O menino gente boa e desaforado da primeira parte de As Proezas de João Grilo acaba virando um cabra desaforado e gente boa.
Na segunda parte do folheto (escrita em setilhas, os versos de sete linhas que são minha forma favorita de poesia de cordel) Grilo é convidado por um sultão a passar por uma prova de inteligência, uma exigente bateria de perguntas e enigmas. João Grilo aceita, viaja ao reino do sultão e responde as perguntas do monarca sem dificuldade e com muito bom humor. Ao final da prova ele é nomeado, como José do Egito, conselheiro do rei.
E todas as questões do reino
era João que deslindava
qualquer pergunta difícil
ele sempre decifrava
julgamentos delicados
problemas muito enrascados
era João que desmanchava.
Segue meu caso favorito, seu senso de justiça quase shakesperiano:
Certa vez chegou na corte
um mendigo esfarrapado
com uma mochila nas costas
dois guardas de cada lado
seu rosto cheio de mágoa
os olhos vertendo água
fazia pena o coitado.
Junto dele estava um duque
que veio denunciar
dizendo que o mendigo
na prisão ia morar
por não pagar a despesa
que fizera com afoiteza
sem ninguém lhe convidar.
João Grilo disse ao mendigo:
e como é, pobretão
que se faz uma despesa
sem ter no bolso um tostão?
me conte todo o passado
depois de ter-lhe escutado
lhe darei razão ou não.
Disse o mendigo: sou pobre
e fui pedir uma esmola
na casa do senhor duque
e levei minha sacola
quando cheguei na cozinha
vi cozinhando galinha
numa grande caçarola.
– Como a comida cheirava
eu tive apetite nela
tirei um taco de pão
e marchei pro lado dela
e sem pensar na desgraça
botei o pão na fumaça
que saía da panela.
– O cozinheiro zangou-se
chamou logo seu senhor
dizendo que eu roubara
da comida seu sabor
só por eu ter colocado
um taco de pão mirrado
aproveitando o vapor.
– Por isso fui obrigado
a pagar esta quantia
como não tive dinheiro
o duque por tirania
mandou trazer-me escoltado
pra depois de ser julgado
ser posto na enxovia.
João Grilo disse: está bom
não precisa mais falar;
então pergunto ao duque:
quanto o homem vai pagar?
– Cinco coroas de prata
ou paga ou vai pra chibata
não lhe deve perdoar.
João Grilo tirou do bolso
a importância cobrada
na mochila do mendigo
deixou-a depositada
e disse para o mendigo:
balance a mochila, amigo
pro duque ouvir a zoada.
O mendigo sem demora
fez como o Grilo mandou
pegou sua mochilinha
com a prata balançou
sem compreender o truque
bem no ouvido do duque
o dinheiro tilintou.
Disse o duque enfurecido:
mas não recebi o meu;
diz o Grilo: sim senhor
e isto foi o que valeu
deixe de ser batoteiro
o tinido do dinheiro
o senhor já recebeu.
– Você diz que o mendigo
por ter provado o vapor
foi o mesmo que ter comido
seu manjar e seu sabor
pois também é verdadeiro
que o tinir do dinheiro
represente seu valor.
Virou-se para o mendigo
e disse: estás perdoado
leva o dinheiro que dei-te
vai pra casa descansado;
o duque olhou para o Grilo
depois de dar um estrilo
saiu por ali danado.



DOM ARIEVALDO VIANNA
JOÃO GRILO pertence a um CICLO da Literatura Popular em Versos (ou de CORDEL) denominado de CICLO DOS AMARELINHOS.
Os Amarelinhos mais famosos são
CANCÃO DE FOGO (Criação de Leandro Gomes de Barros)
JOÃO LESO (Também cria de Leandro)
PEDRO MALAZARTES
PEDRO QUENGO
E BROCA DA SILVEIRA.
No próximo dia 19 de Novembro fazem 140 anos do nascimento do poeta LEANDRO GOMES DE BARROS, o maior expoente da LITERATURA DE CORDEL NORDESTINA. Segundo Carlos Drummond de Andrade o título de Príncipe dos Poetas Brasileiros, concedido a OLAVO BILAC, deveria ser, por direito, dado a LEANDRO.
Saibam mais sobre o velho menestrel paraibano no meu flogão
http://www.flogao.com.br/arievaldocordel
INTÉ!