Manuscritos estocados em Fevereiro do Anno 2005 de Nosso Senhor
17 de Fevereiro de 2005

Observação

Família

O velho Arthur mostrou desde muito cedo a improvável qualidade de interessar-se pelo que os outros estão fazendo. Ele tinha pouco mais de um ano quando efetivamente ajudou o Hélio a lavar o meu Corsa pela primeira vez, e não muito antes ou depois já procurava na caixa de ferramentas uma chave de fenda para ajudar os tios dele a desparafusar uma placa de carro.

Ele também demonstra que acha tremendamente importante fazer as coisas sozinho – isto é, sem a ajuda de ninguém. “Deixa que o Arthur faz”, “não, não ajuda o Arthur” e “fica aí paradinho (isto é, longe o bastante para que eu possa tentar sozinho)” são frases que o Hélio e a Karline ouvem desde impossivelmente cedo.

Acho que fico particularmente admirado com essas ousadias porque quando eu tinha a idade dele (e até muito, muito mais tarde) faltava-me qualquer iniciativa. Qualquer.

Mas onde eu queria chegar.

Ah, sim. Outro dia, contou-me a Dona Hulda (vó do Arthur), ele ofereceu-se a ajudá-la a fazer o almoço. É ele quem traz as vasilhas de plástico, leva os legumes para a pia, esse tipo de coisa.

Pois enquanto a Dona Hulda colocava o avental para começar a trabalhar ele parou a fim de observar, muito compenetrado.

– A vovó usa babador que nem o Arthur – ele observou.

16 de Fevereiro de 2005

Invasão

Fé e Crença, Sociedade

Estávamos discutindo, num fóro norte-americano, a controversa proposta do Departamento de Educação do estado da Georgia de banir a palavra “evolução” do currículo escolar, a fim de aliviar a pressão que os professores recebem de pais religiosos.

A superintendente Kathy Cox explicou que o conceito de evolução continuaria a ser ensinado, mas que a palavra proibida deixaria de ser mencionada. Substituindo “evolução” pela expressão politicamente correta “mudanças biológicas ao longo do tempo”, o Departamento esperava que a questão deixasse de ferir as sensibilidades mais conservadoras.

Pois é, aquele tópico de discussão deixou meus amigos americanos profundamente divididos. De um lado os liberais (na sua maior parte não religiosos) enfatizaram o absurdo que era trocar-se seis por meia-dúzia e por um motivo tão mesquinho; do outro, os conservadores (na sua maior parte cristãos evangélicos), alegaram que a discussão era em si mesma preconceituosa e que os liberais estavam polarizados em rotular os conservadores de estúpidos, incultos e retrógrados.

Lá pelo meio da discussão um liberal entrou batendo o pé.

É, esse tipo de pensamento não me assusta mais porque se um desses nazistas [referindo-se aos cristãos conservadores] entrar aqui na minha casa vai sair é numa mortalha.

E não venha com essa lenga-lenga religiosa para o meu lado, não importa de que cor ou matiz você seja, ou de que religião estejamos falando. Odeio todos eles do mesmo jeito que me odeiam por não me curvar à agenda egoistinha deles [...].

Só acho que sou mais capaz de proteger meus direitos humanos no trabuco do que o governo com o blá-blá-blá deles, mas o ódio dos dois lados é tamanho que gente como eu, que fica no meio, acaba sendo usada com o escudo humano em discussões políticas.

Entre divertido e chocado com a posição do sujeito, respondi assim:

Fulano, cuidado com o Lado Negro. Ira, medo, agressão, o lado negro da Força eles são. Fluem com facilidade, e rápido juntam-se a você numa batalha. Se trilhar o caminho negro, para sempre ele irá dominar o seu destino, consumi-lo ele irá.

Mortalhas e trabucos são propriedade histórica de gente religiosa, não de livres-pensadores. Favor não invadir o nosso território.

15 de Fevereiro de 2005

BRABO desenhando: Bebê do mal

Ilustração

Um bebê vagamente do mal, vagamente baseado no Spanky (o original) da jurássica série de TV “Os Batutinhas” (The Little Rascals).

Para me ver desenhando o moleque, veja o filme:

badbadbaby.mov

(a visualização requer o Quicktime Player)

14 de Fevereiro de 2005

Deixa queimar

Goiabas Roubadas

TÉODOTO (apressando-se pelo corredor entre eles). O fogo espalhou-se dos seus navios. A primeira das sete maravilhas do mundo arruína-se. A biblioteca de Alexandria está em chamas.

CÉSAR. É só isso?

TÉODOTO (incapaz de crer no que está ouvindo) Só isso! César, você quer entrar para a posteridade como um soldado bárbaro ignorante do valor dos livros?

CÉSAR. Teódoto, eu mesmo sou escritor, e posso lhe dizer que é melhor para os egípcios viver as suas próprias vidas do que meramente sonhá-las com a ajuda de livros.

TEÓDOTO (ajoelhando-se, com uma genuína emoção literária: a paixão do pedante). César, apenas uma vez a cada dez gerações de homens o mundo ganha um livro imortal. Sem a história, a morte irá relegar o próprio César ao nível do mais simples soldado.

CÉSAR. A morte virá de qualquer forma. Não peço túmulo melhor.

TEÓDOTO. O que está queimando ali é a memória da humanidade.

CÉSAR. É uma memória vergonhosa. Deixe que queime.

Da peça César, do assustadoramente lúcido Bernard Shaw. Ato II, cena 5.

THEODOTUS (rushing down the hall between them). The fire has spread from your ships. The first of the seven wonders of the world perishes. The library of Alexandria is in flames.

CAESAR. Is that all?

THEODOTUS (unable to believe his senses). All! Caesar: will you go down to posterity as a barbarous soldier too ignorant to know the value of books?

CAESAR. Theodotus: I am an author myself; and I tell you it is better that the Egyptians should live their lives than dream them away with the help of books.

THEODOTUS (kneeling, with genuine literary emotion: the passion of the pedant). Caesar: once in ten generations of men, the world gains an immortal book [...] Without history, death would lay you beside your meanest soldier.

CAESAR. Death will do that in any case. I ask no better grave.

THEODOTUS. What is burning there is the memory of mankind.

CAESAR. A shameful memory. Let it burn.

13 de Fevereiro de 2005

Brabo Fashion

Ilustração

Abri o infame CorelDRAW e fui puxando um nó atrás do outro até transformar esse desenho a caneta nesta ilustração vetorial. continue lendo >