10 de Junho de 2004

Para todos

Incorporado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

A Verdade é uma frase de oito palavras, e está na internet.

Descobri-o esta manhã, inteiramente por acaso, nos resultados de uma busca sobre determinada palavra-chave que não revelarei. Minha primeira reação foi de ruborizado horror; no momento seguinte, de selvagem indignação. Por fim, alívio: alívio tão profundo como jamais sonhei que voltaria a experimentar.

Uma nervosa ponderação brotou ocasionalmente no decorrer do dia, mas minha tranquilidade era definitiva, eu o sabia. Meu próprio zelo não seria capaz de tirá-la de mim.

A Verdade está lá, mas está, talvez pela primeira vez, inteiramente segura. Para começar, a Verdade não pode (a não ser por um assombroso acaso) ser encontrada naqueles lugares da internet que discorrem fastidiosamente sobre a verdade. Em segundo lugar, a Verdade não está rotulada de verdade, nem poderia estar – e por isso tende a passar despercebida. Terceiro, pelas razões que acabei de expor, a Verdade só pode ser reconhecida por quem já a conhece.

Apenas começo a saborear as implicações de minha nova condição, mas não estou, evidentemente, autorizado a dizer muito mais. Sobre a natureza da Verdade, tenho apenas um ponto a esclarecer. Embora possa ser expressa concisamente em oito palavras, a Verdade não é as palavras que a expressam; não é uma fórmula mágica. O motivo para manter a Verdade em segredo até agora não é o seu poder intrínseco, algum desmesurado potencial, mas suas implicações, digamos assim, psicológicas. Não se trata de uma Verdade positiva, no sentido de que se possa fazer algo a respeito, ou que produza novas expectativas no seu possuidor. Pelo contrário.

Ao contrário do que se possa pensar, a Verdade não tem como cair em mãos erradas. Ela pode, isso sim, cair em mãos incapazes de suportá-la, e a tarefa que recebeu gente como eu foi simplesmente impedir que acontecesse. O risco sempre foi mínimo, reconheço, mas estou convicto de que agora é inexistente.

Minha recém-adquirida tranquilidade não vem da natureza da Verdade, que é de certa forma trivial, mas da natureza da internet. Por sua própria redundância, sua indulgente vastidão, sua inexorável abrangência, a internet é o melhor lugar, percebo agora, para se esconder a verdade.

Posso garantir com absoluta certeza que, antes do advento da internet, a Verdade nunca havia sido colocada por escrito. Nunca havia sido registrada – em livro algum, periódico algum, ouso dizer guardanapo algum. Houve tempo, dizem, em que os Guardiães eram menos reservados do que são hoje, mas nunca fomos autorizados a verbalizar a Verdade diante de quem quer que seja, muito menos registrá-la por escrito. Parte da nossa atribuição, na verdade, era ir a extremos para que não acontecesse. Nunca na história foi necessário ir a extremos.

Agora, colocada por escrito na internet, a Verdade alcançou a anonimidade e a perfeita indiferença que nunca o segredo seria capaz de conceder. Ignoro se foi um Guardião que divulgou a Frase na internet (se foi, o fez fatalmente sem autorização); fato é que agora, no abismo sem fundo da informação, no castelo inviolável da opinião, a Verdade pode ser lida por quem quer que seja – e portanto ignorada por todos.

O segredo está a salvo, e posso descansar.

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