Outro dia fiquei de entregar uma ilustração na “primeira hora” do dia seguinte e fiquei pensando nas implicações da expressão.
Em geral a primeira hora é, felizmente, bastante flexível. Numa agência de propaganda, sei por experiência própria, combinar a coisa para a primeira hora equivale a dizer (a não ser quando especificado de outra forma, o que acontece raramente) “depois das nove da manhã”. Sendo antes das dez creio que é considerado ainda primeira hora.
Outros ambientes podem não ser tão tolerantes, mas creio que para todos apelar para a primeira hora é um jeito de evitar a indelicadeza de lembrar a outra pessoa (e especialmente nós mesmos) que teremos os dois de acordar às seis da manhã no dia seguinte para estarmos às oito onde deveríamos estar. Um eufemismo corporativo, que para os mais desavisados poderia significar “apareça aí depois que você acordar”, mas que está na verdade mais para “amanhã cedo na minha mesa” ou “o que você faz da meia-noite às seis?”
A primeira hora é de certa forma a pior hora de todas e, é claro, especialmente na segunda-feira. A primeira hora da segunda-feira é implacável, e apóio de coração aqueles que propõem que ela deveria ser eliminada de todo.
Especialmente quando você chega no trabalho e tem alguém em pé esperando por você na recepção. Com uma pasta.
Como tanta coisa fica marcada para a primeira hora, creio que todos concordamos que talvez fosse pertinente que a Diretoria lançasse uma campanha interna para que encontros importantes começassem a ser marcados para a última hora. Da sexta-feira, naturalmente.
Você passaria a ouvir (se é que já não ouve) coisas do tipo:
– Não esqueça que o gerente quer conversar com você na última hora.
Só por precaução, não abra hoje nenhum memorando suspeito.
Deixe para a última hora.
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