08 de Novembro de 2004

Ricardo da Santa Trindade

Confiscado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença, Goiabas Roubadas, História

No ano 1187 do Verbo Encarnado, quando a Urbano III cabia o governo da Sé Apostólica e Frederico era imperador da Alemanha; quando Isaque reinava em Constantinopla, Felipe na França, Henrique na Inglaterra e Guilherme na Sicília, a mão do Senhor pesou duramente sobre aqueles do seu povo cuja impureza de vida e de conduta, e impiedade de vícios, haviam-nos alienado por completo do seu favor. Seria longa tarefa, e incompatível com nosso presente propósito, expor todas as cenas de sangue, de roubo e de adultério que os desgraçaram, pois esta minha obra é uma história de feitos heróicos, não um tratado moral; porém quando o antigo inimigo espalhou, longe e perto, o espírito da corrupção, ele tomou mais especificamente posse da terra da Síria, de modo que as outras nações encontravam agora um exemplo de contaminação da mesma fonte que anteriormente os havia suprido de elementos de religião.

Por essa causa, portanto, vendo o Senhor que a terra de seu nascimento e o palco da sua paixão haviam descido a tamanho abismo de decrepitude, tratou com desprezo sua herança e permitiu que Saladino, a vara de sua ira, levasse adiante a sua fúria para destruição desse povo de duro coração; pois ele preferiu que a Terra Santa estivesse, por um curto período, sujeita aos ritos profanos dos pagãos do que continuasse sob posse daqueles homens, nos quais nenhum respeito pelo que é certo era capaz de refrear da prática de coisas iníquas.

Quem tem inteligência considere quão ardente deve ter sido a ira de Deus, quão enorme a iniqüidade de seus servos.

O sultão [Saladino], movido por um lado por sua ambição, e por outro pela sua indignação diante do ultraje [a violação da trégua entre cristãos e muçulmanos por parte de Reginaldo, rei de Antioquia], levantou-se com todo o poderio do seu reino e assolou com poder e impetuosidade os territórios de Jerusalém. Se o número de homens, a variedade de nações e a diversidade de religiões fossem descritos por completo, como requer a lei da história, meu plano de brevidade seria interrompido pelos amplos detalhes dessa narrativa: partos, beduínos, árabes, medos, cordianos e egípcios, embora de territórios, religiões e denominações diferentes, levantaram-se todos à uma tendo em vista a destruição da Terra Santa.

O que mais posso dizer? Nem o plano da minha obra nem a imensidão da calamidade permitem-me encontrar lamentações adequadas para [a batalha em] todos os seus detalhes. Entretanto, para resumi-lo em poucas palavras, tantos foram mortos ali, tantos feridos, que a destruição do nosso povo gerou piedade até mesmo em nossos inimigos. A madeira vivificante da cruz de nossa salvação, na qual foi pendurado nosso Senhor e Redentor, e por cuja coluna fluiu o sagrado sangue de Cristo, sinal que é adorado por anjos, venerado por homens e temido por demônios, sob cuja proteção nossos homens têm sido sempre vitoriosos em batalha – ai de nós – jaz agora capturada pelo inimigo, e os dois portadores da cruz, o bispo de Acre e o zelador da tumba de Nosso Senhor (o bispo de S. Jorge) caíram com ela, um morto, o outro prisioneiro. Esta foi a segunda indignidade, desde Croeso, rei dos persas, que a santa cruz suportou por nossos pecados; ela, que redimiu-nos do jugo do antigo cativeiro, foi agora capturada de nós e maculada pelas mãos profanas dos incrédulos.

Quem tem inteligência considere quão ardente deve ter sido a ira de Deus, quão enorme a iniqüidade de seus servos, quando incrédulos foram tomados por menos indignos do que cristãos para serem seus guardiãos. Nada jamais aconteceu de tão lamentável em todos os tempos antigos; pois nem o cativeiro da arca de Deus nem aquele dos reis de Judá pode comparar-se com a calamidade do nosso próprio tempo, pelo qual rei e cruz gloriosa foram tomados cativos juntos.

De Ricardo da Santa Trindade, itinerário do Rei Ricardo I e de outros
rumo a Jerusalém (atribuído a Geoffrey de Vinsauf)

Leia também Americanos pela paz



Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
Lista de entrega

Clique aqui para receber o conteúdo da Bacia por e-mail