29 de Abril de 2005

A primeira hora

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Gírias e Falares

Outro dia fiquei de entregar uma ilustração na “primeira hora” do dia seguinte e fiquei pensando nas implicações da expressão.

Em geral a primeira hora é, felizmente, bastante flexível. Numa agência de propaganda, sei por experiência própria, combinar a coisa para a primeira hora equivale a dizer (a não ser quando especificado de outra forma, o que acontece raramente) “depois das nove da manhã”. Sendo antes das dez creio que é considerado ainda primeira hora.

Outros ambientes podem não ser tão tolerantes, mas creio que para todos apelar para a primeira hora é um jeito de evitar a indelicadeza de lembrar a outra pessoa (e especialmente nós mesmos) que teremos os dois de acordar às seis da manhã no dia seguinte para estarmos às oito onde deveríamos estar. Um eufemismo corporativo, que para os mais desavisados poderia significar “apareça aí depois que você acordar”, mas que está na verdade mais para “amanhã cedo na minha mesa” ou “o que você faz da meia-noite às seis?”

A primeira hora é de certa forma a pior hora de todas e, é claro, especialmente na segunda-feira. A primeira hora da segunda-feira é implacável, e apóio de coração aqueles que propõem que ela deveria ser eliminada de todo.

Especialmente quando você chega no trabalho e tem alguém em pé esperando por você na recepção. Com uma pasta.

Como tanta coisa fica marcada para a primeira hora, creio que todos concordamos que talvez fosse pertinente que a Diretoria lançasse uma campanha interna para que encontros importantes começassem a ser marcados para a última hora. Da sexta-feira, naturalmente.

Você passaria a ouvir (se é que já não ouve) coisas do tipo:

– Não esqueça que o gerente quer conversar com você na última hora.

Só por precaução, não abra hoje nenhum memorando suspeito.

Deixe para a última hora.



2 Comentários a respeito de "A primeira hora"

Bony Chiarelli

Este texto basicamente é o script de minhas últimas semanas aqui na Petrobrás – REDUC – RJ.

Tenho trabalhado tanto que não tive tempo de ler a Bacia por 6 dias!!!

E pra começar: tudo aqui é para ser entregue “na primeira hora do dia seguinte”.

Mas reprovo a linha da “última hora de sexta”, pois neste momento eu estou no aeroporto, ouvindo Toto ou Jamiroquai no disc-man, desejando imensamente chegar em Curitiba…

Ninguém me espera com pastas na mão – as pastas sempre aparecem na minha mesa as 7:20h por vontade própria.

:bug:



guido

Aki na Itália temos um ditado que diz que as horas da manha tem ouro na boca (do tipo quem cedo madruga…). Eu aprendi que em trabalhos pesados se combina mais das seis as doze que das doze as 18.00, mas muito mais mesmo.



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