05 de Julho de 2004

Uma forma superior de matar

Auditado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas, História

Cabe ao judeu alemão Fritz Haber, ganhador do prêmio Nobel pela descoberta da amônia e um dos maiores químicos do século XX, o perturbador título de pioneiro da guerra química. No início daquele século o uso de armas que viriam a ser chamadas “de destruição em massa” foi pela primeira vez tornado tecnicamente viável – embora fosse controverso e violasse descaradamente as Convenções de Haia de 1899 e 1907. Quem conta é John Cornwell, em seu Os Cientistas de Hitler.

Às 5 da tarde de 22 de abril de 1915, Haber e sua tropa de gás, conhecida como Pionierkommando 36, achavam-se entrincheirados ao longo de uma frente de seis quilômetros em Ypres, diante de territoriais franceses e de uma divisão argelina do Exército francês. Seus cientistas estavam carregados de 5.370 cilindros, cada um pesando 100 quilos, de gás cloro em forma líquida.

Ele alegou que a nova tecnologia em armas tinha o poder de salvar vidas, pois podia assegurar uma rápida vitória.

Quando veio a hora de atacar, os operadores – usando máscaras protetoras – abriram as válvulas e liberaram todo o contéudo em dez minutos. Um espetacular lençol, com cerca de 1,5m de altura, de denso gás verde-amarelado deslocou-se sobre a terra de ninguém, levado por um vento que soprava para o oeste, até as trincheiras aliadas. Os soldados que não foram sufocados deixaram as trincheiras e fugiram, abandonando cinqüenta canhões. A infantaria alemã então atravessou a terra de ninguém e tomou as trincheiras aliadas.

Franz Haber, então professor na Universidade de Berlim e diretor do Instituto Kaiser Gulherme de Físico-Química, fora o pioneiro do gás venenoso, quebrando de forma atroz as normas aceitáveis da guerra no início do século XX. Ele alegou, a exemplo do que fariam outros pioneiros do gás, como o físico britânico J, B. S. Haldane, que a nova tecnologia em armas tinha o poder de salvar vidas, pois podia assegurar uma rápida vitória. Haber acreditava, ou pelo menos assim o disse, como Haldane, que a guerra com gás era “uma forma superior de matar” – que ser ferido por gás era melhor que ser feito em pedaços por uma granada convencional.

O cloro ataca as mucosas do nariz, da boca e da garganta, causando asfixia e cegueira.

O uso de armas químicas na Primeira Guerra foi o gatilho de uma sem precedentes escalada de violência. Uma vez que as normas da guerra foram violadas, o outro lado não viu porque continuar a submeter-se a elas. Até o final da Primeira Guerra ambos os lados haviam colocado em ação uma multidão de agentes químicos letais, especialmente gases venenosos – muitos deles mais eficazes do que o cloro.

A esposa de Haber, ela mesmo cientista e veementemente contrária ao uso da ciência para fins não-pacíficos, suicidou-se com um tiro no peito logo após a primeira experiência bem-sucedida do marido com o gás venenoso no campo de Ypres. Ela morreu nos braços do filho, que também se suicidaria mais tarde, e “na própria manhã em que ela morreu Haber deixou a casa e viajou atá frente oriental, para iniciar um ataque com gás contra os russos”.

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A Segunda Guerra, no entanto, estava por vir, e o gás venenoso se voltaria ainda mais letalmente contra os próprios alemães – especialmente os judeus como Haber.

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