29 de Junho de 2005

A graça de Diogo Mainardi

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença, Sociedade

Diogo Mainardi já confessou saber-se e sentir-se um romancista frustrado, e há algo de admirável nessa honestidade; não é fácil reconhecer que somos incapazes de ser aquilo que mais anseiávamos nos tornar. Para sobreviver e manter-se honesto consigo mesmo, Mainardi assumiu uma curiosa postura pessoal. Do alto (ou do fundo) de sua experiência em primeira mão com a mediocridade, resolveu usar sua amargura do único modo construtivo que parece conhecer: atacando, da forma mais cáustica e ferina, a mediocridade dos outros.

Se você for como todos, todos o ignorarão; se você for detestável, pelo menos alguns o amarão.

Mainardi pode não ter se tornado o escritor que almejava, mas alcançou a notoriedade ruminando e colocando em prática uma antiga lição da arte da retórica: se você for como todos, todos o ignorarão; se você for detestável, pelo menos alguns o amarão. Tudo o que ele faz e sente que tem de fazer é disparar dardos inflamados contra tudo que é medíocre no mundo, que é o Brasil. Não faltam, naturalmente, alvos: o presidente, a política econômica, o cinema brasileiro, a cidade de Cuiabá; não escapa nem mesmo o alvo especialmente fácil que é o próprio Diogo Mainardi. A mediocridade é na verdade tão universal que Mainardi pode falar sobre qualquer um ou qualquer coisa, desde que lembre-se de falar mal daquilo que está falando.

Na sua crônica na VEJA desta semana, Diogo Mainardi baixou a guarda por um momento e mostrou ter sido tocado, mesmo que por um momento, pela graça. Ele não fala mal de ninguém e faz aos seus leitores apenas duas recomendações: que tenham filhos (ele acaba de ter o segundo) e leiam o Ulisses de James Joyce. Fica claro nas entrelinhas que Mainardi se reconhece satisfeito em poder ler e recomendar um grande romance como Ulisses, mesmo que não seja capaz de escrever um. Quanto à paternidade, ele diz claramente que ter filhos é um milagre singular porque não é preciso talento especial para se ter um. Os filhos redimem da mediocridade, até da minha própria, confessa ele.

Mainardi está dando testemunho de um vislumbre singular da graça, cuja linguagem pode pingar docemente e por um instante das bocas mais amargas. Ele reconhece que ter filhos é uma estranha graça (como todas) porque todos podem, simplesmente e miraculosamente, ter filhos – o mais imprestável vadio, o mais frustrado romancista, o mais celibatário dos padres. A mensagem da graça afirma escandalosamente que somos premiados por nada – que somos presenteados com ricas dádivas de forma independente do nosso desempenho e dos nossos méritos.

Para Mainardi, a mediocridade universal significa que todos devem ser atacados.

Jesus, o único homem que pisou esta terra sem precisar ser neurotizado pela própria mediocridade, não negou a mensagem que Mainardi prega e da qual depende. As cidades que ele cansadamente percorreu não eram menos corruptas, promíscuas e provincianas do que Cuiabá ou Brasília. Os pecadores que sentavam à sua mesa não eram menos mesquinhos e detestáveis que Mainardi; Mateus não era mais aceitável que José Dirceu. Jesus não veio negar que a mediocridade é universal; ele veio apenas informar que a graça também é. Para Mainardi, a mediocridade universal significa que todos devem ser atacados; para Jesus, ela é sinal inequívoco de que todos devem ser aceitos.

Onde abundou a mediocridade, a graça transbordou às bicas.



2 Comentários a respeito de "A graça de Diogo Mainardi"

Bill

Poxa Bill, pelo jeito o Mainardi é mesmo detestável, ninguém quer comentar nada…



Mabel

Olá pessoal! Pode parecer irônico, mas eu gosto de tudo o que se refere ao Mainardi! Principalmente agora, que percebi o quanto ele é sincero quando o assunto é ele mesmo!



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