Manuscritos estocados em Setembro do Anno 2005 de Nosso Senhor
25 de Setembro de 2005

RIO DE JANEIRO, casa do Júnior

Pormenor

Hoje às quatro horas deve estar chegando ao Rio o Julian, meu amigo britânico que é como um irmão mas que falta ainda conhecer pessoalmente. Ele vai estar cansado com a viagem de 11 horas, confuso com o idioma e atordoado com o jetlag, mas deve lembrar de dizer pelo menos uma vez, e pela fé, I love Brazil. É um teste.

Este é o relatório pré-publicado da EXPEDIÇÃO CORDEL

24 de Setembro de 2005

RIO DE JANEIRO, casa do Júnior

Pormenor

Se tudo deu certo cheguei hoje às 09h50 ao Rio e estou folgadamente instalado na casa do meu primo Júnior (esposa Jeanni e filha Letícia). O Julian deve chegar de Londres amanhã às quatro da tarde no Aeroporto do Galeão Tom Jobim.

Não sei quando voltarei a ter acesso à internet, então essas notas devem servir para quem sentir a incontrolável necessidade de me rastrear.

Este é o relatório pré-publicado da EXPEDIÇÃO CORDEL

23 de Setembro de 2005

Simple face

Gírias e Falares, The Net

Há um ano atrás, na primeira vez em que mencionei o Julian aqui na Bacia, escrevi que ele era um cara simples. Acontece que o Julian lê meu português impecável com a intermediação de um tradutor automático, que traduziu a expressão “cara simples” de forma muito singela e sensata – simple face.

Lembro que alguns dias depois, no messenger, ele mencionou o quanto havia gostado de ser chamado de simple face, e perguntou exatamente o que a expressão queria dizer. Respirei fundo e escrevi (em inglês) que cara simples é uma pessoa legal, um sujeito despretensioso, um indivíduo acessível. Ele logo pediu que eu parasse, dizendo que simple face explicava melhor o que eu estava querendo dizer.

Desde então o Julian adotou a expressão e volta com freqüência a ela. “Fulano”, ele diz de algum amigo seu, “is a simple face.” Quando falou-me sobre o artista Dan Zanes, com quem esteve na semana passada em Nova Iorque, Julian descreveu-o apenas como “very simple faced” – como se isso explicasse tudo, e talvez explique.

Outra coisa importante que aconteceu ao Julian na semana passada foi que ele teve a oportunidade de pegar nas mãos seus primeiros cordéis de verdade – da coleção pessoal do badaladíssimo quadrinista Art Spiegelman, que ele estava visitando. Meu amigo descreveu os livrinhos com três adjetivos muito bem escolhidos: tiny, greasy, cheap paper – minúsculos, ensebados, papel barato.

Era por causa daqueles livrinhos ensebados e seus improváveis artesãos, ele deve ter se forçado a refletir, que ele estava pronto para atravessar o Atlântico. Ele estava em Nova Iorque, mas já experimentava de antemão que os cordéis são, eles mesmos, very simple faced.

Naturalmente, foi isso que o atraiu neles.

E talvez em mim, mas isso ele só vai ter certeza quando me conhecer.

FALTA 1 DIA PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

22 de Setembro de 2005

Pergunte à camada de ozônio

Ilustração

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FALTAM 2 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

21 de Setembro de 2005

O último tio da terra

Quase Ciência, Sociedade

Um artigo da última Scientific American opina que a humanidade está numa encruzilhada sem precendentes – um momento de decisão marcado por coordenadas como energia, poluição, população, biodiversidade, saúde pública, alimentação, água, empregos e clima. Individualmente esses fatores sempre representaram problema, mas nunca neste grau e de forma tão interrelacionada quanto neste primeiro degrau do milênio.

O ano de 2005 marca o fulcro central de uma década que representará três transições fundamentais e únicas na história da humanidade. Antes do ano 2000 o número de jovens sempre foi maior do que o número de velhos. Desde 2000 há mais gente velha do que nova. Historicamente, sempre houve mais gente morando no campo do que na cidade. De 2007 em diante a população urbana será mais numerosa do que a rural. Desde 2003 as mulheres ao redor do mundo têm tido e continuarão a ter, em média, filhos suficientes apenas para repor o seu próprio lugar e o do pai na geração seguinte – ou menos.

As três mudanças são avassaladoras em sua singularidade e suas conseqüências, mas a última me pegou particularmente de jeito. Eu, que como muitos idealizo e sinto falta da grande família grande, vou continuar sentindo.

As tendências são evidentes na vida diária. Muitos de nós já tiveram a experiência de se perder na sua cidade natal, que cresceu ao ponto de não a reconhecermos mais. O crescimento, porém, tende a se desacelerar à medida que as famílias diminuem. Cada vez mais crianças crescem não apenas sem irmãos, mas sem tios, sem tias e sem primos.

Caracas, crescer sem irmãos já me parece suficientemente ruim, mas sobreviver sem tios, tias e primos me parece inconcebível. Chegará o dia em que o último tio dará o seu último suspiro e então seu cargo será uma curiosidade, mera nota de rodapé no museu de figuras históricas que não existem mais – ao lado de “taquígrafo”, “meeirinho” e do sujeito que acendia as lamparinas nas esquinas quando anoitecia.

Os jantares de final de ano da família terão, no máximo, oito pessoas – normalmente, apenas três.

FALTAM 3 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL