A Associação de Psiquiatria dos Estados Unidos (APA) está indignada com o ator Tom Cruise, que afirmou numa entrevista recente que nunca acreditou na psicanálise, e que a psiquiatria é na verdade uma “pseudociência”. Steven Sharfstein, presidente da APA, disse num comunicado oficial que “é irresponsável que Cruise aproveite sua publicidade para promover pontos de vista ideológicos e tentar convencer pessoas com problemas mentais a que não busquem a ajuda médica de que precisam”.
Uma coisa é lamentar a condição de Cruise, apóstolo da interessante mas improvável igreja da Cientologia ; outra é avaliar até que ponto alguém pode usar a sua popularidade para avançar pontos de vistas ideológicos; outra ainda, provar que Cruise está errado.
Sharfstein alega que as declarações do ator podem levar pessoas com problemas mentais a não buscarem a “ajuda médica” de que precisam. Dizendo assim, o presidente da APA coloca a psiquiatria (e talvez sua irmã menor, a psicanálise) no mesmo patamar que a medicina convencional – ponto de vista pelo menos tão sujeito a controvérsia quanto as proposições da cientologia de Cruise.
O status de ciência da própria medicina já é, para começar, bastante precário. O médico é ensinado a buscar aplicar conhecimentos científicos e tecnológicos de forma terapêutica e em casos individuais, mas isso não quer dizer que se possa classificar a prática médica como “ciência”. Os próprios médicos concordariam que sua atividade está menos para “ciência” e mais para “arte” ou “ofício”.
A psiquiatria e a psicanálise trabalham em geral a partir de terreno ainda menos firme, já que buscam aplicar de forma terapêutica a teoria da psicologia – que se manifesta em dezenas de formas contraditórias e é, por todos os critérios, mais especulativa do que científica.
A APA está lutando, evidentemente, pela imagem da sua categoria, já que estar associado a uma “ciência” é ainda garantia de alguma respeitabilidade (da mesma forma que estar associado à igreja foi no passado). No que diz respeito a mim, eu não veria nada negativo em ver meu ofício classificado como “pseudociência” – rótulo que caberia a inúmeros ramos do conhecimento que me interessam, como a literatura, a filosofia, a ufologia e a metafísica.
Porém todos confirmam a eficácia daquilo em que acreditam. Pergunte a Cruise.





