11 de Janeiro de 2005

Os crimes do bem maior

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas, Sociedade

«Creio apenas na minha idéia geral. Ela consiste precisamente no fato das pessoas estarem divididas de forma genérica, segundo a lei da natureza, em duas categorias: uma categoria inferior ou, por assim dizer, material (os comuns), que serve apenas para a reprodução de sua própria espécie; e as pessoas propriamente ditas – quer dizer, aqueles que tem o dom ou o talento de trazer alguma palavra nova para o seu ambiente.

As pessoas da primeira categoria, a material, são por natureza conservadoras, moderadas, vivem em obediência e gostam de serem obedientes. Na minha opinião elas até mesmo devem ser obedientes, porque esse é o propósito delas, e para elas não há decididamente nada humilhante em agir dessa forma. Os da segunda categoria transgridem todos a lei, são destruidores ou têm inclinação para destruir, dependendo das suas habilidades. Os crimes dessas pessoas, naturalmente, são relativos e variegados; na sua maior parte elas requerem, em declarações muito diversas, a destruição do presente em nome do que é superior. Mas se uma dessas pessoas precisa, pela sua idéia, passar por cima de um cadáver, por cima de sangue, então nela mesma, na sua consciência, ela tem o direito, na minha opinião, de permitir-se derramar sangue – dependendo, entretanto, da idéia e da sua escala, perceba bem isso. É apenas neste sentido que eu falei [...] a respeito do direito deles de cometerem crimes de forma legítima.

Não há, no entanto, muito motivo para alarme; as massas dificilmente reconheceriam esse direito [nesses indivíduos extraordinários]; elas os punem e enforcam (mais ou menos), cumprindo assim, e de forma muito apropriada, a sua função conservadora; porém, nas gerações subseqüentes essas mesmas massas colocam os punidos num pedestal e adoram-nos (mais ou menos).

A primeira categoria é senhora do presente; a segunda, senhora do futuro. A primeira preserva o mundo e faz com que a humanidade aumente numericamente; a segunda move o mundo e o conduz em direção ao seu objetivo.»

O protagonista de Crime e Castigo, que havia cometido há alguns dias (e sem que ninguém ainda soubesse) um duplo assassinato, desfia a sua própria versão da teoria da raça superior.



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