Manuscritos estocados em Fevereiro do Anno 2005 de Nosso Senhor
23 de Fevereiro de 2005

A mão do Jocivan

Pormenor

Contou-nos o Jocivan que um dia desses teve de ir ao Hospital Angelina Caron para tomar uma injeção, dessas que são injetadas numa veia da mão. Ele esperava sentado numa mesinha de exame quando uma enfermeira que ele nunca tinha visto antes entrou de repente na sala e tomou imediatamente a mão dele nas suas.

– Mas que mão bonita! – ela disse, e repetiu a sua convicção várias vezes e de várias formas, muito efusivamente, enquanto acariciava a mão do homem sem qualquer constrangimento.

A mão do Jocivan é realmente bonita, uma mão distinta, mão de homem que trabalha, muito queimada de sol, mas admirável mesmo achei ser essa dona que soube expressar sem qualquer constrangimento a sua admiração por algo tão (se é que posso usar a palavra para qualificar a mão do Jocivan ou de quem quer que seja) comum.

Olhai os lírios do campo, Jesus convidava, provocando-nos a enxergar a beleza no que é rasteiramente comum. Ele sabia dizer que um mundo mais equilibrado e mais são requereria menos lírios e mãos bonitas do que gente capaz de apreciá-los.

22 de Fevereiro de 2005

O Mundo Perdido, parte 2

Fotografia, Nostalgia

Como já deve ter ficado muito claro na parte 1, nada me interessa mais na viagem do que desenterrar da paisagem prédios, objetos e gestos devidamente não-contemporâneos, artigos esquecidos de um tempo mais são.

Aqui você vê fotos do trajeto que fizemos entre as cidadezinhas Luiz Alves e Pomerode, incluindo um longo desvio pelo vilarejo de Rio dos Cedros. Essas marcas sólidas do passado sobrevivendo num insubstancial mundo contemporâneo trouxeram-me à mente (inevitavelmente) os sentimentos de Tolkien, que escreveu ao filho depois de uma visita que fez à sua cidade natal durante a Segunda Guerra:

Exceto por um desmoronamento medonho [a cidade] não parece muito danificada: não pelo inimigo. O dano principal foi causado pelo crescimento de insípidos edifícios modernos desprovidos de qualquer característica notável. continue lendo >

21 de Fevereiro de 2005

O abraço do amigo

Pormenor

Com um abraço fraternal (que pode ter sido o nosso primeiro) recebeu-me na rodoviária de Bauru meu querido colega de escola Paulo Henrique, de Redimido pela amizade. Fazia vinte e dois anos que não nos víamos.

Embora eu tenha voltado dessa visita trazendo muitas histórias e lembranças e fotografias, algumas das quais planejo dividir oportunamente, o que de fato aconteceu emoldurado entre esse abraço e o ainda mais longo e emocionado abraço de despedida que trocamos na noite do dia seguinte é espiritual, pessoal e sacrossanto demais para ser diminuído em palavras.

Quando começo a duvidar que o universo é, de algum modo que não posso compreender, um lugar essencialmente bom, um lampejo de lealdade brilha na noite mais escura. Depois que dei às costas àquele último abraço na rodoviária, o Paulo em pé ao lado do carro, a Ana apaziguando o Thiago e o Leonardo no banco de trás, não voltei-me novamente para dar aquele esperado último aceno, porque não queria que eles vissem que eu estava chorando.

Eu chorava, naturalmente, de gratidão. A visita de dois dias havia deixado abundamente claro o que eu no íntimo já intuía: o Paulo permanece absolutamente leal – não apenas à nossa amizade, mas ao seu caráter.

Nem tudo morre.

20 de Fevereiro de 2005

O Mundo Perdido, parte 1

Fotografia, Nostalgia

Querendo a todo custo passar um Carnaval desplugado, parti com Ivan, o Justo, para o interior de Santa Catarina. O céu nos sorriu e encontramos, entre uma pequena propriedade e outra, incontáveis relíquias de um mundo perdido.

Nesta primeira fornada você vê a minúscula e pitoresca cidade de Luiz Alves (que consta no mapa por ser a improvável sede da FENACA, a Feira Nacional da Cachaça) e algumas fotos tiradas em propriedades dos arredores. continue lendo >

19 de Fevereiro de 2005

O homem da faca

Brasil, Sociedade

Certa ocasião, quando o Marcelo Oliveira trabalhava ainda na ALL Comunicação, passei para entregar alguma ilustração perto do meio-dia e ele convidou-me para almoçar. O almoço era uma pizza que ele havia comprado e que deveríamos repartir numa daquelas mesas de concreto onde ninguém joga xadrez no Jardim Ambiental.

Assim que nos acomodamos numa das mesas da praça solitária e abrimos a caixa, descobrimos que, ao contrário do que o Marcelo havia encomendado, a pizza não tinha vindo fatiada.

– Eu forneci a pizza – o Marcelo sorriu. – Agora você consegue a faca.

O Jardim Ambiental é uma espécie de praça central que se estende por várias quadras de uma rua residencial de Curitiba. Escolhi uma casa próxima e bati a campainha. Um homem abriu logo metade da porta, a expressão no rosto de quem tinha inequivocamente tido o seu almoço interrompido. Pedi desculpas pelo incômodo e expliquei, de modo que deve ter soado inevitavelmente confuso e suspeito, que eu e o meu amigo tínhamos uma pizza mas estávamos precisando de uma faca para fatiá-la. Será que ele podia, não lembro exatamente.

O homem fez sinal que eu esperasse e desapareceu por uns instantes na casa escura e soando a bater de talheres, mas deixou a porta entreaberta. Ele voltou trazendo uma faca e um garfo, andou até o gradil, abriu desnecessariamente o portão e entregou-me o garfo primeiro. Antes de passar-me a faca o homem virou-a para segurá-la pelo fio, de modo que eu pudesse pegá-la pelo cabo, no gesto tradicional para “não considero você uma ameaça”.

Hesitei um instante com o cabo da faca na mão, muito incerto de ter sido digno daquela civilidade, depois agradeci e voltei para a mesa.

Comemos debaixo da sombra das árvores e conversamos sobre Tolkien, Lovecraft e outras coisas admiráveis.

Limpei os talheres o melhor que pude e bati na casa novamente. O mesmo homem veio rapidamente atender, e devolvi por uma fresta do gradil o garfo e a faca, tomando o cuidado de fazer como ele havia feito.