19 de Junho de 2005

A Terceira Onda

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Heresias Sensacionais

A doutrina do milenismo tem, curiosamente, mais de mil anos. Ela persiste, na verdade, há quase dois – e suas origens se estendem a mesmo antes disso. A idéia do arrebatamento pré-tribulacionista, que prescreve que os crentes serão tomados ao paraíso e os incrédulos deixados na terra para um período de extrema adversidade e possível purgação (doutrina que alcançou consagração definitiva via Deixados Para Trás), é apenas uma das suas facetas mais recentes.

Os primeiros milenistas foram judeus cristãos que, frustrados com a natureza espiritual do reino de Cristo e fundamentados na sua interpretação de uma passagem do livro de Apocalipse, passaram a exigir que, antes do desfecho da História, Cristo voltaria à terra para um reino secular de mil anos. Durante esse período, sustentam ainda hoje alguns milenistas, Jesus ocupará literalmente e com o mão de ferro o trono de Davi em Jerusalém, e todas as nações prestarão a Israel a homenagem e os tributos prometidos em passagens como Isaías 60.

14 Também virão a ti, inclinando-se, os filhos dos que te oprimiram; e prostrar-se-ão junto às plantas dos teus pés todos os que te desprezaram; e chamar-te-ão a cidade do Senhor, a Sião do Santo de Israel.

15 Ao invés de seres abandonada e odiada como eras, de sorte que ninguém por ti passava, far-te-ei uma excelência perpétua, uma alegria de geração em geração.

16 E mamarás o leite das nações, e te alimentarás ao peito dos reis; assim saberás que eu sou o Senhor, o teu Salvador, e o teu Redentor, o Poderoso de Jacó.

Ou seja, o Reich milenar de Cristo deveria representar tudo que os judeus esperavam que o Messias trouxesse na sua primeira vinda: redenção econômica, independência nacional e uma glorificada reputação mundial para Israel. Como Jesus não produziu nenhuma dessas coisas com sua primeira visita, esperava-se que ele se redimisse na segunda.

Por essas e outras razões o milenismo foi declarado heresia “judaizante” num Concílio do quinto século – o que não impediu que ele continuasse vivo e se desenvolvendo ao longo, literalmente, dos milênios.

O milenismo assumiu uma das suas formas mais significativas e interessantes no ensino do abade Joachim de Floris (c.1135-1202), da Calábria. Joachim ensinava que a chave da interpretação da Escritura está na revelação de que a História está dividida em três períodos, de espiritualidade crescente, que refletem diretamente as três pessoas da Trindade. A natureza oculta da divindade se torna manifesta integralmente apenas na sucessão desses períodos históricos.

O primeiro período, de Abraão até Jesus, é a era do Pai e do domínio da Lei. O segundo período, que começou com o nascimento do Jesus, é a era do Filho do Homem e do governo da igreja e de suas ordenanças. O terceiro período, que Joachin previa deveria começar em meados de 1260, seria a era do Espírito Santo – um período de perfeita liberdade que se estenderia por mil anos (ou mais), no qual o único governo seria o do espírito.

Joachin e seus seguidores chamavam a si mesmos de spirituales, “homens de espírito”, e criticavam duramente os erros e a corrupção da igreja “segundo a carne”. Na visão deles, no reino do Espírito e do espírito entraves como a Lei, a igreja e suas ordenanças seriam inevitavelmente deixados para trás.




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