Fiquei muito satisfeito com a entrevista das páginas amarelas da VEJA desta semana; mais da metade do que diz o pensador inglês John Gray eu desejei descaradamente ter escrito, com destaque para a notável noção de que a crença no progresso é uma crença como outra qualquer.
“Fora quem tem algum sentimento religioso”, sentencia Gray, “quem acredita hoje em dia em alguma coisa acredita no progresso”. Ou seja, acredita que as coisas estão no geral melhores, mais promissoras e mais justas do que estiveram há cem anos, e que tendem a melhorar. Acredita que as pessoas são hoje mais felizes do que eram e que no futuro serão ainda mais. Acredita, como Francis Fukuyama, que o capitalismo gerou o melhor dos mundos possíveis.
“A crença no progresso nos impede de ver que, às vezes, estamos, sim, é regredindo”.
A crença no progresso, esclarece Gray, é uma invenção recente na história da humanidade, datando meramente do século XVIII; é também uma farsa piedosa, uma crença numa ilusão tão grande ou maior do que pressupõe qualquer crença religiosa.
Essencialmente, o progresso atinge a ciência mas não a ética – por isso a humanidade não corre o risco de se tornar uma civilização “avançada” no que diz respeito à integridade e à justiça. As ferramentas da ciência curam mas também matam com mais eficiência, e todas as suas soluções geram problemas que antes não existiam. As desigualdades apenas se acentuam, e ninguém é mais feliz ou infeliz do que foi James Dean apenas por possuir um telefone celular. Ou – o que é notável por si mesmo – acesso à internet.
O progresso como religião – tudo isso em perfeito acordo com os profetas modernos que cito incessantemente, gente como Ivan Illich e Tolkien, que ousava duvidar do que parece evidente para todo mundo.
Se tenho de discordar de Gray, é quando ele dá a entender que o culpado pela atual crença no progresso – e por suas conseqüências funestas – é o cristianismo, de quem a nossa civilização herdou a idéia de que o homem tem papel central no universo.
“Na maior parte da história”, explica Gray, “a moralidade não foi antropocêntrica – nem no budismo nem no taoísmo, por exemplo. O antropocentrismo é característica do cristianismo e do humanismo secular – que nada mais é do que o cristianismo sem Deus”. Gray reserva os seus maiores elogios para religiões como o taoísmo, porque “pregam uma certa modéstia sobre o lugar dos seres humanos no esquema das coisas”.
É inegável que o cristianismo seja, do nosso ponto de vista, antropocêntrico. O papel do ser humano no universo, opinaram os escritores da Bíblia, é absolutamente central. Não haveria jeito mais poderoso de estabelecer isso do que se dizer, no primeiro capítulo do livro, que o homem foi criado à imagem de Deus.
Mas há dois meios de se colocar o homem no centro. O primeiro e invariavelmente mais comum reflete: se o universo gira ao redor do homem, tudo gira ao meu redor. O segundo, proposto pelo cristianismo por Jesus, entende que se o universo gira ao redor do homem, tudo gira ao redor dos outros.
A primeira solução – o mundo gira ao meu redor – sustenta o individualismo que por sua vez alimenta o apetite insaciável pela ficção do progresso. Correr atrás do vento, diria o Eclesiastes. A segunda – o mundo gira ao redor dos outros – é tão antropocêntrica quanto a primeira, mas produz a solução para o problema da moralidade que tanto preocupa John Gray.
Amar os outros como a si mesmo – foi como Jesus equilibrou a equação.
Se fossemos pessimistas como devemos, não teríamos de ver o cristianismo acusado de antropocêntrico.
Finalmente, é muito injusto acusar o cristianismo pela crença no progresso, quando a visão de mundo cristã foi sempre profundamente pessimista – particularmente com relação ao destino da humanidade à parte de Deus. Basta observar as sombrias descrições que Jesus faz dos final dos tempos (“parece muito ruim, eu sei – mas é apenas o começo das dores”), ou o livro Apocalipse, em que um temível crescendo de adversidades precede a intervenção final do Autor no universo que criou.
Sinto falta, como já devo ter dito em outra ocasião, desse cristianismo pessimista. Se fossemos pessimistas como devemos, não teríamos de ser denunciados por gente sensata como Gray. Não teríamos de ver o cristianismo acusado de antropocêntrico.
Isso porque, ao contrário de religiões sem Deus, como o taoísmo e o humanismo secular, o cristianismo é na verdade, ou deveria ser, teocêntrico – Deus está no centro. Suas histórias mais fundamentais (a queda de Adão e a tentação de Jesus) estabelecem que qualquer iniciativa do homem em usurpar o papel principal tem conseqüências terríveis para todos.
Dito de outra forma, o cristianismo propõe que o centro do universo será eternamente Outro: nossa única chance é abraçar a humildade.
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