21 de Junho de 2004

Redimido pela amizade

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos, The Net

O momento em abandonei o território mítico e razoavelmente seguro da infância e cai no terreno não-mapeado da adolescência foi quando me mudei com meus pais de Londrina, no norte do Paraná, para Bauru, no interior de São Paulo, no início da década de 1980. O momento exato, a hora em que atravessei pela primeira vez sozinho o portão da E. E. P. S. G. Dr. Luiz Zuiaini, a cinco quadras do sobrado para o qual nos havíamos mudado.

O tio que cuidava do portão me devolveu carimbada a carterinha (que eu não sabia o que era, mas descobri mais tarde ser no estado de São Paulo um abrangente passaporte da vida escolar: ao mesmo tempo registro de presença, boletim e livro de ocorrências) e adentrei boquiaberto os corredores largos e apinhados e escadarias monolíticas que levavam a níveis superiores e perigos desconhecidos. Fiquei impressionado com a mera vastidão do prédio, mas foram as conversas que entreouvi entre os alunos que me deixaram apavorado.

Eu estava na quinta série, mas aquelas conversas eram tão absolutamente maduras – nada que se comparasse à sã algazarra infantil a que eu estava acostumado em Londrina. Os alunos avaliavam sensatamente o rompimento de um namoro que não havia dado certo, lembravam civilizadas visitas ao clube, zombavam gostos musicais, defendiam apaixonadamente bandeiras de times de futebol. Percebi que ostentar uma personalidade distinta era requerimento necessário para me relacionar com aquela gente e isso, eu sabia, eu não tinha como oferecer.

Fiquei quase feliz de não conhecer ninguém naquele primeiro dia, porque certamente não teria o que dizer ou sobre o que conversar. Franzino, desajeitado, miseravelmente tímido e piscando nervoso atrás de óculos fundo de garrafa, eu estava desarmado e o mundo era perigoso.

Meu suicídio social completou-se, naturalmente, quando minhas primeiras notas começaram a fluir. Eu sabia que estava sendo avaliado basicamente pelo talento que não demonstrava na arena dos esportes e da popularidade, mas não era tão irremediavelmente ruim ser meramente uma negação no futebol, como o Amauri. Como o pecado contra o Espírito Santo, era tirar apenas notas azuis que não tinha perdão.

Eu tentava me distrair da inadequação na escola buscando desvendar os outros mecanismos da cidade, mas falhava em descobrir qualquer horizonte promissor. Tudo em Bauru era para mim diferente ao ponto de parecer alienígina. As casas eram numeradas pela sua posição dentro de quadras que eram por sua vez numeradas: nosso sobrado ficava na Rua Pernambuco 8-40 – isto é, quadra 8, número 40. Dentro bem como fora da escola, o assunto da segunda-feira eram os eventos do Tênis Clube (do qual eu não chegaria a ser sócio) para o qual toda a população saudável da cidade se deslocava nos finais de semana. Tentei buscar refúgio na Biblioteca Municipal, que me pareceu brutalmente acanhada comparada à de Londrina, e não tinha os dois volumes das fábulas de La Fontaine ilustradas por Gustave Doré que eu gostava de folhear. Não havia ao redor da cidade os parques, rios ou montanhas onde meu pai costumava nos levar para passear. Quando chegamos, Bauru não tinha cinema e tinha uma única rádio FM. Não tinha nenhuma livraria. E eu não conhecia ninguém.

Nada se comparava, no entanto, ao desafio que eu tinha de enfrentar na escola. Não era, no final das contas, culpa dos meus colegas, e isso eu sabia mesmo naquela época. Apenas não se podia esperar que eles soubessem lidar com um cara como eu – irremediavelmente introvertido e analfabeto social, que assistia religiosamente O Clube do Mickey (e tinha sonhos comprometedores com a Kelly, a apresentadora loirinha), ouvia à exaustão os discos do Balão Mágico e passava as tardes lendo uma enciclopédia no sofá.

Para piorar as coisas, acabei me apaixonando perdidamente pela Kátia, da fila da parede, uma baixinha de cabelos longos e castanhos que me fazia lembrar a irresistível Paula Saldanha do Globinho. A Kátia, no entanto, só tinha olhos para os caras maduros da sétima série, e estava que eu soubesse arrastando as asinhas para o Sandro, que era alto, bonito e troncudo, tirava notas boas mas em compensação se dava bem nos esportes, era sócio do Tênis e tinha cabelo no peito.

Vale lembrar que eu não sentia hostilidade alguma da parte de nenhum desses, e eu basicamente os admirava. Eu daria tudo para poder ser aceito por eles: para não usar óculos, jogar bem futebol e nadar distraidamente na piscina do Tênis ostentando pernas que não fossem tão chocantemente brancas.

Foi então que, por alguma razão que até agora não consigo entender, o Paulo Henrique ficou meu amigo. O Paulo era, e na minha própria classe, uma versão ainda mais turbinada do Sandro da sétima série: tinha os olhos azuis e cabelos alourados do Homem de Seis Milhões de Dólares, pinta de Johnny Quest, tirava notas tecnicamente tão boas quanto as minhas e jogava futebol infinitamente melhor. Era gentil, sorridente, popular sem jamais ser arrogante, relacionava-se civilizadamente com a Kátia e dignou-se em ser meu amigo.

O destino colocou o Paulo Henrique na carteira de trás e ficamos logo companheirões – inseparáveis nos terrenos na escola. Com o Paulo como credencial, descobri que podia freqüentar com facilidade qualquer grupo, mesmo quando ele não estava comigo. Se o Paulo era meu amigo, as pessoas entendiam, eu não podia ser um fracasso tão completo quanto parecia. Logo eu estava fazendo amigos dentro e fora da classe. O encantou quebrou-se e acabei falando com a Kátia pela primeira vez. Pior: ficamos amigos, e se não chegamos a namorar ela me gravou a trilha sonora da novela Baila Comigo numa vermelhinha fita Hot Tape da BASF – e foi a primeira vez que pude ouvir quantas vezes quisesse os violinos e doces vocais da canção Time, do Alan Parsons Project. Ainda pior: fiquei amigo do Sandro, que nunca chegou a namorar a Kátia mas salvou a minha pele uma vez ou outra.

Foi com o Paulo Henrique que descobri que a amizade é um mistério divino que tem um tremendo poder redentor. Tive outros amigos depois, que me protegeram e me ajudaram a amadurecer e sobreviver, mas o primeiro amigo do mundo foi o Paulo Henrique. A amizade tranqüila dele me ensinou que a tolerância e o carinho podem unir, mesmo fora de um roteiro de Hollywood, as duplas mais improváveis – com resultados que para mim foram tremendamente compensadores. Meu amigo não exigiu de mim nenhuma personalidade criada artificialmente, e ele que eu saiba me ajudou a desenvolver e descobrir a minha própria. Não me rejeitou por não ostentar as credenciais socialmente aceitas, e me ajudou a adquirir as minhas.

O emblema da redenção social com o que o Paulo me agraciou aconteceu naquele que era para mim o pior momento de todos (a escolha dos times) na pior hora de todas (a aula de Educação Física). Eu sabia que eu e o Amauri éramos inevitavelmente os últimos a sermos escolhidos, mas isso não diminuía a agonia que era ser sumariamente rejeitado até o último instante. Eu sabia que devia entender que ninguém poderia querer no seu time um perna-de-pau incontestável como eu, mas aquele era um momento em que o mundo era um lugar difícil de se perdoar.

Chegou então o dia em que o Paulo Henrique foi designado para escolher um dos dois times e ele, aparentemente sem esforço algum, me escolheu. Senhoras e senhores, o homem me escolheu. A mim. O céu e a terra tomo hoje por testemunha, que o cara sem coisa alguma para oferecer, o caso perdido com nada para contribuir, foi escolhido graciosamente para constar numa equipe que não tinha como ajudar.

Devo ter afundado o time dele inúmeras vezes, mas o Paulo Henrique consistemente se suicidou pra me inserir na sua equipe antes impecável de futebol. Eu ficava na defesa, sem óculos, tentando discernir o entre o borrão da bola e uma canela ameaçadora disfarçada de kichute. Mas eu estava lá. Eu tinha sido escolhido.

Uma vez, só uma vez, o professor de Educação Física disse que eu e o Amauri escolhêssemos os times, e escolhi cerimoniosamente, antes de todos, o Paulo Henrique. Lembro do momento, o glorioso e silencioso momento daquele jogo em que o Paulo gritou o meu nome e saí correndo da defesa em direção ao gol do adversário. Numa sincronia perfeita da qual nenhum roteirista de Hollywood participou, o Paulo me fez um cruzamento cordial e chutei cheio de vontade para um gol que não tinha como errar.

Aquele foi meu primeiro gol legítimo. De fato, meu único gol – um gol que meu sorridente cúmplice não precisava de mim para fazer e que creio só nós dois celebramos. Apenas mais um dos privilégios gentis com que a sua amizade me presenteou – mas mais um que não tenho como esquecer.

Te devo uma, Paulo Henrique. Ter um amigo me salvou e me desafiou a ser digno dele – a tornar-me, quem sabe, um.

_

Procurei recentemente o nome do Paulo Henrique na internet e encontrei: ele respondeu meu e-mail no dia seguinte. O Paulo é formado em Engenharia Elétrica; é casado com Ana Lúcia:, tem dois filhos (o Leonardo de quatro anos e o Thiago de dois) e é proprietário de uma escola de idiomas em Bauru. Lembramos juntos com saudades daqueles tempos e ajustamos de nos encontrarmos em breve.

A voz do amigo
O abraço do amigo
O rosto do amigo



10 Comentários a respeito de "Redimido pela amizade"

Paulo Henrique Dalálio

Lágrimas nos olhos ao término da leitura.



Paulo [brabo!]

Esta aí o Paulo que não me deixa mentir. Obrigado por ser meu amigo, cara.



Marco Dalalio

Imagine o que eu sinto por Deus ter me dado a chance de ser irmão deste seu amigo chamado Paulo Dalalio.



Alice

Estou com lágrimas nos olhos também. Lembro do meu irmão franzino indo para o Luiz Zuiani. Lembro o sentimento de não saber sequer onde pegar o ônibus voltando do Prevê Objetivo, o Cardia-Monlevade. Bauru era, a princípio, uma incógnita. Pra mim, na verdade, nunca deixou de ser. Nunca tive uma amizade como essa lá. Aproveitem o privilégio de cultivarem essa amizade ainda hoje. :cool:



Alice

Outro detalhe: mudamos para Bauru no dia 10 de fevereiro de 1979. Nunca vou esquecer. Não foi em 1980 como você diz na crônica. Data pra ser colocada na história.



Paulo [brabo!]

Imagine o que eu sinto por Deus ter me dado a chance de ser irmão deste seu amigo.

Acredite, eu posso imaginar. Dê um abraço forte nesse seu irmão e diga que fui eu que mandei.



Frááá

Paulo Henrique… como já diria meu “migo” Paulo Purim, vc é TOTAL!



Silvana Marques

Sua história de amizade tem o poder de nos fazer lembrar de nossas próprias histórias ou de desejar que ela (re)aconteça. Beijos.



Alice

Cadê a versão em inglês? huh?:???:



Maurício, M.

Estou em Recife há um ano. Numa fase de reclusa introspecção (com o perdão da superfluidade). A princípio, tomava isto como sinônimo de prudência. Hoje, sorvido pelo vazio e cheio de “teses” continuo sem amigos… e com uma ininteligência social insustentável. Alguém deste “prato de balança” pode dar um auxílio “demasiadamente barato”. Uma indicação de livro ou filme será bem vinda. Mas… Alegrar-me-ia o calor humano. “Respondez S’il vous plaît.” (Com poucas milhas na “A BACIA DAS ALMAS”, que conheci após o texto do concurso TRT, corro o risco da confissão).



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