23 de Novembro de 2005

A ciência do matuto

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Brasil, Família, Quase Ciência

“Como é que o matuto descobre a altura de uma árvore?”

Estávamos viajando para Ijuí, há coisa de três anos, quando meu pai, que extrai todo o prazer do universo ao me provocar, me fez essa pergunta. Como achei que ele estava brincando, fiquei refletindo para dar uma resposta pitoresca, à altura das expectativas dele. Como o matuto descobre a altura da árvore, sem cortar a árvore?

– Ele pode usar uma trena?

– Pode.

Pensando bem, refleti, nem eu saberia medir a altura de uma árvore sem cortá-la. Se soubesse uma distância e um ângulo poderia usar talvez alguma trigonometria, mas minhas lembranças sobre o assunto eram vagas demais para serem úteis na minha retórica ou na vida real. Seria seno ou cosseno? Senti-me inteiramente incapaz, tanto de resolver o problema quanto de vir com uma resposta engraçada.

Eu disse que não sabia e perguntei como era. E meu pai, que viveu na roça até a adolescência, respondeu.more->

“É muito simples. O matuto dá as costas para a árvore e começa a andar de quatro, com as pernas esticadas, olhando sempre entre as pernas para a árvore que quer medir.”

“Ele continua se afastando na mesma posição, até o momento em que consegue enxergar entre as pernas o topo da árvore. Aí ele pára.”

“Pronto: aí é só medir a distância entre (B) o lugar que ele parou e (A) o pé do tronco da árvore. Essa distância é a altura [estimada] da árvore.”

Garante meu pai que já viu essa elegante trigonometria matuta em ação, nos seus tempos de trabalhador rural nos ermos de Santa Catarina. O mesmo procedimento, serviria, naturalmente, para medir postes, edifícios e escarpas, na cidade ou no campo.

Não ousei ainda testar.



10 Comentários a respeito de "A ciência do matuto"

fabiosaneti

A soma do conhecimento da filosofia da prática diária, a lida, como diz o matuto, é onde encontramos os elementos nacionais mais desenvolvidos culturalmente.

Adaptado ao ambiente natural e do seu modo de vida, o Jeca é um dos mais conhecidos personagens de nossa cultura.

O conhecimento do “Jeca Brasileiro” não é mais empírico, ultrapassa as barreiras do imaginário nacional que compreende a imagem da roça como atrasada.

O Jeca está associado a outros como caipira, sertanejo, matuto, corumba, tabaréu – a originalidade e a experiência
deste personagem vence muitas vezes os espertalhões da cidade!!



Bony

Fiquei matutando sobre este conhecimento popular… tipo tentando verificar se matematicamente o procedimento é levemente preciso.

Sinceramente: desisti. O fato de saber a sabedoria do matuto é bem mais valioso do que a certeza do cálculo.



Farah

ALTURA:

1. Faça com que o seu parceiro fique de pé na base da árvore.

2. Afaste-se da árvore, levando consigo a sua régua em frente e em posição vertical. Mantenha o seu braço estreito. Pare quando a árvore e a régua parecerem ter o mesmo tamanho. (Feche um olho para ajudá-lo a alinhar).

3. Vire o seu pulso para que a régua pareça nivelada ao chão e numa posição horizontal. Mantenha o seu braço estreito.

4. Diga ao seu parceiro para ir ao ponto que considera como o topo da régua. Tenha a certeza de que a base da régua seja mantida na base da árvore.

5. Meça quantos pés mais é que ele ou ela andou. Esta é a altura da árvore. Arredonde ao centímetro mais próximo e registe a sua resposta como a altura.



Bony

Farah,

Belo método. Acho que este já não pertence ao cotidiano dos matutos e caboclos.

O outro é utilizando o “teodolito” para fazer uma primitiva de topografia. Este já pertence aos técnicos e engenheiros.

Matutos são mais interessantes – que digam os egípcios sobre conhecimento popular.



Natalia B.

Ola,

Me chamo Natalia e estou fazendo um trabalho de antropologia sobre o Velho e o Novo Circo.

Estava procurando no Google sobre o filme Freaks de 1932. E o Google me mostrou seu blog. Procurei, mas não achei a parte em que você cita o filme.

Mas eu precisaria muito saber onde posso encontrar o filme. Ou pelo menos uma parte dele.

Qualquer informação que você tiver, por favor, me mande um email.

Meu trabalho é para segunda-feira (28) e estou meio desesperada. Haha.

Obrigada

Natalia

EDITADO PELO BRABO:

Natalia, a [brevíssima] referência que você procura está aqui. Não aparece na busca porque está nos comentários, não no texto principal. Já mandei o seu e-mail.



Paulo Brabo

Farah, demorei a entender a sua explicação porque faltaram os desenhinhos para ilustrar .

Se a solução do matuto requer que a cabeça do sujeito esteja num ângulo de 45 graus com relação ao solo (e que esteja usando calça de matuto, que tem as dimensões calculadas para facilitar esse tipo de coisa), a sua solução requer um companheiro para ajudar na medição.

Ninguém é perfeito, mas parabéns assim mesmo. Foi seu pai que te ensinou isso?

Resta dizer que, além de mais acurada, a sua solução é definitivamente mais elegante – em todos os sentidos.



fábiosaneti

Segundo explica minha querida professora de desenho técnico, era preciso ter o ângulo, o seno… e coisas que já nem me lembro mais.

Mas realmente a teoria do Farah funciona!!

Ela exclamou sorrisos ao saber da mesma.



Farah

Amigos eu fui escoteiro.

Monitor da patrulha Morcêgo do grupo escoteiro Jorge Frassati. Aonde aprendemos essas maravilhas do cálculo da altura de árvores. E também ajudavamos o Frei Almir a pular o muro do convento para ir festar com a gente (foram só umas poucas vezes depois Deus não deixou mais).



CORSEL MALSIM

Na boa, este matuto deve ter saído do “Brokeback Moutain”.



fábiosaneti

Paulo,

Descobri um novo vocábulo para o matuto: Moqueta!… Procede?!



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