06 de Setembro de 2005

A Solução Final de Lutero

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Divino preconceito, História

“O que devem fazer os cristãos contra este povo rejeitado e condenado, os judeus?”

Há alguns anos perdi instantaneamente um amigo luterano quando citei, numa conversa, trechos das fortíssimas diatribes que Lutero escreveu contra os judeus. Ao mesmo tempo em que recusou-se a acreditar que Lutero tivesse dito aquilo, meu amigo decidiu que não queria ter nada com alguém como eu que recusava-se a crer que seu herói não havia sido infalível. Lembro ter achado curioso que Lutero, que lutou com todas as forças para derrubar o dogma da infabilidade papal, tivesse de alguma forma adquirido entre os seus seguidores a fama de infalível.

“Em primeiro lugar, queimem-se suas sinagogas e suas escolas.”

Lutero era um sujeito de extremos. Identifico-me às vezes com ele. Como eu, o reformador cometia a indiscrição de escrever demais, publicando às vezes centenas de panfletos por ano; como eu, ele caiu mais de uma vez na armadilha da própria retórica.

“Em segundo lugar, recomendo que suas casas sejam também arrasadas e destruídas.”

No começo da sua carreira, quando simpatizava com os judeus, Lutero chegou a identificar-se com eles:

Os judeus são parentes de sangue do Senhor; se fosse apropriado vangloriar-se na carne e no sangue, os judeus pertencem mais a Cristo do que nós. Rogo, portanto, meu caro papista, que se te cansares de me vilipendiar como herético, que comeces a me injuriar como judeu.

Essa atitude logo mudou quando os judeus recusaram-se a converter-se como moscas diante da sua pregação, e – pior – quando Lutero viu alguns de seus cristãos convertendo-se às “mentiras” do judaísmo. Embora seja lembrado como um ardente defensor da graça, Lutero, como todos, não foi capaz de viver à altura dela. Da mesma forma que incontáveis cristãos antes e depois dele, o reformador perdeu de vista o cerne escandaloso da mensagem do Reino, a espantosa notícia de que Deus não tem favoritos e derrama sua gentileza e sua graciosidade mesmo sobre os que o rejeitam da forma mais deliberada.

“Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração sejam tirados deles.”

Hoje em dia, lendo essas passagens, é muito fácil lembrar que a Alemanha de Lutero seria mais tarde berço de Hitler e das atrocidades nazistas. Somos tentados a associar rapidamente as duas coisas e, na verdade, ninguém deveria ousar separá-las. Duas observações importantes são no entanto necessárias: primeiro, Lutero não estava escrevendo algo de que seus contemporâneos discordariam. Quando maldizia os judeus ele apenas colocava a sua pena em favor da maré cultural do seu tempo. Na Europa medieval, em que todas as pessoas que se davam a algum respeito eram cristãos, os judeus eram (e apenas em parte trocadilho) tomados para Cristo. Judeus eram culpados de todos os males, acusados de todos os crimes, responsabilizados por todas as pragas. Quando uma colheita falhava, você não tinha duvidas sobre quem havia jogado sobre ela o seu mal-olhado. Quando uma criança desaparecia, você não tinha dúvidas de na faca de quem ela havia sido sacrificada. Os judeus eram “o outro”, os estranhos, aqueles dos quais a gente de bem desvia o rosto. Eram, em tudo e para todos, o bode expiatório.

“Quarto, recomendo que seus rabis sejam proibidos de ensinar, sob pena de morte ou de amputação.”

Segundo, há uma diferença importante entre a posição nazista e a hostilidade medieval aos judeus, tendência que o reformador apenas seguia. Lutero era anti-judeu, Hitler era anti-semita; a primeira questão é religiosa, a segunda, racial. Lutero abraçaria um judeu que se convertesse ao cristianismo; sob Hitler, os judeus convertidos ao cristianismo foram perseguidos e mortos.

“Quinto, recomendo que o salvo-conduto para o livre-trânsito nas estradas seja completamente negado para os judeus.”

Nenhuma dessas coisas, naturalmente, justifica as declarações e a posição de Lutero – mas devem ser levadas em conta na análise do que ele estava dizendo e das suas implicações.

“Sexto, recomendo que todo o dinheiro e peças de ouro e prata sejam tomados deles e colocados sob custódia.”

Vale ainda lembrar que, embora pareça extremamente virulenta, a posição radical de Lutero não difere muito das duríssimas objeções que muitos cristãos levantam nos nossos dias contra outros grupos. O “outro” nos nossos dias é outro. Os cristãos escolheram novos alvos: dependendo da sua inclinação, os bodes expiatórios são hoje em dia os comunistas, os homossexuais, os muçulmanos, os católicos, os evangélicos, os negros, os pobres, os ricos ou uma informe combinação de todos esses.

“Sétimo, recomendo que se coloque um malho, um machado, uma enxada, uma pá, um ancinho ou um fuso nas mãos dos jovens judeus e judias.”

Continuamos a agir como se houvesse diferença. São sempre eles que carecem da graça. O coração duro é sempre dos outros.


O que devem fazer os cristãos contra este povo rejeitado e condenado, os judeus? Já que eles vivem entre nós, não devemos ousar tolerar a sua conduta, agora que sabemos das suas mentiras e suas injúrias e suas blasfêmias. Se o fizermos, tornamo-nos participantes de suas mentiras, sua injúria e sua blasfêmia. Portanto não temos como apagar o inextinguível fogo da ira divina, da qual falam os profetas, e tampouco temos como converter os judeus. Com oração e temor de Deus devemos colocar em prática uma dura misericórdia, para ver se conseguimos salvar pelo menos alguns deles dentre as chamas crescentes. Não ousamos vingar a nós mesmos. Vingança mil vezes pior do que qualquer uma que poderíamos desejar já os toma pela garganta. Quero dar-lhes minha sincera recomendação:

Em primeiro lugar, queimem-se suas sinagogas e suas escolas, e cubra-se com terra o que recusar-se a queimar, de modo que homem algum torne a ver deles uma pedra ou cinza que seja. Isso deve ser feito em honra de nosso Senhor e da Cristandade, de modo que Deus veja que somos cristãos, e não fazemos vista grossa ou deliberadamente toleramos tais mentiras, maldições e blasfêmias públicas tendo como alvo seu Filho e seus cristãos. Pois o que quer que tenhamos tolerado inadvertidamente no passado – e eu mesmo estive ignorante dessas coisas – será perdoado por Deus. Mas se nós, agora que estamos informados, protegermos e acobertarmos essa casa de judeus, deixando-a existir debaixo do nosso nariz, na qual eles mentem, blasfemam, amaldiçoam, vilipendiam e insultam a Cristo e a nós, seria o mesmo que se estivéssemos fazendo tudo isso e muito mais nós mesmos, como bem sabemos.

Em segundo lugar, recomendo que suas casas sejam também arrasadas e destruídas. Pois nelas elem perseguem os mesmos objetivos que em suas sinagogas. Eles devem ao invés disso ser alojados debaixo de um único teto ou pavilhão, como ciganos. Isso fará com que eles aprendam que não são senhores no nosso país, da forma como se vangloriam, mas que vivem em exílio e no cativeiro, da forma como gemem e lamentam incessantemente a nosso respeito diante de Deus.

Terceiro, recomendo que todos os seus livros de oração e obras talmúdicas, nos quais são ensinados tais idolatrias, mentiras, maldições e blasfêmia, sejam tirados deles.

Quarto, recomendo que seus rabis sejam de agora em diante proibidos de ensinar, sob pena de morte ou da amputação de algum membro. Pois eles perderam da forma mais justa o direito a tal posição ao manterem os judeus cativos com a declaração de Moisés (em Deutoronômio 17:10ss) na qual ele ordena que obedeçam os seus mestres sob pena de morte, embora Moisés acrescente claramente: “o que eles ensinam segundo a lei do Senhor”. Esses desprezíveis ignoram isso. Eles arbitrariamente empregam a obediência do pobre povo de forma contrária à lei do Senhor, infundindo neles esse veneno, essa maldizer, essa blasfêmia. Do mesmo modo o papa nos manteve cativos com a declaração de Mateus 16, “Tu és Pedro,” etc, induzindo-nos a crer em todas as mentiras e falsidades que provinham de sua mente diabólica. Ele não ensinava em conformidade com a palavra de Deus, e perdeu portanto seu direito a ensinar.

Quando um judeu se converter, serão dados a ele cem, duzentos ou trezentos florins.

Quinto, recomendo que o salvo-conduto para o livre-trânsito nas estradas seja completamente negado para os judeus. Eles não tem o que fazer no campo, visto que não são proprietários de terras, oficiais do governo, mercadores ou coisa semelhante. Que fiquem em suas casas.

Sexto, recomendo que sejam proibidos de emprestar a juros, e que todo o dinheiro e peças de ouro e prata sejam tomados deles e colocados sob custódia. O motivo de tal medida é que, como foi dito, eles não possuem qualquer outro modo de ganhar a vida que não seja emprestar a juros, e através da usura furtaram e roubaram de nós tudo que possuem. Esse dinheiro deveria ser agora usado para nenhum outro fim que não o seguinte: quando acontecer de um judeu se converter, serão dados a ele cem, duzentos ou trezentos florins, da forma como sugerirem suas circunstâncias pessoais. Com isso ele poderá estabelecer-se em alguma ocupação de modo a sustentar sua pobre mulher e filhos e dar suporte aos velhos e fracos. Pois tais ganhos malignos são amaldiçoados se não colocados em uso com a benção de Deus numa causa digna e justa.

Sétimo, recomendo que se coloque um malho, um machado, uma enxada, uma pá, um ancinho ou um fuso nas mãos dos jovens judeus e judias, e deixe-se que eles ganhem o seu pão com o suor do seu rosto, como foi imposto sobre os filhos de Adão (Gênesis 3:19). Pois não é justo que eles deixem que nós, os gentios malditos, labutemos debaixo do nosso suor enquanto eles, o povo santo, gastam o seu tempo atrás do fogareiro, banqueteando-se e peidando, e acima de tudo isso vangloriando-se blasfemamente do seu senhorio sobre os cristãos através do nosso suor.

Martinho Lutero, Sobre os Judeus e Suas Mentiras, 1543

Leia também:
Shem Hamphoras (Lutero alerta os alemães)



4 Comentários a respeito de "A Solução Final de Lutero"

Marcos Vasconcelos

Paulo, como sempre mais uma surpresa no seu site. É por isso que passo aqui todos os dias. Venho “comprar barato” na Bacia o que pode custar caro à minha consciência. Com certeza este assunto é “meat for thought”. Não me cabe, em minha miopia humana/espiritual, arrancar do trigal aquilo que “vejo” como joio. Essa tarefa pertence a seres bem mais capazes e no tempo apropriado. A carapuça me cabe :oops: – não quanto aos judeus – mas no que respeita a outras coisas e a outros grupos. Rotular é sempre fácil… e perigoso.

A diabolização dos judeus é um esporte que sempre teve muitos adeptos, principalmente hoje quando o anti-semitismo e o anti-americanismo andam de braços dados, mas o ódio aos judeus é bem anterior a Lutero e, depois, a Hitler.

Lembro-me que no começo dos anos 80 (do século passado, ixi!) li o livro “A diabolização dos judeus”, cujo autor me escapa, onde ele relatava que na Idade Média havia em Salamanca, na Espanha, o costume de se escolher anualmente um judeu que seria posto no pelourinho na praça da cidade para receber como bode expiatório a execração pública por tudo quanto havia dado errado no ano anterior: mortes, pestes, lavouras perdidas, enchentes, secas, raptos, etc. A catarse popular era despejada com toda a sua ira sobre o infeliz eleito (para ser morto). Não achei mais este livro, mas foi isso que li. Hoje a prática continua – não apenas contra os judeus – embora sejam outros os pelourinhos e as praças, cada vez mais globalizados.

Obrigado por levar-me a refletir sobre isso.

Receba meu grande e cordial abraço e será um prazer vê-lo em Recife, se você puder vir.

:bug:



Silvana

Lembro-me que no começo dos anos 80 (do século passado, ixi!) li o livro “A diabolização dos judeus”, cujo autor me escapa, onde ele relatava que na Idade Média havia em Salamanca, na Espanha, o costume de se escolher anualmente um judeu que seria posto no pelourinho na praça da cidade para receber como bode expiatório a execração pública por tudo quanto havia dado errado no ano anterior: mortes, pestes, lavouras perdidas, enchentes, secas, raptos, etc. A catarse popular era despejada com toda a sua ira sobre o infeliz eleito (para ser morto).

Isso me parece assustadoramente à malhação do Judas no sábado de Aleluia, uma tradição que aqui em São Paulo tem caído em desuso. Mas acho que a questão é mais profunda mesmo: a nossa incapacidade de assumir nossas próprias incongruências põe o “outro” em perigo.



Ricardo Lopes

Muito bom mesmo, é interessante como até hoje ainda pensa-se ser culpa dos judeus a morte de Cristo.

Pensamos muitas vezes em Lutero como homem santo, se isso fosse aberto ao público – de maneira mais ampla é claro – acho (posso me arriscar a dizer que tenho certeza de minhas palavras) que Lutero não seria o grande heroi dos evangélicos. Afinal que iria querer do seu lado alguém tão “violento”???

Mas ó!!! foi muito bom o artigo.



Sebastião William

Interessante encontrar esse assunto exposto para opiniões e discursão. Já me disseram que deveria evitá-lo, pois o povo, ou seja, nós, simples alunos de EBD, não temos maturidade para trazê-lo à tona. Discordo, pois, no mundo de hoje, basta um clik para termos acesso a verdades, meia-verdades e inverdades; assim, como cristãos, não devemos temer obter conhecimento de fatos, mesmo que nos sejam difíceis de digeri-los, afinal fundamentamo-nos na Verdade. Aqui com meus botões, penso que a questão do problema de Lutero com os judeus não deve trazer-nos tanta perplexidade se tivermos a compreensão de que ele foi homem como qualquer um de nós, sujeito às mesmas tendências para errar/acertar, em uma área ou outra. Foi um vaso de muita utilidade - muito mais que outros vasos de sua época -, porém o vaso “sempre é de barro”, e essa é a grande lição. Quebrar o mito do poderoso reformador irrepreensível e trazê-lo mundo dos “Davis” que mataram “os Golias”, mas também dos que mataram “os Urias”, somente nos faz perceber o quanto somos falíveis, e o quanto dependemos da misericódia de um Deus maravilhosamente revelado em Jesus Cristo. Se nos é impossível contestar o fato histórico, tenhamos a humildade de buscar compreendê-lo, e não ignorá-lo em nossos próprios arraiais. Como diz o texto do Blog, a questão da rejeição dos judeus na Europa cristã tem seu nascedouro no início da Era Cristã, quando da diáspora judaica por causa da destruição de Jerusalém. Lutero viveu nesse contexto cultural; foi capaz de perceber as injustiças da dominação papal e contra ela, corajosamente, levantou a sua voz; e essa voz teve forte eco e transformou o mundo cristão. Ora, devemos julgá-lo por não ter obtido compreensão completa de todas as coisas? Quem a tem? Eu, você? Não, entendo que jamais deveríamos, como cristãos, prostar-nos diante do “mito Lutero”, porém, também, jamais deixar de reconhecer o que nosso Deus é capaz de fazer com homens imperfeitos e limitados: Dois inspirados músicos/poetas - Davi e Lutero - dois homens sensíveis. Se tiveram suas vidas envoltas em questões de sangue, seja sangue filisteu, hitita ou judeu; que isso sirva para nossa reflexão - e não omissão a fim de deixarmos que sobreviva um mito. O mito, assim como o ídolo, não é NADA; Deus, usando o pecador, ESSE sim, é TUDO. Devemos, sim, refletir sobre essa história linda do amor que Deus tem pelos filhos de Eva e Adão desde o princípio de todas as coisas; amor esse que o Senhor Deus vem incessantemente tentando tatuar em nossos corações, seja no de Davi, seja no de Lutero, seja no meu, seja no teu.

Abrindo o meu coração sobre o assunto, espero ter cooperado com alguma coisa.

William



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