Manuscritos estocados em Maio do Anno 2005 de Nosso Senhor
19 de Maio de 2005

As duas virtudes que abandonei

Fé e Crença

Outro dia recebi um email da Rosicler, de resto muito amigável, em que ela dá a entender que sou, de alguma forma e de uns tempos para cá, um “novo Paulo” – não exatamente aquele do qual ela se recorda. A Rosi não chega a dizer que isso é uma coisa negativa, mas achei significativo porque ela não é a primeira pessoa a sugerir a mesma coisa.

É um comentário inquietante de se ouvir porque sinto-me, basicamente, o mesmo. Os temas que povoam a Bacia me assombram, em maior ou menor grau, desde que tenho dez ou doze anos de idade – indicação de que, do meu ponto de vista privilegiado, de dentro, pouca coisa mudou.

Porém quando pressionado dessa forma consigo ver que, sim, para os outros, alguma coisa deve ter necessariamente mudado no que se esperava de mim e em mim.

A resposta mais curta que posso fornecer aos perplexos é que, dentro de um processo iniciado há mais ou menos quinze anos, abandonei duas virtudes que eu antes considerava de importância fundamental. A ausência dessas virtudes é, com toda a probabilidade, a mudança que os outros enxergam em mim.

Tenho de confessar que essas virtudes pareciam, a mim também, parte essencial do que sou. Eu lutava com todas as forças para exprimi-las de todas as formas. Por isso, de certo modo, não é de estranhar que sem elas eu pareça para os outros definitivamente outro – o Novo Paulo, para eles não necessariamente superior ao Velho.

Sobre o processo que desencadeou essa mudança posso explicar pouco. É fundamental, no entanto, que eu diga que nesses dez últimos anos estudei o Novo Testamento mais apaixonadamente do que jamais havia feito. Minha admiração pelo conteúdo da mensagem do evangelho é hoje muito pessoal e muito mais intensa. Há também, é claro, pessoas-chave que serviram de poderosos gatilhos de auto-conhecimento – especialmente o Néviton, a Olívia Garcia, o Ivan. Todos esses, no entanto, ajudaram-me apenas na medida em que apontaram para a mesma fonte e para o mesmo Mestre.

Se abandonei definitivamente algumas virtudes é porque fui convencido pelas palavras, pelo exemplo e pelos seguidores de Jesus de que essas atitudes em particular não eram realmente virtudes, mas vícios – falhas de caráter que eu teria de abandonar para o meu próprio bem e do meu próximo.

A primeira virtude falha de caráter que abandonei foi minha obsessão em agradar os outos.

Os outros sempre me interessaram mais do que a mim mesmo. Desde que me conheço por gente e no processo fundamental de definir o que sou, decidi que viveria para os outros, muito mais do que para mim. Ou: descobri e decidi que eu só faria sentido diante de mim mesmo na minha relação com os outros – especialmente por eles. Alguém que não tivesse paixão pelos outros, percebi, não seria eu.

Minha decisão não mudou, é claro, por isso não é correto dizer que mudei. Meu erro fundamental foi crer que para amar os outros eu deveria lutar pela aprovação deles e que para ajudá-los eu deveria agradá-los – o que fiz, como se sabe, com toda a diligência.

Hoje me parece muito evidente que amar as pessoas não é o mesmo que agradá-las ou ganhar a aprovação delas, mas sou um sujeito teimoso. Foi necessário um processo de quase duas décadas para que eu me convencesse do contrário – processo durante o qual lutei teimosamente contra a evidência da vida e das Escrituras.

Hoje o contrário é que me parece evidente. É claro, vejo agora, que o modo mais desonesto de amar as pessoas é agir deliberadamente de modo a ganhar a apovação delas. É evidente que a forma mais certeira de não ajudar uma pessoa é dizer aquilo que ela quer ouvir.

Como permaneço eu mesmo, não me arrependo de forma alguma de todo o tempo, recursos e dinheiro que gastei no serviço dos outros. Não me arrependo da companhia, da comunhão, das esmolas, dos favores, dos empréstimos, dos abraços, dos passeios. Eu faria tudo novamente, e muitas vezes. Faria muito mais e de forma mais radical – e espero de fato fazer.

Arrependo-me profundamente, sim, de ter feito essas coisas acreditando que as outras pessoas estavam sendo beneficiadas pela magnanimidade dos meus esforços. Arrependo-me de ter acreditado que para os outros o mero fato de gostarem de mim tornava-os automaticamente pessoas melhores. Arrependo-me de ter dito o que as pessoas queriam ouvir quando o que poderia salvá-las era a verdade da qual elas prefeririam fugir. Arrependo-me de não ter amado como convém.

Abandonei a virtude/obsessão de agradar os outros porque fui finalmente forçado a engolir a terrível sentença de Jesus em Lucas 6:26: “Ai de vocês quando todos falarem bem de vocês, porque os seus antepassados tratavam os falsos profetas da mesma forma”.

Os falsos profetas, naturalmente, fazem com que você se sinta bem. Eles dizem o que você quer ouvir por que querem te conquistar a todo custo – até mesmo ao custo da verdade.

Minha paixão pelos outros apenas aumenta, mas não tenho qualquer ambição de profeta – especialmente de falso.

Leia também:
A segunda virtude que abandonei

18 de Maio de 2005

Intimidade e alienação

Goiabas Roubadas, Homens e Mulheres

Depois de uma dúzia – ou várias dúzias – desses diálogos unilaterais nós desistíamos de derramar nossa substância num poço seco. Perdíamos a fé num dos nossos mais preciosos recursos femininos. Os homens consertam as coisas com suas mentes, as mulheres resolvem problemas expondo os seus sentimentos, usando a fala como instrumento. Para nós conversar é intimidade, silêncio é alienação. Mantendo-se em silêncio [os homens] criam que estavam mantendo o status quo, enquanto nós sentíamos que eles o estavam destruindo.

Ann Arensberg, Incubus

17 de Maio de 2005

Jurassic Park

Fotografia

Conforme prometi, quinta-feira passada caminhei de câmera na mão para registrar a estrada que menciono aqui.


O calango que me saudou no começo da jornada, logo depois do portão do Seu Nereu.


O portão que leva ao Jurassic Park, que normalmente está fechado e com a placa NÃO ENTRE. Foi daqui que eu, o Marcelo e a Paula vimos a onça com a ajuda do binóculo do vô.


Uma vista geral do Jurassic Park. Não me pergunte que tipo de animal eles planejam soltar aí dentro – se é que já não estão à solta. Dentro daquela construção à esquerda (a única que estava em pé na época) é que a onça rondava inquietamente os seus gradis.


Outra vista do Parque.


Mais outra, com o Anhangava ao fundo.


O morro do Anhangava, que já subi duas vezes. Acredite ou não, faz frio lá em cima, mesmo no verão.


Um bicho morto na estrada, com sua varejeira.


Uma vista panorâmica da Serra do Mar como vista do caminho, costurada à mão no Photoshop. Não faz justiça à coisa em si, e o foco automático não ajuda.


Outro trecho de Serra, aqui quase chegando de volta ao Monastério.


Uma visão final do portão aberto do Parque, por onde os velociraptores podem sair correndo à qualquer momento.

16 de Maio de 2005

O Gerente Dissoluto, parte 1

Manuscritos

O Fausto era membro daquela estranha casta corporativa que no dia-a-dia convive apenas com subordinados, nunca com superiores. Talvez tenha sido por isso que ninguém ousou perguntar quando ele apareceu de manhã no trabalho com uma mancha de terra preta na testa e outra no joelho da calça do terno.

Alongava-se a manhã, o Fausto chamava as pessoas à mesa e distribuía tarefas – e foi ficando claro que por si mesmo, sem um alerta de alguém, ele não se tocaria de limpar nem o rosto nem o joelho. Eram dez e meia da manhã quando o Vasquez e o Romero, numa rápida conferência ao redor da mesa do Perez (que preferiu se abster), decidiram pedir à Susi, que era oficialmente a assistente do Fausto, que alertasse de uma vez o chefe daquele constrangimento. “Logo o Fausto”, argumentaram eles, e não precisaram dizer mais nada – todo mundo sabia que o Fausto andava impecável, usava sapatos de marcas que paga-se até para mencionar e refazia a barba no horário do almoço para manter a compostura. O Fausto era elegante e bonito – o tipo de cara que merece de ambos os sexos, por motivos diferentes, o carimbo de “distinto”. Não era justo deixar ele naquela situação.

Algumas liberdades, no entanto, a Susi (que era casada) deixou claro que jamais tomaria com o Fausto. Mas ela disse que ficassem tranqüilos, que ela daria um jeito. Num encontro breve e dramático na máquina de xerox ela transferiu a grave incumbência ao Edwin, o estágiario, que por sua vez saiu da sala para delegá-la à Nancí, a tia do café. continue lendo >

 

Este documento faz parte da série

O Gerente Dissoluto

  1. O Gerente Dissoluto, parte 1
  2. O Gerente Dissoluto, parte 2
15 de Maio de 2005

A pessoa que assume

Pormenor

Numa crise doméstica grave há sempre (1) a pessoa que assume – aquela que toma a situação sobre os ombros, explica o que deve ser feito, distribui tarefas, faz os telefonemas e coloca em movimento o que precisa ser colocado. Há, por outro lado, (2) a pessoa que ajuda a pessoa que assume.

Historicamente, sempre fui (2) a pessoa que ajuda a pessoa que assume.

Toda espécie de liderança me deixa perplexo, especialmente a minha própria. Minha tendência natural, ainda maior do que questionar a liderança, é fugir dela.