Manuscritos estocados em Junho do Anno 2005 de Nosso Senhor
30 de Junho de 2005

Atração principal

Família

Segunda-feira estávamos almoçando na casa dos meus pais quando um operador ligou tentando televender um colchão magnético. Quando perguntamos à minha mãe, que atendeu, como ela fez para dispensar o cara, ela respondeu:

– Se com um normal o seu pai já não quer sair da cama, imagine se o colchão for magnético…


29 de Junho de 2005

A graça de Diogo Mainardi

Fé e Crença, Sociedade

Diogo Mainardi já confessou saber-se e sentir-se um romancista frustrado, e há algo de admirável nessa honestidade; não é fácil reconhecer que somos incapazes de ser aquilo que mais anseiávamos nos tornar. Para sobreviver e manter-se honesto consigo mesmo, Mainardi assumiu uma curiosa postura pessoal. Do alto (ou do fundo) de sua experiência em primeira mão com a mediocridade, resolveu usar sua amargura do único modo construtivo que parece conhecer: atacando, da forma mais cáustica e ferina, a mediocridade dos outros.

Se você for como todos, todos o ignorarão; se você for detestável, pelo menos alguns o amarão.

Mainardi pode não ter se tornado o escritor que almejava, mas alcançou a notoriedade ruminando e colocando em prática uma antiga lição da arte da retórica: se você for como todos, todos o ignorarão; se você for detestável, pelo menos alguns o amarão. Tudo o que ele faz e sente que tem de fazer é disparar dardos inflamados contra tudo que é medíocre no mundo, que é o Brasil. Não faltam, naturalmente, alvos: o presidente, a política econômica, o cinema brasileiro, a cidade de Cuiabá; não escapa nem mesmo o alvo especialmente fácil que é o próprio Diogo Mainardi. A mediocridade é na verdade tão universal que Mainardi pode falar sobre qualquer um ou qualquer coisa, desde que lembre-se de falar mal daquilo que está falando. continue lendo >

28 de Junho de 2005

João Batista

Ilustração

Maior aqui, detalhe aqui.

27 de Junho de 2005

Aprendendo a dirigir, parte 1

Família, Manuscritos

Eu tinha 18 anos quando entrei pela primeira vez no velho Gol de uma auto-escola em Bauru. Meu instrutor, um sujeito de meia-idade com um rosto ao mesmo tempo cansado, entediado e compassivo, perguntou Você sabe dirigir e respondi Não. Era verdade. O homem ligou o carro num suspiro silencioso que parecia expressar A gente encontra cada tipo.

Descobri apenas mais tarde que eu havia sido mantido vivo artificialmente numa bolha antropológica e automobilística, e que qualquer menino que se preze sabe dirigir e/ou manobrar desde os dez anos de idade (alguns, como o Arthur, desde muito antes).

Tenho em minha defesa que, por alguma razão, desde cedo uma enorme quantidade de desinformação sobre o assunto havia sido despejada sobre mim. Eu deveria ter uns quatro anos de idade quando algum espertalhão me informou (ou, possivelmente, imaginei) que Dirigir era muito difícil porque quando você vira o volante para um lado o carro vira, traiçoeiramente, para o outro. Isso para não mencionar a impensável coordenação necessária para apertar-se os pedais certos na hora certa e na ordem certa, empurrar o câmbio na direção certa, na hora certa e na ordem certa, virar a direção, especialmente esta na direção certa e na hora certa, olhar o tempo todo para a frente e ao mesmo tempo patrulhar oniscientemente os espelhos retrovisores – lembrando ainda de usar mãos, pés e olhos na hora certa, na direção certa e na operação certa (pelo menos naquela época não era preciso falar ao mesmo tempo no celular, e pensando bem talvez seja por isso que até hoje não tenho um). Era necessário um semideus para dominar a coisa toda. continue lendo >

26 de Junho de 2005

O pensador

Fotografia

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