Outro dia recebi um email da Rosicler, de resto muito amigável, em que ela dá a entender que sou, de alguma forma e de uns tempos para cá, um “novo Paulo” – não exatamente aquele do qual ela se recorda. A Rosi não chega a dizer que isso é uma coisa negativa, mas achei significativo porque ela não é a primeira pessoa a sugerir a mesma coisa.
É um comentário inquietante de se ouvir porque sinto-me, basicamente, o mesmo. Os temas que povoam a Bacia me assombram, em maior ou menor grau, desde que tenho dez ou doze anos de idade – indicação de que, do meu ponto de vista privilegiado, de dentro, pouca coisa mudou.
Porém quando pressionado dessa forma consigo ver que, sim, para os outros, alguma coisa deve ter necessariamente mudado no que se esperava de mim e em mim.
A resposta mais curta que posso fornecer aos perplexos é que, dentro de um processo iniciado há mais ou menos quinze anos, abandonei duas virtudes que eu antes considerava de importância fundamental. A ausência dessas virtudes é, com toda a probabilidade, a mudança que os outros enxergam em mim.
Tenho de confessar que essas virtudes pareciam, a mim também, parte essencial do que sou. Eu lutava com todas as forças para exprimi-las de todas as formas. Por isso, de certo modo, não é de estranhar que sem elas eu pareça para os outros definitivamente outro – o Novo Paulo, para eles não necessariamente superior ao Velho.
Sobre o processo que desencadeou essa mudança posso explicar pouco. É fundamental, no entanto, que eu diga que nesses dez últimos anos estudei o Novo Testamento mais apaixonadamente do que jamais havia feito. Minha admiração pelo conteúdo da mensagem do evangelho é hoje muito pessoal e muito mais intensa. Há também, é claro, pessoas-chave que serviram de poderosos gatilhos de auto-conhecimento – especialmente o Néviton, a Olívia Garcia, o Ivan. Todos esses, no entanto, ajudaram-me apenas na medida em que apontaram para a mesma fonte e para o mesmo Mestre.
Se abandonei definitivamente algumas virtudes é porque fui convencido pelas palavras, pelo exemplo e pelos seguidores de Jesus de que essas atitudes em particular não eram realmente virtudes, mas vícios – falhas de caráter que eu teria de abandonar para o meu próprio bem e do meu próximo.
A primeira virtude falha de caráter que abandonei foi minha obsessão em agradar os outos.
Os outros sempre me interessaram mais do que a mim mesmo. Desde que me conheço por gente e no processo fundamental de definir o que sou, decidi que viveria para os outros, muito mais do que para mim. Ou: descobri e decidi que eu só faria sentido diante de mim mesmo na minha relação com os outros – especialmente por eles. Alguém que não tivesse paixão pelos outros, percebi, não seria eu.
Minha decisão não mudou, é claro, por isso não é correto dizer que mudei. Meu erro fundamental foi crer que para amar os outros eu deveria lutar pela aprovação deles e que para ajudá-los eu deveria agradá-los – o que fiz, como se sabe, com toda a diligência.
Hoje me parece muito evidente que amar as pessoas não é o mesmo que agradá-las ou ganhar a aprovação delas, mas sou um sujeito teimoso. Foi necessário um processo de quase duas décadas para que eu me convencesse do contrário – processo durante o qual lutei teimosamente contra a evidência da vida e das Escrituras.
Hoje o contrário é que me parece evidente. É claro, vejo agora, que o modo mais desonesto de amar as pessoas é agir deliberadamente de modo a ganhar a apovação delas. É evidente que a forma mais certeira de não ajudar uma pessoa é dizer aquilo que ela quer ouvir.
Como permaneço eu mesmo, não me arrependo de forma alguma de todo o tempo, recursos e dinheiro que gastei no serviço dos outros. Não me arrependo da companhia, da comunhão, das esmolas, dos favores, dos empréstimos, dos abraços, dos passeios. Eu faria tudo novamente, e muitas vezes. Faria muito mais e de forma mais radical – e espero de fato fazer.
Arrependo-me profundamente, sim, de ter feito essas coisas acreditando que as outras pessoas estavam sendo beneficiadas pela magnanimidade dos meus esforços. Arrependo-me de ter acreditado que para os outros o mero fato de gostarem de mim tornava-os automaticamente pessoas melhores. Arrependo-me de ter dito o que as pessoas queriam ouvir quando o que poderia salvá-las era a verdade da qual elas prefeririam fugir. Arrependo-me de não ter amado como convém.
Abandonei a virtude/obsessão de agradar os outros porque fui finalmente forçado a engolir a terrível sentença de Jesus em Lucas 6:26: “Ai de vocês quando todos falarem bem de vocês, porque os seus antepassados tratavam os falsos profetas da mesma forma”.
Os falsos profetas, naturalmente, fazem com que você se sinta bem. Eles dizem o que você quer ouvir por que querem te conquistar a todo custo – até mesmo ao custo da verdade.
Minha paixão pelos outros apenas aumenta, mas não tenho qualquer ambição de profeta – especialmente de falso.
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Leia também:
A segunda virtude que abandonei



Carol
Acho que você está querendo “comunicar” mais alguma coisa (olha a psicologia aí!!!!!), ainda mais profunda do que todo esse discurso (que foi interessante por sinal!)… Paulão… tô só provocando… relaxe!
Paulo [brabo!]
Você deve estar certa, Carol, como sempre. O que concluí é que o meu foco permanece tão centrado nos outros que eu não ousaria fazer a minha terapia num fóro que não fosse público.
Farah
Não existe nada mais egoístico e auto-indulgente do que a necessidade, digamos compulsiva, de ser aceito. Isto normalmente nos turva a mente, pois a resposta que temos é primariamente satisfatória, uma vez que não há esforço praticamente algum por parte do objeto de nossa falsa subserviência, em busca de uma aprovação, em concedê-la, apesar desta poder e na maioria das vezes ser falsa. Corrigir-se deste mal é uma das primeiras coisas realmente importantes a se fazer num processo de crescimento psicoemocional. Não que seja fácil superar este tipo de perfil, que pode dentro do grau existente ser profundamente patológico, mas uma pessoa em busca de um nível de equilíbrio satisfatório deve empreeender todo o esforço no sentido de superar essa necessidade. A pena para quem não consegue é terrivel, e consiste na desaprovação total e final desta pessoa, mesmo que não seja totalmente percebido por ela que não existe nada mais egoístico e auto-indulgente do que a necessidade, digamos compulsiva, de ser aceito…