Manuscritos estocados em Dezembro do Anno 2005 de Nosso Senhor
26 de Dezembro de 2005

Como dormir numa rede

Brasil

Eu e o Julian passamos duas noites da Expedição Cordel na arejada mansão do engenhoso Arievaldo Viana em Caucaia, cidade tão próxima a Fortaleza que chega a ser indistinguível dela. Foi no seu escritório, transformado em dormitório para nosso benefício, que o Ari introduziu-nos no segredo milenar de como se dormir numa rede – ou baladeira, que é o inevitável nome pitoresco que ele usa.

Eu adoraria, para benefício dos leitores da Bacia, ter filmado a impagável demonstração que o Arievaldo (como em tudo mais) tão entusiasticamente nos fez. Posso no entanto repetir o essencial: numa baladeira não se dorme de comprido (A), como um defunto, nem perpendicularmente (B), na posição de crucifixo. Ambas as posições podem ser fatais para a sua coluna e para o dia seguinte.

A recomendação do especialista é deitar na rede transversalmente©, com os membros espraiados. Nessa posição a rede fica mais aberta e mais nivelada e a sua espinha mais reta: com alguma sorte você e sua coluna poderão sobreviver a uma noite inteira desse abuso, fato do qual eu mesmo sou evidência palpável.


25 de Dezembro de 2005

O final da queda

Goiabas Roubadas

Se um homem cai de um avião no meio da noite
Apenas Deus pode segurá-lo.

Deus se mostra no meio da noite
E toca o homem e atenua o seu sofrimento.
Deus não limpa dele o seu sangue
Porque o sangue não é sua alma,
Deus não satisfaz o seu corpo
Porque um homem não é de carne.

Deus inclina-se sobre ele, ergue sua cabeça e observa
Em seus olhos o homem é uma criança
Enquanto desajeitado põe-se de quatro e tenta andar
E sente então que pode voar.

O homem está ainda confuso e não sabe
Que é bem melhor flutuar do que engatinhar.
Deus tem vontade de acariciar a sua cabeça
Mas espera, porque não quer
Assustar o homem
Com sinais de amor.

Se um homem cai de um avião no meio da noite
Apenas Deus conhece o final da queda.

Dahlia Rabikovitch

If a man falls from a plane in the middle of the night
Only God can pick him up.

God shows himself in the middle of the night
And touches the man and eases his suffering.
God does not wipe his blood
Because blood is not his soul,
God does not indulge his body
Because man is not of flesh.

God leans over him, lifts his head and watches
In his eyes the man is a child.
As he gets up heavily on all four and tries to walk
And then he feels that he can fly.

The man is still confused and does not know
That it is far better to float that to crawl.
God wishes to caress his head
But he waits, because he does not wish
To scare the man
With signs of love.

If a man falls from a plane in the middle of the night
Only God knows the end of the fall.

24 de Dezembro de 2005

As primeiras coisas criadas

Goiabas Roubadas

A CRIAÇÃO: As primeiras coisas criadas

No princípio, dois mil anos antes do céu e da terra, sete coisas foram criadas: a Torá, escrita com fogo negro sobre fogo branco e repousando sobre o colo de Deus; o Trono Divino, erguido no céu e que mais tarde estaria sobre as cabeças dos Hayyot; o Paraíso à direita de Deus, o Inferno à sua esquerda; o Santuário Celestial diretamente à frente de Deus, tendo em seu altar uma jóia gravada com o Nome do Messias, e a Voz que clama: “Voltai, filhos dos homens”.

Quando decidiu a respeito da criação do mundo, Deus tomou conselho com a Torá. A recomendação dela foi:

– Oh, Senhor, um rei sem um exército e sem cortesãos e atendentes não merece o nome de rei, pois ninguém há perto para prestar-lhe a homenagem devida.

A resposta agradou a Deus sobremaneira. Dessa forma ele ensinou todas as coisas terrenas, através do seu divino exemplo, a nada empreender antes de primeiro consultar os seus conselheiros.

O conselho da Torá foi dado com algumas reservas. Ela duvidava do valor de um mundo terreno por causa do pecado do homem, que iria por certo negligenciar os seus preceitos. Porém Deus dissipou as suas dúvidas, dizendo a ela que o arrependimento havia sido criado muito antes, e que os pecadores teriam oportunidade de corrigir sua conduta. Além disso, o serviço do templo seria investido de poder de remissão, e o Paraíso e o inferno destinavam-se a fazerem sua obrigação como recompensa e punição. Finalmente, o Messias era designado a trazer salvação, que poria um fim a toda a pecaminosidade.

Porém nem mesmo este mundo teria permanecido, se Deus tivesse executado o seu plano original de governá-lo sob o princípio da justiça estrita.

Tampouco foi este mundo habitado pelo homem a primeira das coisas terrenas criadas por Deus. Ele fez diversos mundos antes deste, mas destruiu a todos, porque não se satisfez com nenhum antes de criar o nosso. Porém nem mesmo este mundo mais recente teria permanecido, se Deus tivesse executado o seu plano original de governá-lo sob o princípio da justiça estrita. Foi apenas quando viu que a justiça por si mesma traria a ruína do mundo que ele associou à justiça a misericórdia, e fez com que ambas governassem conjuntamente. Desta forma, desde o princípio de todas as coisas prevaleceu a bondade divina, sem a qual nada teria continuado a existir. Se não fosse por isso, as miríades de espíritos malignos já teriam colocado um fim às gerações dos homens. Porém a bondade de Deus ordenou que a cada mês de Nisã, por ocasião do equinócio da primavera, os serafins aproximem-se do mundo dos espíritos, e os intimidem de modo a que eles temam fazer mal ao homem.

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23 de Dezembro de 2005

O paradoxo da escolha

Nostalgia, Sociedade

Estamos condicionados a pensar que mais é mais. Parece-nos uma verdade evidente – daquelas que não requerem demonstração – que quanto maior o número de opções maior é nossa liberdade e maior o nosso nivel geral de satisfação. Barry Schwartz, professor de Teoria Social e Ação Social da Universidade de Swarthmore, escreveu The Paradox of Choice: Why More is Less (O Paradoxo da Escolha – Porque menos é mais) para provar que podemos estar errados.

Dito claramente, nunca houve tantas opções e em tudo quanto nos nosso dias. Carros, telefones celulares, programas de computador, cremes dentais, filmes, blogs, livros, biscoitos, planos de seguro, bonecas, músicas, parques de diversões, marcas de margarina, páginas da internet, restaurantes, religiões e relacionamentos – virtualmente cada possibilidade da vida arrasta atrás de si uma miríade de opções e subopções que cruzam-se e multiplicam-se promiscuamente – coisa sem precedentes na história da civilização, em que se costumou definir o valor de cada coisa pela sua escassez.

“A maioria das pessoas acha que a diversidade de opções é uma coisa boa. Afinal de contas, associamos escolha com autonomia, controle, independência e resultados desejados. Na realidade não é esse o caso”.

O paradoxo, segundo Schwartz, é que pensamos que queremos mais escolhas, mas quanto mais opções temos menos satisfeitos ficamos. Os tempos de escassez são invariavelmente vistos nostalgicamente, e com algum acerto, como tempos mais felizes.

Schwartz identifica quatro possíveis razões para essa insatisfação com a diversidade de opções:

1. O custo da oportunidade. Nossas decisões são maculadas por uma vantagem específica que tivemos de abrir mão no ato de fazermos determinada escolha. Analisando duas opções, você pode acabar concluindo que cada uma oferece algo que a outra deixa de oferecer; você percebe que, escolhendo uma, você estará invariavelmente perdendo alguma coisa que a outra opção podia garantir. Trata-se do custo da oportunidade: quanto mais alternativas você considera, maiores os custos de oportunidade de uma decisão.

2. Arrependimento. Há também o peso das opções integrais que deixamos de fazer. “Se aceito um emprego com um bom salário, posso me arrepender de não ter aceito um emprego numa boa localização. Posso me arrepender até mesmo de não esperar por um emprego hipotético com uma boa localização e um bom salário. Todas as outras possibilidades diminuem o prazer da minhas escolha”.

3. Capacidade de adaptação. Nossa capacidade de adaptação pode também trabalhar contra nós, quando uma decisão que parecia a princípio empolgante e inteiramente satisfatória perde gradualmente o brilho, ao ponto de deixar-nos insatisfeitos com a escolha original.

4. O peso da comparação. Finalmente, como estamos constantemente comparando-nos com as outras pessoas, acabamos concluindo sempre – e com todo o acerto – que alguém sempre está sempre em situação mais favorável.

Com base em como encaram a diversidade de opções, Schwartz divide as pessoas entre maximizadores e satisfazedores. Os maximizadores buscam incessamente e a qualquer custo a opção mais vantajosa – vasculham todas as lojas de todos os shoppings até encontrar o sapato que oferece o melhor custo-benefício. Os satisfazedores, por outro lado, procuram uma opção que lhes pareça satisfatória para o critério que determinaram para si mesmos. Assim que encontram uma opção que lhes pareça boa, param de procurar.

A evidência é de que não apenas os maximizadores gastam uma parcela muito significativa do seu tempo fazendo decisões, mas tendem ainda a ser menos felizes com as decisões que fizeram. Gastam mais tempo arrependendo-se e comparando-se com os outros ao seu redor, torturando-se com as opções mais vantajosas do que a que fizeram.

O paradoxo está em que a diversidade de opções pode produzir não a liberdade, mas a paralisia.

Olhai, senhoras e senhores, os lírios do campo.

Leia também:
A ansiedade das coisas
Vítimas do século XX

22 de Dezembro de 2005

Noiva

Ilustração

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