Mais imprudentes que as virgens loucas da parábola, eu e o Hélio tínhamos caminhado descalços para a praia naquela manhã em Balneário Camburiú; era agora mais de uma da tarde, o sol estalava e tínhamos de voltar andando para o apartamento. Eu ia sozinho carregando tralhas e o Hélio carregava no colo o Arthur – a Karline, sempre a precavida, caminhava adiante de nós sensatamente calçada.
“Água não se nega, como se diz.”
Faltava ainda um bom trecho até o apartamento lá na frente, não havia sombra visível e as solas dos nossos pés assavam da forma mais brutal na superfície liquefeita do asfalto. Eu e o Hélio saltitávamos num improvável balé, tentando adiar a carbonização completa dos membros inferiores, quando ele viu água fresca descendo por uma calçada rebaixada próxima, onde um sujeito estava lavando o carro. Corremos até lá.
Pousamos o pé na água da calçada, e o alívio já foi grande. Depois de pensar um segundo o homem, apiedando-se de nós mas sem olhar-nos diretamente nos olhos, dirigiu o refrescante jato da mangueira diretamente sobre os nossos pés. Quando agradecemos efusivamente aquele refrigério, o homem, como se sua bondade precisasse de qualquer justificativa, disse: “Água não se nega, como se diz”.
Chegamos ao apartamento sem maiores dificuldades, pela bondade daquele sujeito.
Um estranho lavou os meus pés. Bem-aventurado seja.




