Os filmes são os sonhos coletivos. Sem premeditação alguma, os filmes de cada época acabam refletindo as preocupações e ansiedades da sociedade naquele determinado momento.
Os anos 50 foram os anos dos filmes de monstro: Them!, The Beast from 20000 Fathoms, Tarantula, O Monstro da Lagoa Negra. Na esmagadora maioria dessas histórias, o gatilho que criava, despertava ou liberava o(s) monstro(s) era algum teste ou vazamento nuclear: projeção do medo da catástrofe nuclear sustentado pela Guerra Fria.
Os anos 70 foram os anos dos filmes catástrofe: Inferno na Torre, Tubarão, Aeroporto, Piranha, Terremoto, O Destino do Poseidon. São filmes em que “a natureza se volta” contra a sociedade pela qual é abusada: projeção do medo despertado pela consciência do esgotamento dos recursos naturais.
A recente discussão sobre o pessoal e o coletivo me fez refletir que os anos 2000 estão sendo (já a partir, talvez, do final dos anos 90) a época dos filmes de confinamento.
Matrix(1999), A Ilha(2005), O Show de Truman(1998), Cubo(1997), Jogos Mortais(2005), Quarto do Pânico(2002), O Náufrago(2000), A Vila(2004), O Terminal(2004) são todos filmes que descrevem as agruras de gente presa, conscientemente ou não, a um universo fechado de cujas retrições anseiam escapar. São filmes de confinamento, cujo conflito básico é a luta para sair. A mesma idéia aparece ainda em inúmeros shows contemporâneos de televisão, como os extraordinariamente bem sucedidos Big Brother(s) e a série de ficção científica Lost.
Não sei como interpretar esses novos sonhos coletivos; por que a nossa nova obsessão com o confinamento? Talvez tenhamos finalmente intuído os limites da Terra: que o planeta não é de modo algum inesgotável, mas pode ser vasculhado num único arrastar de mouse do Google Earth. Talvez estejamos preocupados com as ameaças contemporâneas à privacidade. Talvez os filmes de confinamento sejam projeções da nova escravidão e da inédita liberdade que nos proporcionam a experiência da internet.