Li há algum tempo, em inglês, A Linha do Tempo de Michael Crichton e achei bem fraquinho, se é que tenho direito de dizer isso. Nada que lembre o poder de O Parque dos Dinossauros. Perdido no meio da história está, no entanto, um conceito que achei que valia um livro só pra ele. Era esse, na minha opinião, o livro que Crichton deveria ter escrito. Mas se ele não fez, alguém pode ter de fazer por ele.
[São] provincianos do tempo, gente que ignora o passado e se orgulha disso.
Os provincianos do tempo estão convencidos de que o presente é a única coisa que importa, e que tudo que ocorreu antes pode ser ignorado com sem maiores problemas. Para eles o mundo contemporâneo é rico, novo e suficiente, e o passado não tem nenhum interesse. Estudar história é tão inútil quanto aprender o código Morse, ou aprender a dirigir um carro de boi.
A verdade é que o mundo moderno foi inventado no passado. Quem não sabe disso não sabe os fatos básicos a respeito de si mesmo. Por que motivo age como age. De onde veio.
Todos nós somos governados pelo passado, embora ninguém compreenda isso. Ninguém reconhece o poder do passado. Mas se você pensar no assunto, o passado sempre foi mais importante do que o presente. O presente é como uma ilha de coral que aponta acima da da água, mas que está construída sobre milhões de corais mortos sob a superfície. Do mesmo modo, o nosso mundo cotidiano está construído sobre milhões e milhões de eventos e decisões que ocorreram no passado.
Um adolescente toma café da manhã e vai até uma loja comprar um CD da sua banda favorita. O adolescente pensa que vive no momento moderno. Mas quem definiu o que é uma “banda?” Quem definiu “loja”? Quem definiu “adolescente?” “Café da manhã?” Isso pra não falar no resto, todo o seu ambiente social — família, escola, roupas, transporte e governo.
Nada disso foi decidido no presente. A maior parte dessas coisas foi definida há mais de cem anos. O adolescente está em pé na montanha que é o passado. E não percebe. Ele é governado pelo que não vê, por aquilo em que não pensa, por aquilo que não conhece. Esse mesmo adolescente é radicalmente contra qualquer espécie de controle — restrições dos pais, propaganda, leis do governo. Mas o governo invisível do passado, que decide praticamente tudo na sua vida, passa despercebido.
(extraído de dois trechos de Timeline, de Michael Crichton)




