Eu tinha 18 anos quando entrei pela primeira vez no velho Gol de uma auto-escola em Bauru. Meu instrutor, um sujeito de meia-idade com um rosto ao mesmo tempo cansado, entediado e compassivo, perguntou Você sabe dirigir e respondi Não. Era verdade. O homem ligou o carro num suspiro silencioso que parecia expressar A gente encontra cada tipo.
Descobri apenas mais tarde que eu havia sido mantido vivo artificialmente numa bolha antropológica e automobilística, e que qualquer menino que se preze sabe dirigir e/ou manobrar desde os dez anos de idade (alguns, como o Arthur, desde muito antes).
Tenho em minha defesa que, por alguma razão, desde cedo uma enorme quantidade de desinformação sobre o assunto havia sido despejada sobre mim. Eu deveria ter uns quatro anos de idade quando algum espertalhão me informou (ou, possivelmente, imaginei) que Dirigir era muito difícil porque quando você vira o volante para um lado o carro vira, traiçoeiramente, para o outro. Isso para não mencionar a impensável coordenação necessária para apertar-se os pedais certos na hora certa e na ordem certa, empurrar o câmbio na direção certa, na hora certa e na ordem certa, virar a direção, especialmente esta na direção certa e na hora certa, olhar o tempo todo para a frente e ao mesmo tempo patrulhar oniscientemente os espelhos retrovisores – lembrando ainda de usar mãos, pés e olhos na hora certa, na direção certa e na operação certa (pelo menos naquela época não era preciso falar ao mesmo tempo no celular, e pensando bem talvez seja por isso que até hoje não tenho um). Era necessário um semideus para dominar a coisa toda. continue lendo >