Eu tinha 18 anos quando entrei pela primeira vez no velho Gol de uma auto-escola em Bauru. Meu instrutor, um sujeito de meia-idade com um rosto ao mesmo tempo cansado, entediado e compassivo, perguntou Você sabe dirigir e respondi Não. Era verdade. O homem ligou o carro num suspiro silencioso que parecia expressar A gente encontra cada tipo.
Descobri apenas mais tarde que eu havia sido mantido vivo artificialmente numa bolha antropológica e automobilística, e que qualquer menino que se preze sabe dirigir e/ou manobrar desde os dez anos de idade (alguns, como o Arthur, desde muito antes).
Tenho em minha defesa que, por alguma razão, desde cedo uma enorme quantidade de desinformação sobre o assunto havia sido despejada sobre mim. Eu deveria ter uns quatro anos de idade quando algum espertalhão me informou (ou, possivelmente, imaginei) que Dirigir era muito difícil porque quando você vira o volante para um lado o carro vira, traiçoeiramente, para o outro. Isso para não mencionar a impensável coordenação necessária para apertar-se os pedais certos na hora certa e na ordem certa, empurrar o câmbio na direção certa, na hora certa e na ordem certa, virar a direção, especialmente esta na direção certa e na hora certa, olhar o tempo todo para a frente e ao mesmo tempo patrulhar oniscientemente os espelhos retrovisores – lembrando ainda de usar mãos, pés e olhos na hora certa, na direção certa e na operação certa (pelo menos naquela época não era preciso falar ao mesmo tempo no celular, e pensando bem talvez seja por isso que até hoje não tenho um). Era necessário um semideus para dominar a coisa toda.
Além disso, por razões que só os pais, aquela estirpe particularmente misteriosa de semideuses, saberiam compreender, meu pai proibiu-me explicitamente e advertiu-me severamente contra tocar na direção antes que eu completasse dezoito anos. Esse foi um dos raros casos registrados na literatura médica em que a proibição não produziu a tentação – com dezoito anos eu me interessava por um número notável de coisas, mas dirigir não era uma delas.
Naquela gloriosa tarde num bairro isolado de Bauru, quando comecei a pegar literalmente no tranco, o dom de dirigir permanecia na minha cabeça uma ousada e mística operação de alquimia, cujo sucesso dependia tanto de imponderáveis ingredientes secretos quanto da pureza de coração do candidato. A literatura, a arte e o amor eram em comparação operações mecânicas, estáveis e previsíveis. Como um desanimado candidato diante da pedra de Excalibur, eu sentia que se dependesse de mim daquela rocha não saía espada.
Ignoro o número de horas que concedi ao meu instrutor da minha graciosa companhia, mas o tempo que demorei para aprender a dirigir deveria estar também registrado na literatura médica.
Uma tarde, meses depois daquela primeira aula, eu estava dentro de outro Gol com dois outros candidatos e um austero fiscal, pronto para fazer o meu teste de direção. Olhando pela janela para o meu instrutor em pé lá fora, pensei ver nos olhos dele um misto de desespero e incredulidade. Se havia naquela expressão algum traço de otimismo com relação ao desempenho do seu discípulo, era infundado.
Aquele foi o meu primeiro exame de direção. Eu só seria aprovado no quarto na quarta tentativa.
continua…


Bony Chiarelli
Não acredito!!! Só no quarto???
Paulo [brabo!]
Palhaço
.
Bart
No idos de 1900 e qualquer coisa você já havia me contado esta história. Mas hoje posso dizer que valeram a pena todas estas tentativas, afinal, você guiou até o longínquo estado do Espírito Santo, com o “Azul Corsinha” e nada aconteceu. Deve ter sido bênção, do próprio.
Bony
Ok… peço desculpas por ter sido indelicado. Mas não precisava mudar o texto.
Sinceramente, estou até me sentindo culpado…
Bony
Embora eu tenha sido aprovado no primeiro… já destruí o retrovisor do meu carro no portão de sua antiga casa…
[rindo] estamos 01×01.
Alice
Vou defender o Paulo! O exame pra conseguir a “carta” de motorista (como eles chamam lá!) não é fácil em Bauru ( como é em Curitiba). Além de dirigir na rua, vc tem que fazer baliza em rampa à direita, baliza em rampa à esquerda, estacionar 45 graus etc. Essas coisas são fáceis agora, mas pra um aprendiz em pleno teste não são fáceis mesmo. Eu vi MUITA gente chorando por não ter passado naquele exame. Eles eram bem rigorosos.
Ivan Volcov
Bart :smile:, não seja tão generoso com o Paulo :shock:. Em minha versão da história da viagem, fomos eu
e a semideusa Olívia
que mais dirigimos naquela viagem ao Espírito Santo. O Paulo
aprendeu com a gente. Agora, posso garantir que ele está, quase, pronto.
Paulo [brabo!]
O Ivan está certo, Burt, quanto àquela precipitada subida ao Santo Espírito. Minha primeira viagem interestadual, como eu esperava contar mais tarde, foi quando dirigi de Curitiba a Petrópolis numa pegada só, num carro alugado, com o Jorge resmungando no banco de trás e o Néviton tentando me ensinar incessantemente a fazer as curvas “pela tangente”. O primeiro estava sem carteira e o segundo quase cego, por isso restei eu. Isso foi mil dias antes do Ivan e da Olívia, meus mais saudosos motoristas, entrarem na história – por isso ele não tem como lembrar. Mas o verdadeiro prêmio cabe, como se verá, ao meu anônimo instrutor.
Bony
O Paulo me confessou… hoje ele se acha um motorista capacitado – um bom motorista.
Mas, dirigir não é algo de seu “bookmarks” cotidiano.
Alice
Se me perguntarem, eu não gosto de dirigir. MESMO! Eu o faço porque preciso. Só por isso!
hernan
Cadê o resto da história?
Junior
- Só depois da carteira, dizia meu pai.
Como obediente (pobre), só aos vinte (20) anos, tirei a carteira. NOTA: 10 e no primeiro exame. Um mês depois aquele carro, aquela curva, aquela árvore, sei lá… Pow! Traumatismo craniano, coágulo no cérebro, deslocamento na “bacia”, braço e femur direito quebrado, ameaça de esmagamento de estômago e bexiga, pontos pelo corpo e quatro horas e meia em coma. Sem contar a vítima fatal e o Fusca do velho que levou PT (Perda Total).
Último serviço: entregador de jornal, tem que ser no horário (impossível) a entrega, Kombi velha de um retrovisor.
Só luta. Até quando por aqui, hein?!
hernan
Vítima fatal?