Manuscritos estocados em Agosto do Anno 2005 de Nosso Senhor
24 de Agosto de 2005

No Estilo de Rockwell – CUIDADO TINTA FRESCA

Ilustração

De vez em quando alguém pede para me ver fazendo uma pintura do começo ao fim. Não creio que adiante muito, porque a cada vez o trajeto que faço é diferente, mas pode talvez satisfazer a curiosidade de alguém.

Aqui vão então alguns passos de uma pintura digital que estou fazendo no Painter, no estilo de Norman Rockwell. Ainda não está pronta; quero atualizar esta página à medida que prossigo. Clique nas miniaturas para ampliar.

22 de Agosto de 2005

O caso do brasileiro que mataram em Londres

The Net

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Indignado com todas as temeridades do caso do brasileiro morto pela polícia de Londres, e (como se vê) já influenciado pela peculiaríssima identidade visual da literatura de cordel, meu amigo britânico Julian fez estas dias duas xilogravuras digitais em memória de Jean Charles.

Clique nas imagens para ampliar.

21 de Agosto de 2005

MEUS PRIMEIROS E ÚLTIMOS SONETOS: Ó Patria Amada

Documentos, Família

Achei há algum tempo, soterrado numa caixa, um antiqüissimo caderno de “charadas, poesias, histórias e piadas” com meu nome – sem data, mas de quando eu deveria ter cerca de dez anos de idade. Neste caderninho estão, descobri, alguns dos primeiros e talvez os últimos sonetos que escrevi. Separei uma ou duas dessas lamentáveis memoráveis experiências para deixar aqui na Bacia.


Ó patria amada

Minha patria querida
és minha casa;
Sou pequena ferida
Parace um prato que vasa!

Ó patria amada
do meu peito varonil
Tu és uma fada,
E eu sou um vil

Tu tens uma bandeira,
Verde amarelo azul; Verde:
Palmeira, côco, parreira

Amarelo: couve e cenoura
e pare seus braços espanar,
Uma escova, uma vassoura

19 de Agosto de 2005

Padre Nosso do Imposto

Política

Nunca se viu tanto imposto
Num país como esse nosso
Cobra-se até de quem reza
Padre Nosso.

Nos falta calçado e roupa
Quem compra mais um chapéu?
Acode-nos, pai da pobreza
Que estás no céu.

Olhe que o pobre matuto
Que vê o milho encostado,
Não pode guardar nem um dia
Santificado.

Carne fresca e toucinho
O pobre matuto não come,
Ainda que, o que ele implore
Seja o vosso nome.

Meu Deus! Temos esperança
Só no socorro de vós,
Fazei que um bom inverno
Venha a nós.

De rato, lagarta e formiga
Vos pedimos, defendei-nos
Imploramos todos os dias
Ao vosso reino.

Livrai-nos que contra nós
Caia a ira do prefeito
E o mercado da cidade
Seja feito.

Fazei que caia o imposto
Da municipalidade
Mas, queira Deus eles façam
A vossa vontade.

O estado nos oprime,
O município faz guerra,
Nunca se viu tanto imposto
Assim na terra.

Queixa-se o povo em geral
Que vive como tetéu
E o governo vive aqui
Como no céu…
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18 de Agosto de 2005

A segunda Encarnação do Verbo

Fé e Crença, Pense comigo

Em algum momento do século XX o mundo converteu-se, talvez irreversivelmente, ao materialismo. Em algum momento, de forma individual e coletiva, dissemos adeus ao espírito, engolimos fundo e forçamos sobre nós mesmos a maturidade de reconhecer que tudo que existe é a matéria, a realidade física e palpável, o pão-pão, terra-terra. Tudo que foi escrito e pensado sobre o invisível, o imaterial e o espiritual merece aparentemente apenas uma gigantesca errata no registro do pensamento humano: ERRÁMOS QUANDO DISSÉMOS QUE EXISTE UMA REALIDADE ALÉM DO MUNDO FÍSICO.

Desculpem a nossa falha e os problemas que ela pode ter causado. Hoje em dia os sábios são o que sabem que todos os aspectos da experiência humana podem ser reduzidos à atividade química e elétrica do cérebro.

Como sustentaram Jung e, de modo diferente, Freud, metade dos problemas psicológicos da humanidade podem ser traçados à nossa difculdade em lidar com o trauma de perder a confiança no espiritual e cair de boca no cimento frio da realidade material. Porque, não importa o quão espiritual você acredite ser, estamos todos condicionados a acreditar que o que de fato existe é estritamente o físico, o cru, o mensurável, o adquirível – se for virtual, pode ser pelo menos experimentado pelos sentidos.

Essa reviravolta é no mínimo curiosa, já que durante a maior parte de cinco mil anos de sua história civilizada o homem brincou com a idéia do espírito. Éramos mais ingênuos, talvez, e criamos para a realidade compartimentos adjacentes e invisíveis, vastíssimos repositórios de deuses, demônios e idéias.

Para o idealista, as idéias precedem a realidade material.

Antes da conversão em massa ao materialismo a humanidade perdia ao que parece muito tempo e valiosos recursos – não apenas na sua obsessão com Deus e deuses, mas com coisas inadmissíveis como a filosofia e a metafísica, matérias austeramente dedicadas ao estudo do que não pode ser estudado.

Havia curiosidades como a alma e o espírito – “realidades” separadas da realidade, independentes dela e de alguma forma superiores a ela.

O melhor exemplo de uma visão de mundo que a conversão ao materialismo tornou obsoleta e incompreensível talvez seja o Mundo das Idéias de Platão. Hoje chamamos sua doutrina de Idealismo, mas Platão cria que as Idéias são mais reais do que o que costumamos chamar de Coisas. Na verdade, ele sustentava que as coisas emprestam a sua realidade das idéias puras, que vivem num mundo superior e à parte, uma biblioteca de recursos fora do tempo. Uma maçã é redonda porque compartilha imperfeitamente da idéia pura da Redondeza, é vermelha porque compartilha do ideal da Vermelhidão, que reside em estado puro apenas no perfeito mundo das idéias.

Resumindo, Platão e todos que o seguiram, inclusive cristãos, muçulmanos, poetas e hare-krishnas, criam na hoje obsoleta noção de que as idéias precedem a realidade material. Para o idealista, e hoje não resta um sequer, as idéias tem precedência sobre o universo físico – as idéias são reais, o mundo é acessório, subalterno, talvez residual.

Para o autor do evangelho de João, tanto a Criação quanto a Encarnação seguem a lógica do idealismo: idéias primeiro, coisas depois. Primeiro havia a Idéia (o Verbo): o mundo foi feito por ela e sem ela nada do que foi feito se fez. Mais tarde, e quase contingencialmente, o Verbo se fez Carne – a Idéia se fez Coisa. As idéias têm precedência sobre a realidade material.

Para o materialista, a realidade material precede as idéias.

Hoje em dia, tudo que lemos, fazemos e pensamos parte da noção oposta. Graças ao brilho ofuscante do iluminismo científico, sabemos que as idéias não tem qualquer existência real fora do cérebro. Não apenas Deus e deuses estão indefinidamente cancelados, mas filosofias e poesias e especulações e monstros e sonhos são apenas curiosas excreções da atividade cerebral.

Sabemos hoje, ao contrário do obsoleto Platão e do velho apóstolo João, que a realidade material precede as idéias. A Coisa real gera as Idéias irreais. O Verbo foi reduzido a Carne, mas dessa vez por outro caminho e sem ter qualquer idéia do caminho de volta.