Manuscritos estocados em Julho do Anno 2005 de Nosso Senhor
31 de Julho de 2005

Nós protestantes

Fé e Crença, Goiabas Roubadas

Nós protestantes teremos mais cedo ou mais tarde de enfrentar a seguinte questão: devemos entender a Imitação de Cristo no sentido de que devemos copiar sua vida e, se é que posso usar essa expressão, simular seus estigmas; ou no sentido mais profundo de que devemos viver nossas próprias vidas de forma tão verdadeira quanto ele viveu a sua em todas as suas implicações? Não é coisa fácil viver uma vida modelada na de Cristo, mas é indizivelmente mais difícil viver nossa própria vida de forma tão verdadeira quanto Cristo viveu a dele.

Carl Jung

We Protestants must sooner or later face this question: Are we to understand the Imitation Of Christ in the sense that we should copy his life and, if I may use the impression, ape his stigmata; or in the deeper sense that we are to live our own proper lives as truly as he lived his in all its implications? It is no easy matter to live a life that is modelled on Christ’s, but it is unspeakably harder to live one’s own life as truly as Christ lived his.

in Psychotherapists or the Clergy

30 de Julho de 2005

Margem de caderno: Cabeça-de-vento

Jurássicas

29 de Julho de 2005

Todas as aventuras do Garoto Guerra nas Estrelas

1984, Grandes Navegações

Há não muito tempo, na galáxia menos distante, um rapaz gordinho de 15 anos do Quebec filmou a si mesmo, com a câmera de 8mm do estúdio da sua escola, fazendo com um bastão manobras que imitam as coreografias do perverso Darth Maul em A Ameaça Fantasma. O rapaz, chamado Ghyslain, esqueceu a regra fundamental das aventuras privadas que você pretende manter secretas: não faça. Se fizer, não filme. Se filmar, apague.

Ele não apagou.

Seis meses depois um amigo de Ghyslain encontrou o filme e achou que seria engraçado codificar o vídeo e colocá-lo na internet. Como resultado o rapaz do filme, hoje conhecido como Star Wars Kid [Garoto Guerra nas Estrelas], tornou-se sem querer uma celebridade. Duas semanas depois do vídeo chegar ao ar já começou a circular uma versão mixada com efeitos visuais, de som e trilha sonora. Hoje calcula-se que o vídeo original já tenha sido baixado pelo menos 20 milhões de vezes – mas no ritmo incalculável do compartilhamento da internet, esse número pode ter sido muito maior.

Muitos apelaram para a zombaria fácil do perfil e da falta de jeito do Star Wars Kid, mas um número ainda maior de internautas admirou sua habilidade e seu estranho destino, e transformou-o numa espécie de ícone do poder dos geeks – um improvável herói da internet. Criou-se uma assinadíssima petição para que George Lucas usa-se o rapaz num dos filmes da série (ele se recusou), e uma coleta rendeu para Ghyslain um IPod e mais 2000 dólares.

E não só isso: o vídeo original foi remixado mais de 100 vezes, ajustando as manobras do Star Wars Kid aos mais diferentes cenários e filmes – e, três anos depois, novas mixagens continuam a sair.

O video original

O vídeo com efeitos especiais

Lutando contra si mesmo: Star Wars Kid – Ataque dos clones

Para as mais de cem mixagens adicionais, visite o sáite não-oficial do Star Wars Kid, o único verdadeiro mestre Jedi deste planeta: jedimaster.net.

28 de Julho de 2005

Em defesa da categoria

Pense comigo

A Associação de Psiquiatria dos Estados Unidos (APA) está indignada com o ator Tom Cruise, que afirmou numa entrevista recente que nunca acreditou na psicanálise, e que a psiquiatria é na verdade uma “pseudociência”. Steven Sharfstein, presidente da APA, disse num comunicado oficial que “é irresponsável que Cruise aproveite sua publicidade para promover pontos de vista ideológicos e tentar convencer pessoas com problemas mentais a que não busquem a ajuda médica de que precisam”.

Uma coisa é lamentar a condição de Cruise, apóstolo da interessante mas improvável igreja da Cientologia ; outra é avaliar até que ponto alguém pode usar a sua popularidade para avançar pontos de vistas ideológicos; outra ainda, provar que Cruise está errado.

Sharfstein alega que as declarações do ator podem levar pessoas com problemas mentais a não buscarem a “ajuda médica” de que precisam. Dizendo assim, o presidente da APA coloca a psiquiatria (e talvez sua irmã menor, a psicanálise) no mesmo patamar que a medicina convencional – ponto de vista pelo menos tão sujeito a controvérsia quanto as proposições da cientologia de Cruise.

O status de ciência da própria medicina já é, para começar, bastante precário. O médico é ensinado a buscar aplicar conhecimentos científicos e tecnológicos de forma terapêutica e em casos individuais, mas isso não quer dizer que se possa classificar a prática médica como “ciência”. Os próprios médicos concordariam que sua atividade está menos para “ciência” e mais para “arte” ou “ofício”.

A psiquiatria e a psicanálise trabalham em geral a partir de terreno ainda menos firme, já que buscam aplicar de forma terapêutica a teoria da psicologia – que se manifesta em dezenas de formas contraditórias e é, por todos os critérios, mais especulativa do que científica.

A APA está lutando, evidentemente, pela imagem da sua categoria, já que estar associado a uma “ciência” é ainda garantia de alguma respeitabilidade (da mesma forma que estar associado à igreja foi no passado). No que diz respeito a mim, eu não veria nada negativo em ver meu ofício classificado como “pseudociência” – rótulo que caberia a inúmeros ramos do conhecimento que me interessam, como a literatura, a filosofia, a ufologia e a metafísica.

Porém todos confirmam a eficácia daquilo em que acreditam. Pergunte a Cruise.

27 de Julho de 2005

A última tentação

Fé e Crença, Goiabas Roubadas

“E assim, pois, se não tiveres notícias deste reino, inventa-as. Atenção, não peço que testemunhes o que considerares falso, que seria pecado, mas que testemunhes falsamente o que consideras verdadeiro – o que constitui ação virtuosa, pois supre a falta de provas sobre algo que com certeza existe ou existiu.”

Das últimas palavras do bispo Oto a seu discípulo, no Baudolino de Umberto Eco