02 de Fevereiro de 2005

Admira-me as mulheres

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Homens e Mulheres

Às vezes penso que a diferença fundamental entre homens e mulheres é que as mulheres não são em geral capazes de nutrir admiração pelo que quer que seja. Os homens procuram definir-se pelas suas lealdades, todas elas desenvolvidas a partir do que cada um de nós considera inerentemente admirável – digamos, a literatura, os direitos humanos, as artes plásticas, a aviação, a filosofia ou todas as indesgastáveis facetas do esporte.

É isso mesmo, isso mesmo. A diferença está em que os homens admiram e as mulheres não. O homem admira um autor; a mulher não gosta do livro. O homem admira a argumentação de um oponente; a mulher fica chocada diante da crueldade dele. O homem admira a complexa arquitetura de uma obra cinematográfica; a mulher gosta do fime. O homem admira as filigranas que sustentam e determinam o sucesso da sua própria participação (e a de outros) em determinado esporte; a mulher não gosta de futebol.

Entendo que mulheres (especialmente as jovens e não-desiludidas) organizam fã-clubes, desdobram posters e dão gritinhos emocionados quando expostas aos peitorais politicamente corretos – mas do ponto de vista masculino isso não é de modo algum admiração.

Explico melhor. Outro dia eu estava com um grupo misto esperando não lembro o quê num estacionamento. Dois amigos admiravam uma motocicleta, e as três ou quatro moças que estavam conosco observavam entediadas a cena. A coisa só passou a demonstrar algum interesse para elas quando surgiu o dono da moto, um sujeito unanimemente jovem, bonitão e musculoso. Quem visse os olhares das meninas poderia imaginar que elas estavam admirando o sujeito – mas não, espere aí um minuto. Quando eu e meus amigos trocamos uma ou duas palavras com o cara, que mostrou ser admiravelmente cordial e gente boa para alguém vestido de calça e colete de couro, o sujeito de imediato perdeu qualquer interesse para elas. No microssegundo em que ele deixou de ser um rostinho bonito e passou a ser um cara inerentemente admirável, as mulheres tiveram de deixar de expressar a sua admiração.

Primeira conclusão: não importa quão admirável você seja, uma mulher nunca vai deixar você saber.

Os homens, com admirável freqüência, admiram outros homens – e, naturalmente, mulheres. Com admirável freqüência, eles expressam essa admiração. As mulheres, que eu perceba, não admiram ninguém – nem elas mesmas, quando acontece de serem admiráveis, o que também acontece com admirável freqüência.

Admiração é, basicamente, uma lealdade diante do assombro de perceber-se diante de algo fundamentalmente maior. É lealdade a uma pessoa, quando o homem percebe que há algo fundamentalmente imitável, único e assombroso nela. E é em especial lealdade ao jogo©, quando o homem percebe que o jogo© é maior do que ele e, portanto, maior do que qualquer coisa – até mesmo (e aí é que a coisa pega) maior do que o relacionamento com a mulher.

Porque para a mulher, meus caros amigos, é inconcébivel que algo seja mais importante do que o relacionamento. Para ela dizer isso é o mesmo que defini-lo como um não-relacionamento. Para a mulher a lealdade a uma idéia (que é o máximo que um homem pode chegar a demonstrar) não é lealdade.

O homem quer um Admirador, a mulher um Companheiro.

Está feita a confusão, porque a mulher não quer admirar e não quer ser admirada – não no sentido masculino de venerar e de imitar e de conduzir a uma conduta pessoal/política/artística “digna” do outro. A mulher quer ter alguém do seu lado, quer uma conexão fundamental e íntima com o sujeito. Uma coisa bilateral. Uma partilha, não uma admiração. A admiração de qualquer um dos lados exclui a possibilidade da partilha©, e torna para a mulher o relacionamento inviável e inconcebível.

Isso explica, repito, por que uma mulher pode encontrar um admirável rival das atenções do seu marido/noivo/namorado no amigo (homem) dele. Não só os amigos admiram um ao outro (mesmo que secretamente); eles também admiram juntos as mesmas coisas e dedicam-se a elas. Participam do mesmo jogo©, e admiram-se mutuamente por gostarem das mesmas coisas admiráveis.

Idealmente, o homem quer ser alguém que a sua mulher deveria sentir-se grata por ter ao seu lado; idealmente, a mulher quer ser alguém com quem o seu homem deveria conectar-se intimamente e (permanecer conectado) na aridez do mundo. O homem precisa de um Admirador, a mulher de um Companheiro. Juntos, nem um nem outro tem o que precisam.

Enquanto isso, em algum lugar do mundo, uma mulher está escrevendo no seu blog:

Às vezes penso que a diferença fundamental entre homens e mulheres é que os homens são capazes de se fixarem numa idéia ao ponto de se tornarem completamente cegos para todo o resto, até mesmo (pasmem, garotas) para o relacionamento. As mulheres querem definir-se pela qualidade do seu relacionamento, e o homem permite-se que qualquer abstração – digamos, a literatura, os direitos humanos, as artes plásticas, a aviação, a filosofia ou todas as intragáveis facetas do esporte – se interponha entre ele a nossa conexão fundamental.

Ele fica horas e horas tentando me explicar a grandeza da poesia, a complexidade do motor, a legitimidade da sua causa, o mecanismo do esporte, o brilhantismo da argumentação. Ele quer que os meus olhos se abram e eu finalmente veja o quanto aquilo que ele me explica é admirável, e o quanto ele mesmo é admirável por admirar a coisa certa. Eu não digo nada, porque enquanto está explicando ele pelo menos está aqui.

E assim por diante.



15 Comentários a respeito de "Admira-me as mulheres"

Enio Souza

“Um homem quer um admirador, a mulher um companheiro”.

Seriámos nós, homens, todos eles, seres com transtornos de personalidade narcisista pelo sentimento exacerbado da própria importância e da necessidade de ser admirado?

Li outro dia aqui mesmo na web que “as relações interpessoais nos casos típicos de transtornos de personalidade narcisista são comprometidas pelos problemas resultantes do sentimento de intitulação, da necessidade de admiração e do relativo desrespeito à sensibilidade alheia.”

Ou admiração e ser admirado seriam apenas sentimentos resultantes daquilo que gostariamos de ser ou de ter, enquanto ainda não somos ou temos?

Don Juan, de Byron, dizia que na sua primeira paixão, a mulher ama seu amante; em todas as outras, ela só ama o amor.

Até onde um admirador ou admiradora(não existe essa possibilidade para você, eu sei) seria ainda um admirador(a) mesmo depois de alcançar o objeto de admiração?



Paulo [brabo!]

Ah, Enio velho, a idéia que todo sentimento de admiração é patológico não é exatamente nova, mas só recentemente alcançou suficiente popularidade – quase, digamos assim, uma unanimidade. Você esboçou as duas linhas de ataque fundamentais: (1) a necessidade de admirar é na verdade necessidade de admiração, e portanto narcisismo, ou (2) é sublimação para alguma carência de que podemos não estar conscientes.

Antes de adotar essa forma pasteurizada de niilismo, prefiro defender a idéia oposta: de que o mundo é rico e que tudo e todos são de alguma forma admiráveis.

Num mundo onde a beleza é comum (São Borges), não admirar é que o mais se aproxima da patologia.

Olhai os lírios do campo.



Enio Souza

Não é bem um ataque. É uma “viagem”, Paulão.

Fiz uma leitura de que você defende o fato da alma da mulher ser niilista, posto que não contempla os lírios do campo, negando os valores do mundo admirável. Quase um ressentimento.

Eu particularmente não consigo ver uma diferença tão exacerbada assim na alma feminina, até porque trilho com frequência tanto o caminho de admirador como o daquele que clama por uma companheira para dividir sonhos e traçar rumos. E acho que isso também faz parte do universo feminino.

Divido minha vida com uma mulher há 17 anos e ainda não a conheço o bastante para uma argumentação empírica.

É só uma viagem, amigão.

Só uma viagem.



Paulo [brabo!]

É, mano. As idéias não descansam. Estamos jogando juntos.



Paulo [brabo!]

Te admiro por isso.



Ivan Volcov

Homens, esta rasgação de seda de vocês não é o que eu chamaria de admirável.

Para admirar é necessário humildade. Há pessoas que não sabem admirar, o melhor que fazem é invejar – isto no sentido mais negativo da palavra. Não acredito que uma ou outra coisa ocorra com maior freqüência em pessoas de um ou outro sexo. Dizer que as mulheres não sabem admirar não corresponde a verdade e não serve para introduzir nossa discussão a respeito das diferenças entre os sexos. Não acredito, uma vez que as diferenças físicas das mulheres sejam tão agradáveis, que as diferenças psicológicas não tenham o mesmo propósito.

Não creio que nós homens chegaremos a alguma conclusão sozinhos. Melhor perguntarmos às mulheres, elas conhecem a outra metade da verdade que buscamos.



Paulo [brabo!]

Ah, Ivan, o Justo, o cara que acredita que as mulheres realmente curtem um defensor montado num cavalo branco.

Bom, mano velho, meu ponto é quase esse que você quase levantou, que as diferenças de constituição psíquica entre o homem e a mulher devem ser pelo menos tão gritantes quanto as físicas. Ou, dito de outra forma, homens e mulheres devem ter softwares pelo menos tão diferentes quanto é diferente o seu hardware.

Se as diferenças da psique feminina tem propósito tão agradável quanto as diferenças físicas não sei dizer, mas ignorá-las na escolha da parceira deve fazer pelo menos tão mal quanto ignorar essas últimas.

A diferença é de fato tamanha que creio que requer-se diferentes metáforas simultâneas para que tentemos capturá-la, cada uma revelando um aspecto distinto de uma única distinção fundamental. Daí dizer-se que as mulheres são de Vênus e os homens são de Marte, que os homens são ostras e as mulheres pés-de-cabra, que os homens são cobras e as mulheres polvos, que os homens não têm tempo para a partilha© e as mulheres não vêem sentido no jogo©. Generalizações, todas elas, mas reveladoras, cada uma a seu modo, pelo menos no sentido de que sem elas não seríamos nem ao menos capazes de começar a articular a diferença.

Creio, por essa mesma razão, que algumas abstrações particulares que você usa, como “chegar a alguma conclusão,” “nossa discussão” e “metade da verdade”, por mais admiráveis e pertinentes que nos pareçam. são modos de pensar e de falar tipicamente masculinos. São termos do jogo©, por assim dizer.

E se a busca por uma “verdade” articulada e “definitiva” é característica de um jogo© tipicamente masculino, talvez só exista mesmo metade da verdade.

Arrisco finalmente dizer que as incautas leitoras da Bacia observam toda essa nossa discussão com – digamos – desinteresse. Ou: sem qualquer admiração.



Anonymous

genial! :twisted:



Fred

Impressionante como textos bem sacados podem causar as mais diversas reações. Lendo os textos aki publicados fui das lágrimas ao riso solto!



Luiz Henrique Mello

Divido minha vida com minha esposa há 28 anos. Muitas vezes empreendi busca intensa na tentativa de entender os paradigmas da mulher. Nessa busca, deparei com Karen Horney, uma discipula de Young. Ela defende a tese de que enquanto os homens precisam superar seu famoso complexo de Édipo, as mulheres desejam livrar-se do sentimento (inveja) de não tê-lo e acabam criando um outro complexo, relacionado ao hardware (grato Paulo) diferente. É muito interessante, pelo menos. Mas, eu gosto das dandadas (sim, porque agora, além da esposa tenho uma filha de 26 anos) e continuo sem entendê-las.



Silvana

“Arrisco finalmente dizer que as incautas leitoras da Bacia observam toda essa nossa discussão com – digamos – desinteresse. Ou: sem qualquer admiração.”

Epa! Será que eu sou homem então? :shock:

Não, acho que não. Não fico admirada, babando (“uia, que sacada genial do Paulo!”), mas achei bastante interessante. E acho que faltou um componente aí, que é a busca pela mulher da compreensão (eventualmente, parte integrante da partilha©). A gente quer compreender as coisas, saber as razões de ser, para melhor partilhá-las com os outros, e, curiosamente, não costuma acreditar em respostas simples (vai ver que é por isso que eu não entendo a lei do impedimento de jeito nenhum). :lol: O que a gente não compreende é simplesmente indizível.

Aliás, por conta do minha feminina busca por compreensão, eu me interesso por tudo o que possa ser útil para chegar nela – inclusive essa sua tese… hã… interessante. :wink:

Sei não, tô achando este comentário meio sem sentido, mas vai assim mesmo.



hernan

“Não fico admirada, babando (‘uia, que sacada genial do Paulo!’), mas achei bastante interessante”.

Tá vendo. Elas não admiram nada mesmo…
:lol:



Farah

Eu tentei uns quatro ou cinco comentarios para sua tese, Paulo.

Mas não postei nenhum. Estou no meu terceiro casamento e fiquei com um pouco de mêdo (mêdo não, receio) de ser crucificado por essa maravilhosa e desunida classe.



Silvana

“Tá vendo. Elas não admiram nada mesmo…”

Mas de vez em quando a gente acha alguma coisa linda ou fofa… :D



Paulo Brabo

Viva a diferença.



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