Manuscritos estocados em Dezembro do Anno 2005 de Nosso Senhor
21 de Dezembro de 2005

Copo

Manuscritos

– Meio cheio ou meio vazio?

Me parece próximo a um equilíbrio.

* * *

– Meio cheio ou meio vazio?

Meio longe da garrafa.

* * *

– Meio cheio ou meio vazio?

Satisfatoriamente dúbio.

* * *

– Meio cheio ou meio vazio?

Vazio de significado, cheio de lugares-comuns.

* * *

– Meio cheio ou meio vazio?

Não enche.

19 de Dezembro de 2005

Três Reis

Filmes, Homens e Mulheres, Nostalgia

Ontem à tarde precisei fazer uma visita em Curitiba e estiquei para assistir no Cinemark do Mueller o último King Kong, dirigido pelo Peter Jackson de O Senhor dos Anéis. Com este são três King Kongs na minha vida.

O primeiro foi o passável King de 1977 (a loira era Jessica Lange), memorável para mim porque aquela foi a primeira vez que fui ao cinema sozinho, sem os meus pais, com três amigos da escola. Era Londrina e eu tinha 10 anos.

Lembro que um dos colegas que arrastamos para aquela sessão nunca tinha ido ao cinema – coisa que aos dez anos de idade (decidimos os outros três) era inconcebível e constrangedor e precisava ser corrigido a todo custo. O sujeito acabou dormindo a maior parte do filme. Recordo que tive de ir ao banheiro durante a sessão; os banheiros ficavam na parte da frente da imensa sala de cinema, um em cada canto da tela, o dos meninos à esquerda. Quando voltei para a sala de projeção o rosto King Kong urrava enchendo a tela e meus amigos dizem que saí correndo de medo.

Depois veio o de 1933, em preto e branco e assistido pela primeira vez numa madrugada qualquer, e que permanece meu favorito. O mais recente King de Peter Jackson segue em inúmeros pontos o de 1933, (alguns muito curiosos, como a fala final do produtor diante do monstro morto e a maneira como Kong abre e fecha a boca do tiranossauro depois de matá-lo), mas trilha também muitos e congestionados caminhos novos.


Embora o filme de 1977 tenha atualizado a ação “para os nossos dias”, a história é definitivamente a mesma nos três filmes. King Kong poderia se chamar O Fim do Reinado do Macho Protetor. Trata-se, na verdade, de um tratado velado sobre as relações entre homens e mulheres – especialmente sobre as contradições do recente papel “civilizado” da masculinidade.

King Kong é um trágico triângulo amoroso entre a Mulher, o Macho Protetor e o Homem Civilizado. Os perigos na Ilha da Caveira são impossivelmente numerosos, para que fique claro que uma mulher que não tenha um King Kong para chamar de seu não tem qualquer chance de sobreviver. Mesmo no lento filme de 1933, em menos de quinze minutos o Macho Protetor tem de matar três monstros diferentes para salvar a mocinha. Diante de um desempenho desses, os olhos da loirinha (todas as três) enchem-se de admiração, gratidão e amor pelos irresistíveis charmes do Macho Protetor – não importa que você tenha mau hálito e oito metros de altura, você matou um tiranossauro por mim?

Mas meia hora depois mudam os pesos na balança, e também o amor da mocinha. Estamos agora na cidade mais civilizada do mundo, onde o Macho Protetor é uma intrusão e uma anacronia: não tem mais função e precisa ser eliminado. Os filmes deixam bem claro (especialmente o de Jackson) que toda a destruição que o monstro faz em Nova Iorque é motivada exclusivamente pela devoção e pelo amor do Macho Protetor – King Kong só quer proteger a mocinha de trens e aviões, como fez na ilha com serpentes e pterodáctilos.

Porém o terreno é agora do Homem Civilizado. Na civilização a Mulher não precisa e não quer ser protegida. O Macho Protetor é uma relíquia e portanto uma ameaça, e acaba saindo do caminho para que vença a sanidade e a mocinha fique com o mocinho. Saia para lá com esse peito peludo e esse braço forte, que o que eu preciso é de um homem que me satisfaça emocionalmente.

Aquela história.


Neste último filme incomodaram-me, em especial, as infindáveis panorâmicas: tudo é visto simultaneamente em vertiginosas pans, de cima e de todos os ângulos. O King Kong de 2005 é definitivamente 3D – e no que me diz respeito aí reside seu maior defeito (maior mesmo do que a perda do sentido de proporção de algumas das aventurosas adições, que fazem as Missões Impossíveis de Tom Cruise parecerem inteiramente cabíveis).

Estou falando de uma preferência minha, mas tudo no King Kong de 1933 era admiravelmente 2D; cada cena parecia ter sido arrancada de uma página de livro ou de uma gravura de naturalista. O Kong de 1933 habitava num mundo que só existia – em luz, sombra e design – numa gravura de Gustave Doré.

Ah, que saudade.

Clique em qualquer imagem para ver do que estou falando




19 de Dezembro de 2005

Presentes

Ilustração

ENGLISH VERSION here

Clique para assistir

Minha mensagem de Natal pra você é um filme de animação de um minuto e meio (o primeiro do Estúdio Brabo) chamado Presentes. Para baixar/assistir, clique na imagem acima.

A reprodução requer a versão mais recente do Quicktime Player (que talvez já esteja instalada no seu computador). Se o seu navegador recusar-se a reproduzir o filme automaticamente quando você clicar nos links, pode ser necessário clicar com o botão direito do mouse, salvar o arquivo presentes.mov no seu disco e reproduzi-lo a partir do seu próprio computador.

18 de Dezembro de 2005

A melhor piada religiosa de todos os tempos

Divino preconceito, Fé e Crença

Os visitantes do sáite shipoffools.com elegeram o que consideram ser a melhor piada religiosa de todos os tempos.

Uma vez eu vi um cara querendo se jogar de uma ponte e eu disse:

– Não faça isso!

– Ninguém me ama – ele disse.

– Deus te ama. Você acredita em Deus?

– Acredito – ele disse.

– Você é cristão ou muçulmano?

– Cristão.

– Eu também! – eu disse. – Protestante ou católico?

– Protestante.

– Eu também! De qual denominação?

– Batista.

– Eu também! Batista da convenção batista do norte ou batista da convenção batista do sul?

– Da convenção batista do sul.

– Caramba, eu também! Batista da convenção batista regular do sul ou da convenção batista independente do sul?

– Da convenção batista regular do sul – ele disse.

– Eu também! Batista da convenção batista regular reformada do sul ou da convenção batista regular pioneira do sul?

– Da convenção batista regular reformada do sul.

– Eu também! Batista da convenção batista regular reformada pentecostal do sul ou da convenção batista regular reformada carismática do sul?

– Da batista regular reformada pentecostal do sul.

– Então morra, herege! – e empurrei o sujeito.

O comediante Emo Philips, autor da piada original, conta mais uma:

Quando era pequeno eu costumava orar toda a noite pedindo uma bicicleta, até que percebi que não é assim que Deus funciona.

Então eu fui lá, roubei uma e pedi que ele me perdoasse. E funcionou!

17 de Dezembro de 2005

Manuscrito encontrado numa garrafa

Manuscritos

A tempestade levantou-se há cinco meses e não mostra sinais de se abater. No dia em que André foi diagnosticado com câncer ele me disse que o mundo inteiro podia mudar num único dia; para mim foram necessários cinco meses. A tempestade atingiu-me há dois.

Não há quem não tenha visto na televisão as primeiras imagens das casas sendo magnificamente destelhadas pela tempestade no Rio Grande do Sul. Os prédios enchendo o Guaíba. Lembro-me de ter tremido do orgulho e de culpa de estar testemunhando aquilo, de estar vivo e imune a uma tremenda catástrofe que era para outros inescapável. Pelo menos oitenta mortos, feridos sem conta, um rastro inteiro de desabrigados.

Isso porém foi antes, quando havia imagens, quando havia eletricidade e quando havia televisão.

Quando havia Rio Grande do Sul.

Hoje em dia a tempestade é tudo que há. Ela é nossa única experiência. A internet foi a primeira baixa, os telefones a última. Uma das últimas imagens sãs das quais me recordo é a de uma granulada reportagem que vimos na televisão, um grisalho especialista norte-americano descendo no aeroporto de Brasília e dizendo que os Estados Unidos fariam o possível para ajudar o governo brasileiro a “conter” a tempestade.

Como se contém uma tempestade? Uma tempestade não se contém, e hoje todo mundo sabe disso – literalmente todo mundo, se como se diz a tormenta alastrou-se pelo planeta inteiro.

A tempestade é implacável, violenta, seletiva e – supõe-se – inteligente. Quando a vertiginosa parede de cinza de quilômetros de altura surgiu no horizonte do Monastério, há meros dois meses atrás, tirei minuciosas fotos da Serra do Mar sendo engolida morro a morro na luz do final de tarde. Minha minúscula Nikon, onde quer que esteja jazendo agora, deve estar revirando incessantemente na sua memória eletrônica as últimas imagens que capturei: o forro da casinha de madeira sendo sugado folha a folha, as horrendas bocas cinzas dos vórtices aparecendo entre as vigas destelhadas. Um pedaço inteiro da rodovia sendo despejado a cem metros da minha porta.

E era o começo. O aguaceiro prolongou-se por trinta e sete dias sem retroceder um palmo. Uma ventania prodigiosa derrubou espetacularmente árvores, postes e casas inteiras – catapultando indiscriminadamente carros, caminhões, pessoas e reses e deixando-os encrustando-os em muros, barrancos e cercas, como baixos-relevos.

A esta altura já havíamos deixado a casa grande e subido aos trancos e barrancos para a pedreira, abrindo caminho a pé, debaixo do peso de mochilas encharcadas, entre uma surrealíssima floresta de relâmpagos. A decisão eventualmente nos salvou, porque no trigésimo oitavo dia, quando a chuva finalmente cedeu, chegaram as trombas d’águas. Da pedreira no pé do Anhangava vimos as circunspectas colunas cinzentas aproximando-se devagar no horizonte, sondando e avaliando o terreno, como um terrível exército invasor.