprensados, ou dispensas sem motivos. Mas, acima de tudo adoramos e que fazemos.
Um abraço.



Paulo [brabo!]

É como diz um amigo meu, Rivaldo: “Alguém têm de trabalhar nesse país”. E logo acrescenta: “Então que seja você”.



Ivan Volcov

Para minha avó materna (87) “preguiça” sempre foi palavrão. Você, dependendo da situação, poderia dizer estar cansado, sonolento ou coisa assim. Mas quem ousasse pronunciar a palavra maldita logo ouvia dela em um tom de completa reprovação: “preguiça é coisa de quem não gosta de trabalhar”.



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