17 de Outubro de 2005

A peleja da responsabilidade individual contra o nirvana

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença, Goiabas Roubadas

Para algumas religiões a aspiração mais elevada do homem é ser alçado para acima e além da experiência sensorial a uma união imediata com a divindade. Nessa experiência inefável a individualidade desaparece e o eu, como uma gota d’água num vasto oceano, é absorvida no Divino. Esse não é o tipo de misticismo com o qual lida o Antigo Testamento. O encontro de Moisés com Deus acentuou o seu senso de individualidade e tornou-o mais marcadamente consciente das demandas do momento histórico. No diálogo [com Deus] Moisés recebeu uma tarefa e foi convocado a tomar parte ativa no drama histórico. Com profundo discernimento religioso, a narrativa descreve a sua relutância diante do chamado e os vários protestos oferecidos por ele na tentativa de permanecer confortavelmente à margem da história. [...] O chamado divino à decisão e à responsabilidade é uma das notas características da fé de Israel.

Bernhard W. Anderson, Understanding the Old Testament



5 Comentários a respeito de "A peleja da responsabilidade individual contra o nirvana"

Roberto Bobrow

Joao: Leo tu blog desde que apareciste en el Drawing Board. Tus ilustraciones son magníficas y tus reflexiones muy singulares.

Yo soy dibujante, periodista e historiador. Como judío y ateo, uno de los temas que me han interesado es el de los orígenes del Cristianismo y el paso de la Ley judía (la Torá) a la Lex Romana. Creo que para ello se combinaron tres fuentes:

1) San Pablo, que da forma al Cristo místico seleccionando los textos evangélicos, para crear un Jesús que abroga la Torá.

2) El Gnosticismo neoplatónico que divide al mundo entre lo manifiesto (falso) y lo ideal (verdadero) como en san Agustín (Jerusalem terrestre vs. Jerusalem celeste), concepto griego opuesto a todo lo que pudo haber pensado el judío Jesús.

3) El Estoicismo que proveyó la “temática ideológica concreta” (según G. Puente Ojea) que permitió adaptarse a las leyes romanas hasta el momento de la Parousía.

Pienso que la relación de Jesús con el llamado de la Divinidad debe haber sido más parecida a la de Moisés que a la de San Pablo.

La influencia del Gnosticismo fue muy poderosa y se prolongó en muchas sectas cristianas (cátaros), musulmanas (sufis) y judías (cábala y jasidismo). Es la gran escapatoria mística a la imposibilidad de derrocar a los poderes de este mundo.

Un abrazo.



Roberto Bobrow

¿Joao?, ¡Perdón Paulo!



Paulo [brabo!]

Muito grato, Roberto, pela intervenção e pela leitura impenintente da Bacia.

Também interessa-me a curiosíssima “transição” do judaísmo para o cristianismo, embora eu de minha parte preferiria não ter de reduzi-la à troca de uma lei por outra.

Naturalmente não há como minimizar o impacto de Paulo, que aparentemente não resistiu a tentação de fechar num sistema mais ou menos estanque tudo que Jesus havia deixado em aberto, abrindo assim precedente para infinitas teologizações posteriores.

Pessoalmente, na qualidade de cristão marginal, prefiro crer que Paulo cometeu a indiscrição de ser mal-entendido, enquanto Jesus simplesmente não foi ouvido. Sobre judaísmo de Paulo, a obra que influenciou particularmente o meu pensamento foi o livro de Daniel Boyarin, A Radical Jew, publicado pela Imprensa da Universidade da Califórnia (versão integral disponível online).

Há no livro alguma discussão sobre o neoplatonismo e o dicotomismo gnosticista de Paulo (Israel segundo a carne versus o verdadeiro Israel). O autor ressalta, porém, que o judeu Paulo sustenta idéias que causariam horror aos gnósticos puros – como, por exemplo, a ressurreição do corpo.

Finalmente, entendo o que você sugere, que a influência gnóstica nos textos de Paulo fez com que o cristianismo tomasse um rumo mais místico e menos firmado na individuação e nas necessidades do momento histórico; Jesus estaria mais para Moisés (ênfase no engajamento com o mundo e na responsabilidade individual) e Paulo mais para o nirvana (uma religiosidade interiorizada, mais alienada e independente das condições da realidade exterior).

Em linhas gerais, está muito bem diagnosticado. Se forçado a escolher entre os dois um herói, escolho Jesus. Mas, como sugere A Radical Jew, a descontinuidade entre Jesus e Paulo pode não ter sido originalmente tão grande quanto tornou-a séculos de teologia institucional cristã. O segredo do sucesso final de Paulo pode estar menos no seu misticismo do que no fato de que suas exigências parecem, pelo menos à primeira vista, menos desvairadas do que as de Jesus.



Roberto Bobrow

Gracias por el link al libro de Boyarin; después de leerlo lo comentaré.

Pablo es complejo e interesante porque refleja los problemas judíos de la época visibles ya en Filón de Alejandría y en Flavio Josefo: ¿cómo ser universal sin dejar de ser judío?

Como tú dices sus exigencias fueron prácticas: integrarse al sistema de valores greco-romanos (el estoicismo) adaptando el judaísmo a ellos y renunciando a los rituales superficiales como la circuncisión. El misticismo le daba la cobertura metafísica.

No creo que podamos nunca estar seguros del verdadero pensamiento de Jesús; los textos evangélicos han sido muy manipulados. Crossan en “El Jesús histórico” lo identifica con los líderes mesiánicos rurales anteriores, enemigos de los compromisos de la vida urbana. Pero los textos son ambiguos y oscilantes entre el renunciamiento ascético y el radicalismo violento. Lo que sí creo seguro es que pensaba en un cambio muy cercano y no en una ética abstracta para un tiempo indefinido.



Paulo [brabo!]

As preocupações de Jesus podem muito bem ter sido mais práticas e incisivas do que as de Paulo e creio que foram. Porém a doutrina de Jesus, como chegou até nós nos evangelhos, permanece tão revolucionária, indomável e ambiciosa que foi considerada “impraticável” mesmo pelos que afirmaram ser seus seguidores. Historicamente os cristãos parecem preferir a sensatez de Paulo às exigências insanas (e necessariamente ambíguas e difíceis de transformar em legislação) do próprio Jesus. Nós cristãos somos ainda mais “paulinos” do que leviticenses. Seguidores do pragmatismo de Jesus, como Tolstoi e Gandhi, são notável exceção. No cotidiano o misticismo suave é, paradoxalmente, mais prático do que o pragmatismo de amar os inimigos e emprestar sem esperar receber de volta.

Quanto a Paulo e à legitimidade do pensamento de Jesus, estou certo de que ainda voltaremos ao assunto.



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