Conforme lembrou o pau-de-arara na sua discussão com o carioca,
O Brasil é todo meu
o homem precisa andar
para poder desfrutar
do país onde nasceu.
O Brasil é um vasto enigma, um labirinto de proporções continentais, e é preciso de várias indicações (em geral muito distantes umas das outras) para se começar a deslindar esse fio. Uma das surpresas da minha viagem ao nordeste foi encontrar sem estar procurando algumas chaves que me ajudaram a compreender um tiquinho a mais o Brasil – e portanto, compreender mais a mim mesmo.
Ainda no Rio de Janeiro, depois de assistirmos pela primeira vez aO Auto da Compadecida, perguntou-me o Julian se o personagem de João Grilo era tradicional no nosso folclore ou havia sido criado para a peça [de teatro que gerou o filme]. Muito ignorante, afirmei que nunca tinha ouvido falar do João Grilo antes do Auto e disse que achava que Ariano Suassuna o tinha tirado da própria cachola com base no perfil do nordestino ladino (que também aparece na discussão com o carioca).
Logo que cheguei a Fortaleza o Engenhoso Fidalgo Dom Arievaldo Viana, ele mesmo um dos mais ladinos e talentosos cordelistas da nova geração, corrigiu na lata a minha impressão. Explicou-me o Ari (naquele restaurante na beira da praia que para seu desespero cobrava quatro reais e oitenta centavos a garrafa de cerveja) que João Grilo é figura tradicionalíssima da literatura de cordel e mais ainda – que veio importado até da Europa.
A diferença entre o João Grilo do nordeste e o das Europas, disse-me Ari e confirmam todas as fontes, é que na travessia do Atlântico ele espertou. Segundo o pesquisador Ribamar Lopes, o João Grilo que aparece nos contos populares portugueses “em nada se parece com o nosso endiabrado, inteligente e ardiloso João Grilo nordestino em que o transformamos. O personagem de um dos mais conhecidos contos da tradição oral portuguesa é um tolo, um falso adivinhão favorecido pelas circunstâncias.” O João Grilo português é um simplório que leva a melhor sem qualquer premeditação e por pura sorte – um antepassado transatlântico de Forrest Gump.
O João Grilo brasileiro, mais chegado à malandra linhagem de Pedro Malazarte, é um cabra pobre que aprende a usar artimanhas para vencer os poderosos e corrigir injustiças. É, sem tirar nem pôr, o personagem feio, “amarelo”, desnutrido, franzinho e atinado que aparece em O Auto da Compadecida. Seu primeiro grande celebrador foi o poeta João Ferreira de Lima, que publicou na década de 1930 um folheto de oito páginas chamado As palhaçadas de João Grilo, mas tarde ampliado por outro autor e publicado sob o título Proezas de João Grilo.
O João Grilo de João Ferreira de Lima é ainda um moleque mirrado e malcriado; é apenas na segunda porção das Proezas de João Grilo, redigida na década de 1940 por Delarme Monteiro (ou talvez João Martins de Athayde) e acrescentada ao texto de João de Lima, que toma corpo o Grilo sábio e justiceiro que aparece no Auto.
Da primeira fase de João Grilo, a de moleque, recitou-me Arievaldo Viana, na mesma noite e antes de partirmos para um baião de dois e carne de sol no Dragão do Mar, os seguintes e impagáveis versos:
Um dia a mãe de João Grilo
Foi buscar água à tardinha
Deixou João Grilo em casa
E quando deu fé, lá vinha
Um padre pedindo água
Nessa ocasião não tinha
João disse: só tem garapa
Disse o padre: d’onde é?
João Grilo lhe respondeu:
É do engenho Catolé
Disse o padre: pois eu quero
João levou uma coité1.
O padre bebeu e disse:
Oh! Que garapa boa!
João Grilo disse: quer mais?
O padre disse: e a patroa
Não brigará com você?
João disse: tem uma canoa
João trouxe uma coité
Naquele mesmo momento
Disse ao padre: bebe mais
Não precisa acanhamento
Na garapa tinha um rato
Estava podre e fedorento
O padre disse: menino
Tenha mais educação
E porque não me disseste?
Oh! Natureza do cão!
Pegou a dita coité
Arrebentou-a no chão.
João Grilo disse: danou-se!
Misericórdia, São Bento!
Com isso mamãe se dana
Me pague mil e quinhentos
Esse coité, seu vigário
É de mamãe mijar dentro.

Digilogravuras deste que vos fala
1 Cuia feita da casca da fruta coité.

Bart
Bom saber que você voltou e voltou bem. Melhor saber que a expedição foi um sucesso. O que, neste caso, não é nenhuma novidade, já que você estava envolvido. Mas ao tomar conhecimento da origem “européia” do João Grilo e suas peripércias, acho que esse cabra também se bandeou lá pras bandas dos estaites. Pois tem um tal de Bart Simpsu, sujeito aprontador. Sei que não é igual, mas é que nem. Não tem maldade, só gosta de dar bem.
Grande abraço, meu amigo.
Seja-bem vindo.
Arievaldo Vianna
Além de JOÃO GRILO, mestre Ariano inspirou-se em mais três folhetos de cordel para compor O AUTO DA COMPADECIDA. São eles: O CAVALO QUE DEFECAVA DINHEIRO e O TESTAMENTO DO CACHORRO, de Leandro Gomes de Barros e O CASTIGO DA SOBERBA, de Manoel Vieira do Paraíso.
julian
oy a heeema!
ARIEVALDO VIANNA
HELLO JULIAN!
ÓIA AÍ, MAAAAAA…
ÓIA AÍ, MACHO!!!
ÓIA AÊ, DIACHO!
julian
Greetings Arievaldo! How do I spell “aaaallllaaaadriill”?
ARIEVALDO
HEY, JULIAN,
NO SPEAK “AAAAAALLLLAAADRILLL”
YES “AAAAAH! LADRÃÃÃÃÃÃÃOOOO!!!”
julian
AAAAAH! LADRÃÃÃÃÃÃÃOOOO!!!