26 de Novembro de 2004

Pecado nuclear

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Fé e Crença, História, Quase Ciência

Em 1944 os Estados Unidos trabalhavam implacavelmente no desenvolvimento final da bomba atômica.

Quando a inteligência aliada divulgou que o Reich não tinha uma bomba atômica, apenas um dos cientistas envolvidos na fabricação da bomba americana renunciou ao projeto.

A motivação declarada do Projeto Manhattan era impedir que Hitler fosse o primeiro a ter uma arma nuclear. Quando a inteligência aliada divulgou, em novembro de 1944, que o Reich não tinha uma bomba atômica nem estava desenvolvendo uma, apenas um dos cientistas envolvidos na fabricação da bomba americana, o polonês Joseph Rotblat, renunciou ao projeto. Ele acreditava que, uma vez provado que os nazistas não recorreriam à bomba, a justificativa americana perdera qualquer peso: a conseqüência moral era que o projeto deveria ser abandonado.

Rotblat foi obrigado pelos americanos a não divulgar aos seus colegas o motivo do seu afastamento – para não influenciá-los a talvez, chegar à mesma conclusão e à mesma decisão que ele.

Três meras semanas antes do lançamento da bomba de Hiroxima, o cientista Leo Szilard escreveu uma petição ao presidente Truman, desaconselhando-o a usar o potencial nuclear e dessa forma abrir um precedente para o seu uso. Ele sabia que, uma vez transposta a barreira ética inicial, ninguém que chegasse a desenvolver a bomba atômica teria escrúpulos em usá-la mais tarde. Ele não queria que essa culpa recaísse sobre a iniciativa americana. Ele argumentava:

O desenvolvimento do puder nuclear dará aos países novos meios de destruição. As bombas atômicas à nossa disposição representam apenas o primeiro passo nessa direção, e quase não há limite para o poder destrutivo que se tornará disponível no curso de seu desenvolvimento futuro. Assim, um país que institui o precedente de usar essas forças da natureza récem-liberadas para fins de destruição, pode ter de assumir a responsabilidade de abrir a porta para uma era de devastação em escala inimaginável.

A petição, naturalmente, não foi ouvida. Em agosto de 1945 as bombas desceram silvando de seus B-29, com um intervalo de três dias entre a que atingiu Hiroxima e a que tocou Nagazaki. Estima-se que as duas bombas juntas tenham matado 110.000 cidadãos japoneses e ferido outros 130.000. Em 1950 mais 230.000 japoneses haviam morrido como conseqüência da radiação.

Numa espécie de sentido bruto, os físicos conheceram o pecado.

No ano seguinte o físico J. Robert Oppenheimer, líder do projeto da bomba americana, confessou numa entrevista à revista Time:

“Numa espécie de sentido bruto, que nenhuma vulgaridade, nenhum humor e nenhuma declaração exagerada podem extinguir direito, os físicos conheceram o pecado; e este é um conhecimento que não podem perder”.

Joseph Rutblat, o homem que abandonou o Projeto Manhattan e não quis ter nada a ver com a bomba americana, ganhou em 1995 o Prêmio Nobel da Paz por sua luta posterior em favor do desarmamento nuclear.

Fonte: Os Cientistas de Hitler, de John Cornwell



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