Manuscritos estocados em Setembro do Anno 2005 de Nosso Senhor
23 de Setembro de 2005

Simple face

Gírias e Falares, The Net

Há um ano, na primeira vez em que mencionei o Julian aqui na Bacia, escrevi que ele era um cara simples. Acontece que o Julian lê meu português impecável com a intermediação de um tradutor automático, que traduziu a expressão “cara simples” de forma muito singela e sensata – simple face.

Lembro que alguns dias depois, no messenger, ele mencionou o quanto havia gostado de ser chamado de simple face, e perguntou exatamente o que a expressão queria dizer. Respirei fundo e escrevi (em inglês) que cara simples é uma pessoa legal, um sujeito despretensioso, um indivíduo acessível. Ele logo pediu que eu parasse, dizendo que simple face explicava melhor o que eu estava querendo dizer.

Desde então o Julian adotou a expressão e volta com freqüência a ela. “Fulano”, ele diz de algum amigo seu, “is a simple face.” Quando falou-me sobre o artista Dan Zanes, com quem esteve na semana passada em Nova Iorque, Julian descreveu-o apenas como “very simple faced” – como se isso explicasse tudo, e talvez explique.

Outra coisa importante que aconteceu ao Julian na semana passada foi que ele teve a oportunidade de pegar nas mãos seus primeiros cordéis de verdade – da coleção pessoal do badaladíssimo quadrinista Art Spiegelman, que ele estava visitando. Meu amigo descreveu os livrinhos com três adjetivos muito bem escolhidos: tiny, greasy, cheap paper – minúsculos, ensebados, papel barato.

Era por causa daqueles livrinhos ensebados e seus improváveis artesãos, ele deve ter se forçado a refletir, que ele estava pronto para atravessar o Atlântico. Ele estava em Nova Iorque, mas já experimentava de antemão que os cordéis são, eles mesmos, very simple faced.

Naturalmente, foi isso que o atraiu neles.

E talvez em mim, mas isso ele só vai ter certeza quando me conhecer.

FALTA 1 DIA PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

22 de Setembro de 2005

Pergunte à camada de ozônio

Ilustração

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FALTAM 2 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

21 de Setembro de 2005

O último tio da terra

Quase Ciência, Sociedade

Um artigo da última Scientific American opina que a humanidade está numa encruzilhada sem precendentes – um momento de decisão marcado por coordenadas como energia, poluição, população, biodiversidade, saúde pública, alimentação, água, empregos e clima. Individualmente esses fatores sempre representaram problema, mas nunca neste grau e de forma tão interrelacionada quanto neste primeiro degrau do milênio.

O ano de 2005 marca o fulcro central de uma década que representará três transições fundamentais e únicas na história da humanidade. Antes do ano 2000 o número de jovens sempre foi maior do que o número de velhos. Desde 2000 há mais gente velha do que nova. Historicamente, sempre houve mais gente morando no campo do que na cidade. De 2007 em diante a população urbana será mais numerosa do que a rural. Desde 2003 as mulheres ao redor do mundo têm tido e continuarão a ter, em média, filhos suficientes apenas para repor o seu próprio lugar e o do pai na geração seguinte – ou menos.

As três mudanças são avassaladoras em sua singularidade e suas conseqüências, mas a última me pegou particularmente de jeito. Eu, que como muitos idealizo e sinto falta da grande família grande, vou continuar sentindo.

As tendências são evidentes na vida diária. Muitos de nós já tiveram a experiência de se perder na sua cidade natal, que cresceu ao ponto de não a reconhecermos mais. O crescimento, porém, tende a se desacelerar à medida que as famílias diminuem. Cada vez mais crianças crescem não apenas sem irmãos, mas sem tios, sem tias e sem primos.

Caracas, crescer sem irmãos já me parece suficientemente ruim, mas sobreviver sem tios, tias e primos me parece inconcebível. Chegará o dia em que o último tio dará o seu último suspiro e então seu cargo será uma curiosidade, mera nota de rodapé no museu de figuras históricas que não existem mais – ao lado de “taquígrafo”, “meeirinho” e do sujeito que acendia as lamparinas nas esquinas quando anoitecia.

Os jantares de final de ano da família terão, no máximo, oito pessoas – normalmente, apenas três.

FALTAM 3 DIAS PARA A EXPEDIÇÃO CORDEL

20 de Setembro de 2005

Margem de caderno: Te vejo na quarta

Jurássicas

Uma das coisas marcantes que aprendi estudando à noite na Federal (fora, naturalmente, a jogar truco) é que estudar à noite dá muito sono – mesmo em arrogantes heróis da resistência como eu. O efeito Zeigarnik parece não funcionar tão bem quando a interrupção em questão é uma cochilada na fórmica dura da carteira.

Particularmente difícil foi o período em que eu tinha de acordar às 05h30 para tomar o ônibus que me levava a Campo Largo, onde fiz estágio na área de Entrada de Materiais da INCEPA. Eu passava o dia dando entrada em notas fiscais e acompanhando o sonolento ir e vir de correias de transporte e de caminhões repletos de todo tipo imaginável de argila e caulim. O expediente terminava às 17h00, quando eu me arrastava até o ônibus que me largaria na esquina da Almirante Tamandaré com a Souza Naves mais ou menos às 18h15. As aulas na Federal começavam parcos quinze minutos depois, no edifício Dom Pedro II do complexo da Reitoria, que devia ficar a umas vinte quadras dali – e só terminava 23h30. Eu ia à pé, voltava à pé por ruas adormecidas e chegava em casa pouco depois da meia-noite. Era só o tempo de tomar banho, deitar a carcaça e ouvir de novo o despertador, apitando imediatamente cinco horas depois. E encher o bucho de pó de guaraná pra enfrentar de novo o mesmo tranco.

Nesse contexto, qualquer conteúdo vira conversa pra boi dormir. Ou dose pra leão.

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19 de Setembro de 2005

Efeito

Quase Ciência

Pesquisas recentes parecem confirmar o chamado “efeito Zeigarnik” (nomeado em homenagem ao seu proponente, o psicólogo russo Bluma Zeigarnik)

Interrompemos este artigo de forma inteiramente aleatória e gratuita. Favor desconsiderar esta advertência.

que sustenta que as pessoas recordam-se melhor do que está sendo dito ou ensinado se forem interrompidas no meio da atividade em questão.

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