Manuscritos estocados em Setembro do Anno 2005 de Nosso Senhor
20 de Setembro de 2005

Margem de caderno: Te vejo na quarta

Jurássicas

Uma das coisas marcantes que aprendi estudando à noite na Federal (fora, naturalmente, a jogar truco) é que estudar à noite dá muito sono – mesmo em arrogantes heróis da resistência como eu. O efeito Zeigarnik parece não funcionar tão bem quando a interrupção em questão é uma cochilada na fórmica dura da carteira.

Particularmente difícil foi o período em que eu tinha de acordar às 05h30 para tomar o ônibus que me levava a Campo Largo, onde fiz estágio na área de Entrada de Materiais da INCEPA. Eu passava o dia dando entrada em notas fiscais e acompanhando o sonolento ir e vir de correias de transporte e de caminhões repletos de todo tipo imaginável de argila e caulim. O expediente terminava às 17h00, quando eu me arrastava até o ônibus que me largaria na esquina da Almirante Tamandaré com a Souza Naves mais ou menos às 18h15. As aulas na Federal começavam parcos quinze minutos depois, no edifício Dom Pedro II do complexo da Reitoria, que devia ficar a umas vinte quadras dali – e só terminava 23h30. Eu ia à pé, voltava à pé por ruas adormecidas e chegava em casa pouco depois da meia-noite. Era só o tempo de tomar banho, deitar a carcaça e ouvir de novo o despertador, apitando imediatamente cinco horas depois. E encher o bucho de pó de guaraná pra enfrentar de novo o mesmo tranco.

Nesse contexto, qualquer conteúdo vira conversa pra boi dormir. Ou dose pra leão.

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FALTAM 4 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

19 de Setembro de 2005

Efeito

Quase Ciência

Pesquisas recentes parecem confirmar o chamado “efeito Zeigarnik” (nomeado em homenagem ao seu proponente, o psicólogo russo Bluma Zeigarnik)

Interrompemos este artigo de forma inteiramente aleatória e gratuita. Favor desconsiderar esta advertência.

que sustenta que as pessoas recordam-se melhor do que está sendo dito ou ensinado se forem interrompidas no meio da atividade em questão.

FALTAM 5 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

18 de Setembro de 2005

Leviticenses

Divino preconceito

De vez em quando as pessoas me perguntam o quê, exatamente, tenho contra o cristianismo, já que pareço criticá-lo com certa freqüência. Minha resposta geral é: não tenho nada contra o cristianismo. Eu queria que mais gente o praticasse. O famoso adesivo de pára-choque afirma “os cristãos não são perfeitos, só são perdoados”, mas eu às vezes fico pensando com que freqüência eles verificam com Cristo o acerto da segunda parte. Fico olhando para a imagem daquele garoto protestando em São Francisco contra o casamento de homossexuais, vestindo uma camiseta em que a palavra “bicha” está dentro de um círculo atravessada por uma faixa, e tento encontrar algo dos ensinos de Cristo naquilo. Como você pode imaginar, encontro muito pouco.

Não tenho nada contra o cristianismo. Eu queria que mais gente o praticasse.

[...]

Nos comentários ao artigo ilustrado por aquela imagem alguém se perguntou porque tantos fundamentalistas gastam tanto tempo no livro de Levítico e tão pouco tempo no Novo Testamento, e creio que essa é uma pergunta especialmente pertinente. Na verdade, é tão pertinente que eu gostaria de sugerir que existe uma classe inteira de gente que se auto-identifica como “cristãos”, mas que não são cristãos de forma alguma, no sentido de que não seguem de fato os ensinos de Cristo de qualquer forma significativa. O que essas pessoas fazem é acenar na direção de Cristo de modo superficial enquanto concentram o seu tempo nos livros mais sangrentos da Bíblia (que tendem a encontrar-se no Antigo Testamento), usando o texto seletivamente para apoiar seus próprios ódios e preconceitos, utilizando a Bíblia como cacetete ao invés de como porta. Sendo esse o caso, sugiro que paremos de chamar essa gente de cristãos, e comecemos a nomeá-los por algo apropriado à sua fé, inclinações e entusiasmos.

Sugiro que paremos de chamar essa gente de cristãos, e comecemos a nomeá-los por algo apropriado à sua fé, inclinações e entusiasmos.

Proponho que os chamemos de leviticenses, nome inspirado por Levítico, o terceiro livro do Antigo Testamento, famoso por suas regras e fonte das passagens mais freqüentemente citadas pelos leviticenses para justificar sua intolerância (inclusive, recentemente, contra gays e lésbicas, com base em Levítico 18:22: “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação”).

Sugerir que um cristão é na verdade um leviticense não é dizer que sua fé é falsa – ao contrário, é sugerir que sua fé encontra-se em outro lugar da Bíblia, nas partes que são fáceis de entender: as regras e regulamentos, todas as noções explícitas sobre o que você pode e não pode fazer para estar bem diante de Deus. Regras são bem mais fáceis de seguir do que a trilha verdadeira de Cristo, que requer humildade e sacrifício e a capacidade de perdoar, amar e importar-se até mesmo por aqueles a que você se opõe e que se opõem e odeiam você. Qualquer idiota pode seguir regras; de fato, há bons indícios de que idiotas só conseguem seguir regras. Eis porque os leviticenses amam Levítico (e outros livros do Pentateuco e do Antigo Testamento): ele é repleto de regras. E em regras você pode confiar. É o motivo de serem regras.

Regras são bem mais fáceis de seguir do que a trilha verdadeira de Cristo, que requer humildade e sacrifício e a capacidade de perdoar, amar e importar-se.

[...]

Sejamos claros: nem todo cristão é um leviticense; não quero sugerir isso de jeito nenhum. Nem todo fundamentalista cristão é leviticense. E nem toda pessoa que crê que é moralmente errado permitir o casamento de homossexuais é tampouco leviticense. (Também para ficar claro: embora o Levítico seja parte da Torá, não vejo muitos leviticenses entre os judeus, que pela minha experiência vêem a Torá como um trampolim para abraçar o mundo ao invés de como uma defesa contra ele). Gente de bem pode discordar, e veementemente, sobre o que é certo e o que é errado, sobre o que é moral e o que é imoral, e sobre o que deveria ser feito a respeito. O que faz um leviticense, na minha opinião pelo menos, é a sua capacidade de transmutar as suas crenças em ódio e intolerância, a fim de privar outros de direitos de que deveriam desfrutar. Os leviticenses sempre estiveram entre nós. Eles citavam a Bíblia para justificar a escravidão. Eles citavam a Bíblia para tentar manter as mulheres em casa. Eles citavam a Bíblia para manter as raças puras. Eles citam a Bíblia para impedir que gays e lésbicas beneficiem-se do casamento. E, cada uma das vezes, depois de citarem à Bíblia à saciedade, eles saem e usam essa desculpa para o seu ódio a fim de fazerem coisas terríveis.

O que faz um leviticense é a sua capacidade de transmutar as suas crenças em ódio e intolerância.

Na minha opinião a melhor coisa que os cristãos podem fazer é reconhecer esse grupo no seu meio – gente que lê o mesmo livro, alega seguir os mesmos ensinos e afirma adorar o mesmo Cristo, mas que através de seus atos demonstra ser, vez após outra, algo que não um cristão. Creio que os cristãos deveriam perguntar a essas pessoas: “Quem são vocês? Vocês seguem o exemplo amoroso de Cristo ou seguem as regras de Levítico? Vocês usam a Bíblia para iluminar o seu amor ou para justificar o seu ódio? Quando Cristo voltar, de que modo vê irá mostrar que trilhou o seu caminho? Pelo número de pessoas que amou, ou pelo número de pessoas a quem ‘justificadamente’ se opôs? Você ama a Cristo ou ama regras? Você é cristão ou leviticense?”

Quanto ao restante de nós, proponho que nos esforcemos para separar os cristãos dos leviticenses em nossas mentes. Não vejo motivo para culpar aqueles que genuinamente seguem a Cristo pelas ações dos que meramente usam Cristo como escudo para seus próprios ódios e temores. E, quando um leviticense atravessar o seu caminho, educadamente aponte para ele o que ele realmente é: não um cristão, mas mero leviticense.

Creio que os cristãos deveriam perguntar a essas pessoas: “Quem são vocês? ”

Com toda a probabilidade, o leviticense irá odiá-lo por isso. Mas isso apenas comprova a coisa toda.

John Scalzi, fevereiro de 2004

Leia também:
A Solução Final de Lutero

FALTAM 6 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

17 de Setembro de 2005

Rousseau e outros ladrões das minhas idéias

Goiabas Roubadas, Sociedade

A inveja literária, a vontade de ter escrito o que outro escreveu, é sensação conhecida dos andarilhos impenitentes que percorrem tantas páginas que passam a acreditar em algum mérito inerente na experiência literária. Levada ao passo seguinte, a tendência faz-nos crer que a experiência de leitor não basta. Em algum momento passamos a ver a literatura como um país que pode ser não apenas apreciado de longe, mas talvez invadido. O direito de ir e vir deve estender-se às letras, cremos, e a literatura pode ser também nosso território: queremos estabelecer as suas fronteiras, definir os melhores destinos e dar nome aos seus cumes. Apenas não estamos preparados para, depois do esforço, encontrarmos já no topo uma bandeira.

É ultrajante. Não apenas Borges, mas também Tolkien e uma infinidade de asseclas maiores e menores roubaram descaradamente idéias que deveriam ser minhas.

Há meses que planejo escrever para a Bacia um artigo chamado “O Último Pudor”. Roubei eu mesmo a idéia, como acontece com freqüência, de uma ou duas frases indignadas do Ivan. O conceito me parece na verdade tão fundamental que venho adiando a composição desse artigo para quando tiver mais tempo, certamente para depois da Expedição Cordel.

Pois, lendo esses dias o Discurso de Rousseau, que emprestei da Alice e do qual já roubei uma boa goiaba, fiquei surpreso (e inteiramente indignado) ao encontrar um parágrafo que poderia ter sido extraído diretamente do artigo que ainda quero escrever!

O trecho que Rousseau roubou de mim em 1750 é o seguinte:

Hoje, quando pesquisas mais sutis e um gosto mais refinado reduziram a princípios a arte de agradar, reina em nossos costumes uma vil e enganosa uniformidade, e todos os espíritos parecem ter sido lançados numa mesma fôrma: incessantemente seguem-se os hábitos tradicionais, jamais a própria índole. Já não se ousa parecer o que se é; e, nessa coerção perpétua, os homens, que formam esse rebanho a que se chama sociedade, postos nas mesmas circunstâncias, farão todos as mesmas coisas, se motivos mais fortes não os desviarem. Portanto, nunca se saberá com quem se está lidando: será preciso, pois, para conhecer o amigo, esperar as grandes ocasiões, ou seja, esperar que já não haja tempo para tanto, uma vez que é para essas mesmas ocasiões que seria essencial conhecê-lo.

Como se vê, Rousseau não apenas apropria-se dos temas e argumentos que me são mais caros, mas também do meu estilo. A baixeza!

O leitor mais distraído da Bacia poderá reconhecer imediatamente no trecho citado o meu próprio estilo, as minhas ênfases, o meu pontuado e semipedante sarcasmo. Perceba como ele rouba o advérbio “incessantemente”, que uso eu mesmo incessantemente, e que, pensando bem, posso talvez ter roubado como tantas coisas de Borges.

Agora não sei mais. Sou uma farsa e não tenho mais como dizer que goiaba não roubei.

FALTAM 7 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

16 de Setembro de 2005

Cadeira-do-dragão

Brasil, Ilustração

Uma das sete ilustrações que fiz para uma página dupla da edição de outubro da revista Mundo Estranho, da Editora Abril. A matéria é sobre as formas mais comuns de tortura utilizadas durante a ditadura brasileira – e pediram-me que as cenas seguissem a linha sombria desta ilustração.

Se há governo, sou contra. Clique para ampliar.

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