
Há dois tipos de pessoa: as que começam a comer a coxinha pela ponta e as que começam a comer pela parte mais grossa. Confesso que foi apenas recentemente que descobri a existência do segundo grupo: até poucos anos essa “opção comportamental” me pareceria inteiramente inconcebível – mas agora, posso dizer com orgulho, já cresci como pessoa, amadureci e a nova conduta não me choca mais.
O jeito que você come a coxinha revela muito sobre você.
Ouvi os dois lados da questão. Os partidários de atacar a coxinha pela ponta (Figura A) alegam que a ponta é, enquanto ponta, o lugar ideal de se começar. A ponta é o arremate natural da coxinha; é mais visível e mais fácil de abocanhar; não requer aquela abertura deselegante de mandíbula que exige, digamos, a outra opção.
Os partidários de começar mordendo a rotunda (para evitar outra palavra), alegam que a ponta da coxinha foi ergonomicamente projetada para segurar, não para morder (Figura B); a ponta seria, digamos assim, um cabo, uma pega, como a casquinha do sorvete. Esse método teria ainda a vantagem natural de permitir que, na primeira bocada, o sujeito parta direto para o abraço: que chegue sem mais delongas ao cerne da questão, o espírito da coisa, o recheio da salgadinho.
Há, acabei descobrindo, livros e mais livros escritos sobre o assunto. Recomendo, em especial, Ô Coxinha Tão Bonitinha do Pai, de Diogo Mainardi, que cobre de forma abrangente os dois lados da controvérsia – embora acabe se mostrando levemente parcial em favor da rotunda. O IBOPE estava para disponibilizar controversas estatísticas sobre a distribuição geográfica do comportamento, mas não obteve a devida autorização de Brasília. Aqui no Paraná posso dizer com segurança que os conservadores, que começam pela ponta, são a maioria. No interior de São Paulo e no Rio de Janeiro, já me disseram, não há quem pense em não começar pela rotunda. Aqueles pervertidos.
Por onde você começa?
A milenar prática da coxinhomancia, diz o Houaiss, é a arte de se determinar a personalidade e o futuro da pessoa pela extremidade por onde ela escolhe começar mordendo a dita. Os que começam pela ponta seriam mais ágeis, mais inteligentes, mais equilibrados, mais bonitos, mais fortes, mais honestos, mais criativos, mais generosos, mais emocionalmente estáveis, mais bem-sucedidos e – curiosamente – mais modestos.
Isso, naturalmente, sem entrar no terreno da interpretação freudiana. É melhor parar antes a discussão.
A amizade continua a mesma1.
NOTAS- No terceiro capítulo de De Rerum Coxinorum o historiador romano Agrablasto fala de uma obscura seita que começava a comer a coxinha pelo lado – o que já era escandoloso e notável mesmo para a época. [↩]




