O sonho de Jair era casar-se com uma mulher que não estivesse apaixonada.
Ao contrário do que essa revelação poderia sugerir, Jair era um sujeito muito romântico. De tão romântico que era, havia concluído que o casamento só valeria à pena se sua esposa tivesse alguma chance legítima de ser feliz ao lado dele.
O problema é que ele sabia, pela análise de casos, que quando a noiva está apaixonada a desilusão com o marido é coisa certa e a infelicidade inevitável: a desilusão vem, a paixão se esgota e o coração passa a secretar rancores corrosivos que acabam roendo a corda da relação.
“Para não ter como desiludir-se”, ponderou Jair, “uma mulher que se casa deve necessariamente não estar apaixonada”. Apenas assim o casamento teria alguma chance.
Analisando o problema mais de perto, ele concluiu que as mulheres que se disporiam a casar com ele cairiam inevitavelmente em três categorias:
(1) as que estivessem de fato apaixonadas por ele;
(2) as que tentariam convencê-lo de que estavam apaixonadas por ele;
(3) as que tentariam convencer-se de estavam apaixonadas por ele.
E ele queria escapar de todas.
Jair esboçou planos, ponderou variáveis, traçou diretrizes e por fim destilou um método.
Poucos meses depois ele estava sob o luar de uma praia deserta abraçando a sua jovem noiva.
– Eu não te amo – ele disse.
– Eu também não dou a mínima para você – disse ela, achegando-se no peito dele.
Jair fechou os olhos e sorriu, aspirando a chance de ser feliz.
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