Manuscritos estocados em Outubro do Anno 2005 de Nosso Senhor
25 de Outubro de 2005
Ocorreu-me apenas recentemente (e já não era sem tempo, refletirão alguns) que sou um patife.
Vivo cercado de gente dotada de maturidade e profundidade emocional: meus pais, minhas irmãs e cunhados, meus amigos. Alguns mais, outros menos (vocês sabem quem vocês são), mas em contraste com qualquer um deles sou como lâmina d’água em parque de monumento: raso e vistoso. Muito marketing e pouco conteúdo.
Numa discussão famosa, o diabo argumentou que Jó era justo somente porque Deus o tinha por favorito e cobria-o de bençãos. Qualquer um seria justo sendo alvo de tantos privilégios, o diabo parecia estar querendo implicar. Pois eu, tendo tudo como Jó, sou patife quando ele era justo.
Em nenhuma outra coisa minha mesquinhez fica mais clara do que no meu trato com as pessoas. Eu, que vivo apregoando que nada me interessa neste mundo mais do que as pessoas, passo pela vida sem deixar qualquer evidência concreta disso.
“Até os pecadores tratam bem os próprios amigos”, argumentou Jesus, mas não levava em conta exceções como eu. Eu trato mal os meus amigos. Trato mal os que me tratam bem.
Impossível expressar aqui a gentileza inabalável que me concedem o Hélio, o Marcelo, a Isa, a Alice, a Paula, para não mencionar praticamente todos os amigos e conhecidos. Já eu, de minha parte, nada faço para reagir à dedicação deles – quanto mais retribuir. Como bom patife, tomo por certa toda a atenção que recebo, distribuindo visitas de médico e doses homeopáticas de atenção – menos por afeto sincero do que para sustentar a minha imagem de bom moço.
Especialmente curioso, tendo em vista tudo isso, é que a oração que repito quase diariamente desde a adolescência é o pedido de poder dar a vida pelos meus amigos (querendo imitar o amor de que, segundo Jesus, não existe maior). É apenas em momentos de lucidez como este que percebo que, na minha cabeça, “dar a vida pelos amigos” fica reduzido a “oferecer meus ricos recursos em favor dos desprivilegiados”. Ou seja, minha presunção é a de permanecer sempre um pouco acima dos meus amigos, estendendo-lhes a mão do meu posto privilegiado, e nunca ao lado deles. Nunca como um deles. Posso abraçar as pessoas, mas não sou maduro o bastante para me identificar com quem quer que seja.
Dar a vida, desde que não seja necessário repartí-la com ninguém.
Aprendi, é claro, a acreditar em todas as mentiras piedosas que digo – e dizem – a meu respeito. Gosto de pensar que sou gentil e generoso, mas minha gentileza e generosidade são tão genéricas que não se aplicam a ninguém em particular – ou seja, ninguém pode contar com elas.
As gentilezas mais fundamentais me abstenho de produzir. Presentes, por exemplo. Meus amigos me cobrem de presentes, mas eu sou conhecido por não dar coisa alguma a ninguém. Nem mesmo uma bala. O Hélio tem sempre uma Coca-Cola, o Ivan uma barra de chocolate, a Carol um doce que ela fez, a tia Lauriza uma caixa de bombons aleatória (ou um pijama) – e assim por diante. Até mesmo meus sobrinhos queridos aprenderam a não esperar presentes de mim. Tirando tudo, minha sobrinha Paula me dá mais presentes (e mais valiosos, feitos com suas mãozinhas) do que dou a ela.
Costumo racionalizar essa escassez dizendo a mim mesmo que não sou apegado a coisas materiais e não quero que ninguém seja. Esse argumento naturalmente não sobrevive ao exame mais superficial – motivo pelo qual nunca o examino. Como prova a história das moedas da viúva, o desapego às coisas materiais não fica provado pelo quão pouco se tem, mas pelo quanto se dá.
Para minha maior condenação, sou apesar de tudo tratado pelos outros como um rei. Não há ninguém que me recuse uma massagem nas costas – a mim, o patife; a mim, a farsa. O único que aprendeu recentemente a me tratar como mereço (para ver se tomo jeito e mesmo assim de forma mais suave), foi o Ivan – que dentre todos me conhece talvez mais.
Escrevi há alguns anos um uma peça de teatro muito superficial chamada O Ingrato, sobre um sujeito que reclama de tudo, incapaz de perceber os privilégios dos quais é cercado. Pois eu, que não reclamo de nada, sou muito mais ingrato do que ele e do que todos.
38 primaveras depois, o sujeito acorda descobrindo que é um cafajeste. Frodo tinha de pensar que Gollum ainda tinha esperança, mas devo ousar pensar o mesmo de mim?
O mal que não quero, esse faço, mas o bem que todos fazem não faço coisa alguma para imitar.

23 de Outubro de 2005
Em Canindé me contaram esta história, que repito com os ajustes que a memória solicitar.
No sertão os cantadores ainda cantam o romance de Amâncio Ferreira de Icó, o valente que domou a Mocidade. Amâncio era homem duro e calado, vaqueiro à moda mais clássica, gago, franzino de constituição, mas firme como carne de galo velho.
– Amâncio de Icó amarrava touro era pelo rabo – disseram-me. – Se peleava era de cachorro beber sangue.
Foi valente e famoso nas corridas de mourão do seu tempo, nome conhecido nas feiras da década de 1940, mas quebrou-se quando a esposa fugiu com um vendedor de colheres de pau, deixando para trás o marido, sete filhas e doze cabras.
Amâncio largou as filhas com a mãe em Juazeiro e foi se esconder num sítio entre Saboeiro e Poço Grande, na companhia das cabras e de um jegue velho chamado Muletão. Passaram-se vinte anos.
Foi de dois ou três matutos que vieram pedir água (quando um pau-de-arara quebrou no caminho de Iguatu), que Amâncio ouviu pela primeira vez a história do boi chamado Mocidade. O animal já era lenda quando o velho Amâncio ouviu falar dele. Mocidade era um touro taludo, danado e desaforado, preto como a noite e com uma mancha em forma de estrela espalhada no peito. Nasceu de uma vaca morta na fazenda Aroeira Grande em Trussu. Acharam o filhote vivo mas coberto de sangue e agarrado num mandacaru; quando sobreviveu deram-lhe o nome de Mocidade, dizendo que tinha de ser filho do cão ou do fazendeiro Genésio Fontes, distinção que na época não se fazia questão de fazer.
Virado desde o ventre, não havia quem pudesse com Mocidade. Agoniado e violento, o boi espalhava no ar qualquer um que se metesse no seu caminho, sem dar conta de experiência, valentia ou reputação. Os homens mais rijos na vaquejada em Trussu não puderam derrubá-lo, e quando treze peões resolveram picá-lo na véspera da chegada do valentão Josué Dias, Mocidade arrastou todos os treze pelas fogueiras do acampamento, atravessou os paus da cerca como quem anda pela chuva e sumiu na noite.
Conta meu compadre Zuca, de Canindé, que ouviu de um dos três matutos que ouviram do próprio Amâncio, que o vaqueiro nessa hora estalou a língua, enfiou na boca um capitão da paçoca de farinha de milho que estavam repartindo e confessou:
– A vida me secou os ossos, mas ainda sinto na boca os beijos da mocidade. Quero quebrar a maldita.
Foi assim que Amâncio de Icó se pôs à caça da Mocidade perdida, na figura do boi mais amolestado que se diz ter riscado o sertão do Ceará. Veio de vila em vila, perguntando nas feiras, parando cada destacamento, sondando os vaqueiros e ladeando as vaquejadas. Ouviu finalmente a notícia de um boi preto virado na peste que corria como assombração nos pés-de-serra do Araripe, e partiu para o Cariri, fazendo promessa de só entrar na cidade do Padre depois de derrubar o animal que tanto buscava.
Ouvindo que o touro vinha se derrubando de Nova Olinda na direção de Juazeiro, Amâncio acampou-se junto de um açude na entrada do Crato, na esperança de que o bicho fosse deste mundo e parasse para beber água. Numa espraida noite de lua crescente Amâncio ouviu o tropel desembestado do animal que se aproximava e mergulhou no açude, respirando por uma taquara.
Assim que o boi colocou o focinho na água o velho Amâncio perfurou-lhe as duas ventas com um gancho de ponta afiada, à moda de argola, usando também as pernas para escalar-lhe o pescoço. Possuído, o animal saiu em disparada, corcoveando e urrando com Amâncio pilotando-lhe os chifres. O gancho que o vaqueiro prendeu às fuças do boi estava preso a uma longa corrente; na corrida a corrente ia levantando um grande rastro de poeira, que na noite clara se via desde Juazeiro.
As mãos agarradas aos chifres do boi, Amâncio mostrou os dentes e sussurrou-lhe ao ouvido:
– Mocidade maldita, que me abandonou? Não te largo se tu não me devolver o vigor que tirou de mim. Estou velho mais sinto ainda os beijos que você me roubou. Devolve! Devolve tudo, féla de uma égua, se não te quebro!
Como o touro não dava qualquer sinal de cansaço, Amâncio Ferreira recolheu a corrente, girou-a no ar e arremessou-a na direção de um poste de luz pelo qual estavam passando. O vaqueiro pulou para longe e saiu rolando em segurança pelo chão, enquanto a corrente que ele havia atirado prendia-se no poste com três laçadas firmes.
Foi só quando a corrente esticou-se no máximo que o boi parou de correr. Não foi preciso dizer nada: o gancho abriu-lhe as ventas em duas, e o boi, desequilibrado, saiu capotando e quebrando todas as pernas pela noite velha do sertão. Quando parou foi com um baque surdo e pra não se mexer mais.
Morreu agarrado a um mandacaru, da mesma forma que nasceu.
Amâncio entrou em Juazeiro, de onde também não saiu mais. Casou-se com uma menina ainda muito moça, com quem teve três bacorinhos. Morreu velho, desdentado, rindo à toa e contando sempre a mesma história.

22 de Outubro de 2005
Antes da Expedição Cordel eu e o Julian só conhecíamos a imagem projetada um do outro. Ai de nós, porque agora nos conhecemos pessoalmente e não temos mais ilusões.
A imagem projetada do Julian era a do artista meio fora de centro cuja obra tendia ao deliciosamente grotesco ; um homem que conhecia Neil Gaiman, morava no bairro de Sinead O’Connor e cuja fibra moral o levava a recusar trabalhos para a Disney; um diretor de teatro que uma resenha recente do New York Times havia descrito (com justiça, garantem-me testemunhas independentes) como “um mestre do equilíbrio”.
A imagem que eu projetava para o Julian era, creio, de um santo que havia renunciado às glórias do mundo e vivia frugalmente, eternamente descalço, numa casinha de madeira no meio do nada; um artista que tendia ao rococó, brincava com as proporções e usava cores fortes; um eremita cristão, marginal e anarquista, defensor dos oprimidos e conhecido por suas tiradas sarcásticas.
Por mais acuradas que fossem (e talvez sejam), essas descrições são seletivas e superlativas; não têm como sobreviver a um exame mais de perto. Durante quase três semanas de convivência sem trégua, não tivemos escolha mas imprimir um ao outro a dura realidade das nossas limitações. De certa forma, creio que essa foi a coisa mais arriscada e importante que fizemos juntos. Repartir o tédio cru da nossa humanidade foi a essência espiritual da nossa viagem.
Ontem à noite, quanto conversávamos no messenger, brinquei com o Julian (como às vezes faço) sobre o quanto ele é famoso.
juliancrouch: mas você sabe o quanto sou sem graça juliancrouch: na vida real brabo: eu sou sem graça também, eu sei juliancrouch: ah brabo: só fascinante brabo: à distância brabo: é o nosso segredo juliancrouch: não juliancrouch: nós somos interessantes brabo: somos? brabo: mesmo? brabo: caraca juliancrouch: apenas aconteceu que anulamos as luzes um do outro brabo: provavelmente juliancrouch: fizemos o outro parecer normal
Outro desafortunado que me conheceu pessoalmente foi o Marcos Vasconcelos, em Recife; tivemos uma boa conversar na frente do edifício do Jornal de Comércio na Rua da Fundição, onde o Marcos trabalha. Ele, que esperava conhecer o legendário Paulo Brabo, teve de se contentar comigo.

Leia também: Pessoalmente
21 de Outubro de 2005
No exato instante do século passado em que as mulheres se emanciparam do papel tradicional de “feminilidade” os homens, como moças, tiveram vertigens fortíssimas, imploraram por sais e sentiram o fundamento sólido de milênios de macheza sendo puxado como um tapete de debaixo dos seus pés. Individual e coletivamente, nunca nos recuperamos do baque.
Hoje em dia ninguém sabe o que é ser homem, nem mesmo, supõe-se, os dois ou três homens que dizem restar nas regiões mais remotas do sertão australiano. Nenhuma das definições usuais de masculinidade parece se ajustar ao amorfo ideal do homem moderno, e nenhum homem moderno parece ser capaz de se ajustar às definições honradas pela tradição.
Ninguém sabe explicar exatamente como aconteceu, mas o homem perdeu desgraçadamente a sua identidade, e nunca compareceu a um agência dos Correios para tentar reavê-la. Homem não pode mais perder a paciência, xingar, falar em voz alta, dar soco, passar mais tempo com os amigos que com a família, ficar sossegado sem discutir a relação, arrotar em público, descuidar da cutícula, garrar no colarinho de um desaforado, limpar a boca na toalha de mesa, usar camisa amassada, dar de ombros ou fazer xixi de porta aberta.
Como resultado, espera-se que o homem ideal dos dias de hoje tenha as qualidades do ideal de mulher de cinqüenta anos atrás. O homem deve ser vaidoso, caseiro, recatado, sensível, temperante e deslumbrado. Deve estar disposto a entreter os filhos enquanto o cônjuge descansa do batente com a boca aberta no sofá da sala, exatamente como as mulheres costumavam fazer por nós. Deve gastar mais tempo com o espelho, com o cabelo e com hidratação da pele do que ousaria qualquer corista do Moulin Rouge. Deve assumir o molde do metrossexual, o infame almofadinha de brinco, representado tão formidavelmente por Brad Pitt.
Os contrastes gerados pela atual pendência da condição masculina são incontáveis. Antes da descoberta da opção/orientação sexual, quando homem só costumava casar com mulher, a masculinidade estava ligada menos ao comportamento sexual do que a um posicionamento pessoal, uma conquista de espaço fundamentada na conduta individual. Não bastava casar e ter filhos para ser ícone de masculinidade – era preciso um quê a mais de caráter e disposição. Hoje em dia homens barbados beijam os compenetrados bigodes de seus namorados, e em compensação há homens casados e pais-de-família mais afeminados do que determinados travestis.
O que quer que tenha sido, ser homem hoje não é mais ter cara de homem, pinta de homem e voz de homem; não é mais estar casado com mulher e ter filhos; não é ter pensamento independente, arrojo, força de corpo e de espírito; não é ter queixo cabeludo e cabelo no peito; não é ser capaz de defender-se e de defender; não é não ler revistas de moda, não pintar as unhas e não depilar as pernas; não é prover nem proteger; não é não ter preocupações e atitudes tradicionalmente femininas.
O segredo, suspeito, é que homem que é homem não tem neuras sobre o que é ser homem de verdade. Homem que é homem está nem aí.
Estou ainda pra conhecer um.
Leia também: Todos os homens
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