14 de Novembro de 2004

O Wal-Mart de Teotihuacan

Fermentado por   Paulo Brabo

 

Estocado em História, Política, Sociedade

A jornalista Naomi Klein, numa palestra recente, chama a atenção do mundo para “uma facção de extremistas que cruzou a fronteira do Iraque, armada até os dentes, com o propósito de espalhar o terror e estabelecer um estado fundamentalista”. Ela esclarece:

“Não se trata do Al-Qaeda, não se trata do Taliban, não se trata de tropas de apoio iranianas; os mencionados fundamentalistas (e não uso a palavra de forma vã) são a extrema direita do partido republicano dos Estados Unidos. Estou falando sobre a sua tentativa de impor não o fundamentalismo religioso, mas o fundamentalismo econômico, fundamentalismo de ‘mercado-livre’, no Iraque”.

Como que para ilustrar o sucesso das Novas Cruzadas e da expansão do fundamentalismo econômico americano, semana passada saiu a notícia da abertura de uma loja do Wal-Mart a menos de 900 metros das antigas pirâmides de Teotihuacan, no México – sinalizando a derrota final da campanha de oposição dos inúmeros grupos locais e internacionais que sustentavam que a presença do ícone do consumismo norte-americano iria fatalmente macular e prejudicar as ruínas milenares.

“Isso é o progresso”, disse um deles. “As pessoas precisam bem-estar para as suas famílias mais do que precisam de cultura”.

Teotihuacan, um complexo de pirâmides com mais de 2000 anos de idade, é o maior sítio arquológico mexicano fora da Cidade do México. De acordo com a reportagem que li, muitos moradores da localidade próxima de Bodega Aurrera receberam favoravelmente a inauguração, por causa dos preços baixos e dos novos empregos que o novo Wal-Mart representa.

“Isso é o progresso”, disse um deles. “As pessoas precisam bem-estar para as suas famílias mais do que precisam de cultura”.

Enquanto isso outro grupo de moradores fazia uma vigília de protesto no parque turístico que abriga as pirâmides, na tentativa de despertar a simpatia internacional para a sua causa.

“Hoje não é a igreja, é o Wal-Mart. Não é o deus católico, é o dinheiro”.

A reportagem prossegue:

[O Wal-Mart de Teotihuacan] está localizado numa região intermediária que é parte do sítio arqueológico mas onde outros negócios menores brotaram nas últimas décadas.

Os oponentes dizem que a nova loja ameaça as ruínas, prejudicará a iniciativa local e dará fim ao modo de vida local. A sua luta ecoa a oposição dentro dos próprios Estados Unidos, onde muitas cidades pequenas tiveram sucesso em evitar a entrada do Wal-Mart.

Aqui no entanto a batalha alcança proporções grandiosas, na medida em que os oponentes comparam o avanço do Wal-Mart e da cultura capitalista à conquista do antigo México pela Espanha em nome do cristianismo.

“Hoje não é a igreja, é o Wal-Mart. Não é o deus católico, é o dinheiro”, disse Jorge Alan Medina, um dos protestantes junto às pirâmides.

O Wal-Mart alega que a loja representa um investimento na comunidade que irá gerar melhoria na qualidade de vida. Mais de 2000 moradores locais candidataram-se aos 186 empregos na loja.

“Eles deveriam pensar a longo prazo”, declarou Raul Arguello, vice-presidente de assuntos corporativos da Wal-Mart México, a respeito dos oponentes. “Se eles importam-se de fato com Teotihuacan deveriam respeitar a maioria e deixar de criar maiores divisões”.

Leia também:
As variedades da experiência capitalista



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