20 de Julho de 2005

A Discussão do Carioca com o Pau-de-Arara

Incorporado por   Paulo Brabo

 

Estocado em The Net

Minha visita à Academia Brasileira de Literatura de Cordel não poderia ter sido mais feliz. Inútil descrever o carinho e a compaixão com que fui recebido pelo Gonçalo e por sua esposa Maria do Livramento (Mena) na sua casa e na sede anexa da Academia. Direi apenas que o presidente Gonçalo é um sujeito de muitíssimo bom humor e cheio daquela humildade que, sei por experiência própria, é característica de todo homem de gênio. Dêmo-nos muito bem, eu e ele. Gonçalo mostrou-se pelo menos tão docemente sarcástico quanto eu, e chamou-me desde o primeiro instante de Paulinho.

A sede da Academia fica numa região privilegiadíssima do Rio de Janeiro, um bairro que eu ainda não conhecia e chama-se Santa Teresa: um amplo morro pontuado de árvores frondosas, praças preguiçosas, casas muito antigas e ladeiras riscadas pelos trilhos de um bonde amarelo que ainda funciona. Da sala de estar do Gonçalo abre-se uma bonita vista para o prédio da Central e a ponte Rio-Niterói. Fui forçado a concluir que pelos meus critérios o Rio de Janeiro continua lindo – especialmente devido aos onipresentes morros arborizados, que erguem-se a cada esquina em que você não esperava encontrá-los, e às casas antigas, mais numerosas que olhos passando de carro podem abracar.

Estava numa das salas da Academia e acabei conhecendo também a professora Laiz Capra, fazendo pesquisas preliminares sobre Patativa do Assaré para sua tese de doutorado na Universidade de Nottingham. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Sobre as idéias que me passaram pela cabeça ao ver-me finalmente adentrando esse riquíssimo santuário do cordelário popular, terei muito ainda a dizer oportunamente. Basta dizer que este cabra sulino já sabe dizer a diferença entre um côco dobrado, um mourão e uma sextilha.


Um dos folhetos de cordel que comprei na loja da Academia foi um que eu já havia lido por inteiro no sáite da internet: o memorável A Discussão do Carioca com o Pau-de-Arara, de Apolônio Alves dos Santos. Meu momento favorito (devendo ser apreciado com o apropriado sótaque nordestino):

Respondeu o carioca
não queira tanto agravar
seu nordeste é muito bom
mas lá ninguém quer ficar
deixou lá seu pé de serra
e veio pra minha terra
para poder escapar

Aqui também me pertence
o nortista respondeu
eu sou nato brasileiro
o Brasil é todo meu
o homem precisa andar
para poder desfrutar
do país onde nasceu

O Brasil é todo meu – eu não teria dito melhor. Para ler A Discussão na íntegra, clique aqui.



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