Manuscritos estocados em Março do Anno 2005 de Nosso Senhor
27 de Março de 2005

O momento

Fé e Crença

A Páscoa é, evidentemente, idéia mais momentosa e alucinante do que o Natal. Ninguém pode nos ensinar a nascer, mas Jesus pode me ensinar a morrer, o que, neste mundo que prefere ignorar até mesmo a sua incapacidade de lidar com a última certeza, talvez seja o ensino mais útil de todos.

Bastaria na verdade saber como morrer para viver em “novidade de vida”, mas a Páscoa me toma pela mão e me faz percorrer terreno ainda mais improvável e sublime: obriga-me a contemplar a possibilidade mais improvável e a reviravolta mais desejada de todas: a ressurreição. Nenhum final é suficientemente trágico enquanto estamos vivos, porque se vemos e choramos diante de Romeu e Julieta mortos no palco, sabemos que nós mesmos estamos ainda vivos. Mas quando os atores levantam-se para receber os aplausos, algo estranho e sublime acontece. Talvez, passa pela nossa cabeça, alguém seja capaz de segurar a espada da morte e voltar depois que as cortinas caem para receber os aplausos. A bondade de Shakespeare mantém Romeu e Julieta vivos e de certa forma eternos – e, por vias sempre misteriosas, a encenação repetida da mesma tragédia transforma-os num estranho emblema de esperança. Talvez nenhum veneno seja plenamente eficaz; talvez uma bondade extrema faça a adaga perder para sempre o seu fio.

É a respeito desse improvável momento que Tolkien diz:

Pois essa história em particular é suprema – e é verdadeira. A Arte foi comprovada. Deus é Senhor de anjos, homens e elfos. Lenda e História encontraram-se e fundiram-se.

A morte pode não ser a última a sorrir.

27 de Março de 2005

A coisa mais rara de todas

Ilustração, Pense comigo

Quando postei esta imagem (veja um detalhe aqui) no Painter Forum de www.indeptharts.org Jeff Wong perguntou se eu achava que Michael Jackson era completamente inocente, e se eu via o julgamento como uma armação dos acusadores para conseguir o dinheiro dele.

Minha resposta: completamente inocente ninguém é. A inocência é coisa ainda mais rara que a justiça.

26 de Março de 2005

Fé e Crença

Fé e Crença, Goiabas Roubadas

Jacques Ellul

Toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião.

De um único verbo, crer, originam-se dois substantivos que representam ações radicalmente opostas: crença e fé. Porém quando quero usar uma forma verbal para expressar a minha fé tenho ainda de usar crer, a não ser que escolha uma fórmula ainda pior, ter fé.

A crença provê respostas a nossas perguntas, a fé nunca o faz. Cremos para encontrar segurança, solução, uma resposta para os nossos questionamentos. As pessoas crêem para desenvolverem para si um sistema de crenças. A fé (a fé bíblica) é completamente diferente. O propósito da revelação é fazer com que ouçamos as perguntas, e não suprir-nos com explicações.

A fé é, em primeira instância, ouvir, como Barth tão freqüentemente nos faz lembrar. A crença fala e fala, atola-se em palavras, interpola os deuses, toma a iniciativa. A fé requer um posicionamento inteiramente oposto: a fé espera, permanece atenta, colhe sinais, sabe o que fazer das parábolas mais delicadas; ela ouve pacientemente o silêncio até que o silêncio seja preenchido pelo que ela toma sendo a inquestionável palavra de Deus, palavra da qual se apropria.

A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida.

A fé isola o indivíduo; a crença, (qualquer que seja, inclusive a cristã) ajunta pessoas. Na crença nos vemos unidos a outros na mesma corrente institucional, todos orientados em direção ao mesmo objeto de crença, compartilhando das mesmas idéias, seguindo os mesmos rituais, arrolados na mesma organização, quer seja religiosa ou social, falando o mesmo dialeto. A crença age como apaziguadora na sociedade, ela é a chave para o consenso que buscamos, o definitivo e há muito proclamado como necessário elemento essencial da vida comunal. A fé sempre trabalha de maneira exatamente oposta. A fé individualiza; ela é sempre e exclusivamente uma questão pessoal. Fé é o relacionamento pessoal com um Deus que se revela como uma pessoa. Esse Deus singulariza a pessoa, coloca-a à parte, e confere a cada pessoa uma identidade que não é comparável à de nenhuma outra. A pessoa que ouve a palavra de Deus é a única a ouvi-la; neste ato ela está separada das outras pessoas, e nele ela torna-se única – simplesmente porque o elo que liga esse indivíduo a Deus é único, exclusivo e inviolável. Trata-se de um relacionamento singular com um Deus único e absolutamente incomparável.

Deus particulariza, singulariza a pessoa a quem ele diz “eu te chamo pelo teu nome” (Isaías 45.4). A fé separa cada pessoa das demais e faz única cada uma delas. Na Bíblia a palavra santo significa separado, à parte. Ser santo é ser separado de todos os outros, é ser único em razão da tarefa que não pode ser desempenhada por nenhuma outra pessoa, tarefa que se recebe pela fé.

Os crentes encontram encorajamento e certeza na presença de outros, e têm o seu vazio existencial preenchido pela vida comunitária.

A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida. A fé não é o oposto da dúvida, a crença é. Os soldados da crença agem sem questionamento de acordo com a lei e os mandamentos. São inflexíveis nas suas convicções, não toleram a qualquer desvio. Na articulação de sua crença eles imprimem rigor e absolutismo ao extremo. Refinam incessantemente a expressão da sua crença e buscam dar a ela uma formulação intelectual específica num sistema tão coerente e completo quanto possível. Insistem na completa ortodoxia. Codificam rigidamente modos de pensar e de agir. Isso leva a um elevado grau de eficiência; o crente é uma pessoa que faz o que precisa ser feito, mas toda a sua atividade é, no fundo, vazia. Os crentes tem uma realidade própria tão pequena que só são capazes de viver e expressar essa realidade dentro de uma unidade convencionalmente estabelecida. São gente de ajuntamentos. Os crentes encontram encorajamento e certeza na presença de outros, dependem da certeza de que esses outros realmente acreditam, e assim têm o seu vazio existencial preenchido pela vida comunitária. Multiplicar o número de liturgias, compromissos e atividades dá aos crentes a completa satisfação; rodeados por isso tudo eles não tem necessidade de questionar a verdade ou realidade da sua própria crença: a atividade os mantém ocupados.

25 de Março de 2005

Oh

Pormenor

Oh, fronte ensanguentada,
Em tanto opróbrio e dor,
De espinhos coroada
Com ódio e com furor.
Tão gloriosa outrora,
Tão bela e tão viril!
Tão abatida agora
De afronta e escárnio vil.

25 de Março de 2005

Date To Save

Fé e Crença

“Oi, meu nome é Tamara! Você já deve ter adivinhado que sou uma mulher cristã que ama Jesus Cristo e se preocupa com todos os seres humanos, até mesmo os iníquos. O que você provavelmente não sabe é que eu sou uma gostosa. Minha foto aí embaixo nem é tão boa.”

Esse sáite Datetosave.com (Namorar Para Salvar) aparentemente convida as jovens cristãs (as bonitas) a “oferecerem os seus corpos em sacrifício vivo (Romanos 12:1)” , namorando “gatinhos pagãos” para salvá-los “dos fogos ardentes do inferno”.

“Obrigado Jeff, pelos desenhos e por organizar a loja do sáite. Jeff foi meu terceiro namoro missionário. Eu não o amo mais, mas Jesus ainda ama.”

Algumas das 10 dicas do namoro missionário:

1. Se ele disser que você é gostosa…
Diga que foi Deus quem fez você gostosa.

2. Se ele quiser pegar na sua mão…
Dê a ele uma Bíblia.

4. Se ele quiser pagar o jantar…
Lembre-o que Jesus também pagou uma dívida que não precisava ter pago.

5. Se ele colocar o braço no seu ombro…
Diga que ninguém jamais estará mais perto de você que Jesus.

6. Se ele tentar beijá-la…
Lembre-o de que um beijo matou o Salvador.

7. Se ele pedir para você entrar na casa dele…
Pergunte se ele convidou Jesus a entrar no seu coração.

8. Se ele disser que ama você…
Diga que Jesus o ama.

10. Depois de dar o fora nele…
Diga que Jesus nunca irá deixá-lo ou abandoná-lo.

www.datetosave.com

O saíte é, evidentemente, uma brincadeira, mas o curioso (e isso acho o menos engraçado) é que poderia não ser. É especialmente revelador que os cristãos que postam no fórum do sáite são em geral ingênuos o bastante para permanecerem na dúvida. Os não-cristãos que permanecem na dúvida são os que nos conhecem o bastante para conhecerem a nossa ingenuidade.